Crítica | Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança (Adaptação Literária, 1976)

estrelas 5,0

Para qualquer um que já teve o mínimo contato com a clássica amplitude do universo concebido na franquia Star Wars e com toda a gama de material que ela originou, descobrir livros oficiais da série, com a exata história dos filmes, assinados pelo próprio George Lucas, pode não ser uma surpresa. Aliás, ainda mais agora, com uma tendência crescente do cinema para adaptações literárias, cair no equívoco de crer que não é surpresa tanta criatividade ter vindo de uma adaptação é perfeitamente compreensível. Para quem não sabe, porém, uma surpresa: dessa vez, os filmes é que inspiraram os livros, não o contrário.

Isso mesmo. Apesar da primeira parte da saga de Luke Skywalker e seus amigos ter sido originalmente lançada em livro em 1976, enquanto que o filme correspondente chegou às telonas em 1977, o primeiro foi escrito por Alan Dean Foster a partir do roteiro do longa. Sim, Foster, não Lucas. Talvez outra surpresa, mas Foster foi contratado como “escritor fantasma” (ghost writer). Por isso, apesar de George Lucas constar como autor, é de Foster a composição da obra literária. Autor oculto que, se inspirado por um roteiro, conseguiu não só ser fiel a ele como enriquecê-lo e até melhorá-lo num ponto ou noutro, tanto que, se não gerou o clássico cinematográfico, poderia perfeitamente tê-lo feito.

Neste primeiro livro, intitulado Uma Nova Esperança, tal qual o filme, somos apresentados às forças imperiais, à resistência rebelde, ao garoto Luke Skywalker e companhia. Vemos a vida de Luke virar de cabeça para baixo quando seu famoso planeta desértico de Tatooine é invadido por agentes do império e acompanhamos os primeiros passos do protagonista em sua iniciação como Cavaleiro Jedi – guerreiros que, guiados pela energia cósmica na qual acreditam, denominada simplesmente A Força, devem proteger o mundo contra o mal. Todos os elementos introdutórios da saga estão contidos nas páginas e Foster claramente conhecia muito bem as nuances da trama e de seus personagens quando a transpôs para a linguagem escrita. Trata-se de uma narrativa muito objetiva, de poucos floreios apesar de sua natureza épica, mas que consegue fazer uso de sua linguagem para uma abordagem mais intimista dos personagens, sem que por isso o ritmo da narrativa seja prejudicado em relação ao caráter dinâmico do filme.

Não se trata, porém, de uma novelização que busca contar uma história mais imponente ou de maiores proporções do que a do longa. Não, o livro apenas a relata com fidelidade e se apropria da linguagem literária para proporcionar ao leitor maior clareza e realismo em dados acontecimentos, bem como para criar pontos de identificação mais aprofundados com certos personagens.

Um bom exemplo da eficácia nesse último objetivo são os carismáticos Pezero e Erredois Dedois, o primeiro um mandão e rabugento androide atrapalhado e o segundo um rebelde, que se comunica apenas por ruídos eletrônicos e é esperto demais para que a arrogância do parceiro o perceba como tal. No longa, desde o início esse contraste fica evidente, é claro, mas no livro os droids são ainda mais humanizados e a interação deles com as cenas fica mais clara – como é o caso na invasão imperial à nave que transporta a Princesa Leia, ainda nas primeiras páginas, na qual o ponto de vista das máquinas quanto à batalha é indicado de modo bem mais acentuado do que no filme.

Já com respeito ao realismo, vale citar, por exemplo, o trecho que relata a compra efetuada pelo tio de Luke (Owen Lars) dos nossos droids. Antes que Erredois Dedois seja tirado das garras dos Jawas, o homem adquire um robô defeituoso que se desmantela ao mal ser vendido. No filme, o tio de Luke sequer reclama e logo aceita a sugestão de Pezero para comprar Erredois, mas no livro é enfatizada uma tensão entre o tio e os Jawas antes que a troca seja feita.

Com uma descrição arrebatadora dos momentos de ação – a batalha final é que o diga – a novelização do posteriormente considerado Episódio IV da saga Star Wars, ou Guerra nas Estrelas, cumpre perfeitamente o seu papel de dar à parte inicial da trama um diferencial digno pelas possibilidades da linguagem escrita. Por isso, é o tipo de trabalho que efetivamente faz pessoas questionarem a real origem da história tal qual questionam se foi o ovo ou a galinha a surgir primeiro, talvez sem pensar que um pode ser tão igual quanto diferente do outro.

Guerra nas Estrelas (Star Wars) – EUA, 1976
Autor: George Lucas (Alan Dean Foster como ghost writer)
Tradução: Ronaldo Sérgio de Biasi
Lançamento no Brasil: Editora Record
Páginas: 182

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.