Crítica | Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança

estrelas 5,0

A tarefa de escrever uma crítica sobre Guerra nas Estrelas (é assim que ainda me refiro ao primeiro; só usei o título “atual” para fins de organização) por alguém que respirou a mitologia da série por toda a sua vida é, no mínimo, uma tarefa árdua e perigosa. Árdua, pois comentar os aspectos dessa obra definidora em uma crítica e não em uma tese de mestrado é um exercício até doloroso de concisão (e, como verão, o resultado nem ficou tão conciso assim). Perigosa, pois sou, sem vergonha de dizer, um gigantesco fã do filme e dos dois que se seguiram. Conheço cada diálogo, cada personagem – por mais obscuro e irrelevante que seja – cada alteração (ah, malditas alterações!) feitas por George Lucas em seus arroubos perfeccionistas, cada arte conceitual, cada tema musical.

O amor leva à proximidade, a proximidade leva à cegueira, a cegueira leva às hipérboles elogiosas. É aí que mora o perigo para qualquer crítico. Mas não tenho como evitar. É mais forte do que eu. Portanto, estejam avisados: aqui quem escreve é um fã de Guerra nas Estrelas, um fã que viu a obra no cinema quando de seu lançamento, adquiriu todas as versões em todos os formatos de vídeo doméstico e que casou – sim, casou! – ao som do tema principal do filme (tentei com a Marcha do Império, mas fui vetado). Mas é um fã que também se cansou da diluição causada pela exploração maciça e incessante da obra toda hora em qualquer lugar, cortesia de seu próprio criador, que espremeu todo o vigor de sua vaca leiteira.

Alguns posteres originais

Algumas artes originais dos posteres de Guerra nas Estrelas, inclusive o teaser. Qual é seu preferido?

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Guerra nas Estrelas é uma obra cuja importância para o Cinema de Entretenimento (com maiúsculas mesmo) é incomensurável. Se o termo blockbuster foi cunhado quando Tubarão literalmente arrasou os quarteirões nos Estados Unidos, Guerra nas Estrelas deu a verdadeira dimensão do poder desse tipo de cinema feito para envolver as massas, sem exigir que cérebros fossem desligados (a regra hoje em dia). Afinal, George Lucas tinha uma visão – cheia de cifrões é verdade – e essa visão de estúdio independente, recém-formado e que precisava galgar seus próprio passos (essa era a Lucasfilm da década de 70) envolvia a capitalização máxima com suas propriedades. E isso se deu com algo inédito e realmente milagroso: a negociação com a Fox, que deixou que Lucas ficasse com todos os direitos sobre merchansiding, algo completamente inimaginável nos dias de hoje. Inimaginável, pois, ironicamente, foi o próprio Guerra nas Estrelas que mostrou que um filme pode ser explorado ao limite, vivendo décadas só de brinquedos e publicações. E a ironia continua, pois Guerra nas Estrelas é a marca do filme independente, feito por um estúdio independente que se tornou tão relevante que sua estrutura é, atualmente, o padrão da indústria. Maldição? Preço do sucesso? Destino? Escolham a opção que se encaixa melhor. Pessoalmente, fico uma singela explicação: a Força estava com George Lucas.

Guerra nas Estrelas nos Cinemas

Chega a ser ridículo imaginar, mas Guerra nas Estrelas foi lançado em 25 de maio de 1977, uma quarta-feira, em apenas 32 cinemas, com mais oito sendo somados na quinta e na sexta. 40 cinemas no total. Mas, pela primeira vez na história do famoso Chinese Theater, ele recebeu uma segunda estreia lá, em agosto do mesmo ano. No final das contas, somando os vários relançamentos que se seguiram, o filme fez, até o momento, quase 461 milhões de dólares só nos EUA e mais 314 milhões fora dos EUA. Pouco? Bem, pensem que esses números não são corrigidos e que o filme custou – também em números históricos – 11 milhões de dólares. E claro, só estou contando aqui o faturamento no cinema e só de um filme e não merchandising e outros derivados.

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Conseguem me ver ali, bem à direita, debaixo daquela árvore?

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Cruz de Ferro, Guerra nas Estrelas e O Poderoso Chefão – Parte 2 em um só cinema? Parece ficção científica…

O merchandising

Ninguém, nem mesmo George Lucas esperava o sucesso estrondoso de Guerra nas Estrelas. A Kenner, licenciada para brinquedos, foi pega de surpresa, ao ponto de não ter nada para oferecer a não ser “vales-brinquedos”, que poderiam ser trocados pelas “figuras de ação” (bonequinhos ainda para mim!) básicas do filme. A Marvel se recusou, em 1975, a produzir uma adaptação do filme em quadrinhos e somente depois que Lucas celebrou uma licença gratuita – sim, inicialmente gratuita! – ela envidou esforços para lançar a pedra fundamental do que seria uma série de enorme sucesso e ininterrupta de 1977 a 1986, depois absorvida pela Dark Horse Comics e, na virada de 2014 para 2015, novamente retornando para a Marvel, depois que a Disney comprou tanto a Lucasfilm quanto a Marvel.

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Hoje, só esse “certificado” de promessa de compra em papel vale uma pequena fortuna…

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Sonho de consumo!

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A Marvel levou a licença gratuitamente! Conseguem imaginar isso?

Mas eu divago, ainda que o enquadramento da importância história do filme seja essencial à compreensão de meus comentários.

Em termos puramente cinematográficos, Guerra nas Estrelas é um divisor de águas. Bebendo, colhendo, repaginando e reaproveitando aspectos de uma vasta gama de obras anteriores, de clássicos como o Senhor dos AnéisMetrópolis, A Fortaleza Escondida e 2001 – Uma Odisseia no Espaço, passando pelo espírito dos serials de ficção científica dos anos 30 e 40, dentre eles talvez o mais importante sendo Flash Gordon (Lucas tentou a licença de Flash Gordon e, ao não conseguir, passou a desenvolver a ideia original que havia tido), Lucas criou um molde coeso para aventuras sci-fi que, mesmo hoje em dia, é difícil encontrar paralelo. Ele reuniu o que cada elemento inspirador tinha de melhor e fez seu próprio universo, um em que monarquias benignas convivem com repúblicas que convivem com um império maligno, um em que androides têm personalidades tão ou mais fortes que suas contrapartidas humanas, um em que a mitologia remonta há milhares de anos sem que isso precise ser dito com todas as palavras e um em que o misticismo permeia cada fotograma. É um universo “usado”, “vivido”, “experimentado”, cuja história começamos a ver do meio – literalmente do meio, daí o Episódio IV que o título ganhou depois de seu lançamento – e que mesmo assim achamos familiar. É a amálgama perfeita entre conto de fadas, drama político e heroísmo raso, com pitadas de épico e de ópera espacial. Uma verdadeira armadilha audiovisual que vicia e da qual o espectador não consegue escapar.

Mas a riqueza do que está “por trás” é algo que só é visto por quem realmente decidir mergulhar nas fontes inspiradoras de Guerra nas Estrelas. O roteiro de Lucas, em si, é direto e objetivo, com personagens simples e pouco profundos em um primeiro olhar. Mas a simplicidade não é defeito se ela nos é entregue de maneira exemplar. A simplicidade, ao contrário, nesse caso, nos faz imergir no estado de guerra civil em que o filme nos joga e a simpatizar, imediatamente, com os muito bem construídos androides enviados para Tatooine (ok, um deles ao menos) para achar um velho general que seria a última esperança da rebelião, depois que a nave de uma princesa é atacada por um terror espacial chamado Darth Vader. E, quando os irresistíveis androides são vendidos para um fazendeiro, seu sobrinho é nosso foco de atenção: a imagem da inocência idealista que, agora, precisa encontrar o tal general depois de ver a bela princesa em fragmento de mensagem holográfica. E, para sua surpresa, esse velho não só é um chamado cavaleiro Jedi, de uma ordem anterior ao opressivo Império, como também conhecia seu pai que, mais surpresa ainda, também fora um Jedi.

A partir daí, a evolução do roteiro é natural e consegue encapsular uma luta de gerações e que abrange galáxias em um grupo pequeno de rebeldes sendo ajudado por um piloto mercenário e seu co-piloto peludo de língua ininteligível. O absurdamente gigantesco é levado para uma escala mínima, carregado não pela complexidade narrativa, mas sim pela imediata relação que passamos a ter com cada um de seus personagens: C-3P0 (Anthony Daniels), R2-D2 (Kenny Baker), Obi-Wan Kenobi (Sir Alec Guiness), Luke Skywalker (Mark Hamill), Princesa Leia (Carrie Fisher), Han Solo (Harrison Ford) e Chewbacca (Peter Mayhew), todos nomes que trarão lembranças à cabeça mesmo de que nem mesmo viu o filme (ainda tem alguém que realmente não viu Guerra nas Estrelas?). E claro, do lado de lá, temos as presenças malignas de Grand Moff Tarkin (Peter Cushing) e do imponente ser de armadura negra Darth Vader (David Prowse, com voz de James Earl Jones). São representantes de um universo fascinante, muito longe daqui e ao mesmo tempo muito próximo e há muito tempo atrás, ainda que pareça o futuro.

Que elenco!

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Eu é que sou baixo demais para um Stormtrooper, jura?

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Imagina só o calor que Anthony Daniels estava sentindo…

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Tá faltando algo nessa cena…

Uns poderão dizer que alguns dos atores-chave, notadamente Hamill e Fisher não são bons e essas pessoas terão toda razão. Olhando para trás, vemos que ambos jamais se destacaram em mais nada (sim, Hamill tornou-se um dublador fantástico, mas estou falando em atores completos), mas, em Guerra nas Estrelas, eles estão perfeitos como o garoto arrancado abruptamente da inocência e a garota furiosa que tem uma missão. Se não são tão bons quanto os demais, devo dizer que não parece. Para todos os efeitos dramáticos dessa fita, estão em pé de igualdade até mesmo com Sir Alec Guiness que, por melhor que fosse, estava famosamente de má-vontade no set e jamais gostou desse seu papel, sendo vocal a respeito por anos depois.

Mas a simplicidade enganosa do roteiro, as atuações marcantes criando personagens inesquecíveis não seriam nada – ou seriam muito menos – não fossem personagens simplesmente extasiantes nos bastidores: os magos de efeitos especiais da Industrial Light & Magic (ILM), sucessora de gênios de efeitos visuais de outrora e predecessora de absolutamente todas as empresas de efeitos visuais e computação gráfica hoje existentes. Lucas sempre teve um mérito: perfeccionismo. A ILM foi fundada por ele em 1975 para a produção de Guerra nas Estrelas, para desenvolver a tecnologia que seria usada nas telonas para deslumbrar os espectadores dois anos depois.

Trabalhando freneticamente, John Dykstra (nome sugerido por Douglas Trumbull, famoso pelos efeitos de 2001: Uma Odisseia no Espaço, que declinou o convite de Lucas), Ken Ralston, Richard Edlund, Dennis Muren, Joe Johnston (sim, o diretor de Capitão América: O Primeiro Vingador), Phil Tippett, Steve Gawley, Lorne Peterson e Paul Huston, formando o lendário time inicial, foram onde nenhum homem antes fora e desenvolveram tecnologia pioneira, que estabeleceu e ainda estabelece o padrão da indústria. Antes dos efeitos em computação gráfica entrarem em cena – a ILM começou a trabalhar nesse tipo de efeito somente em 1979 (também pioneiros!) – eles criaram fantásticas miniaturas que usaram para permitir batalhas espacias sobre o chroma-key azul e para criar sequências em stop motion, como a do jogo de dejarik (aquele que RD-D2 ganha inocentemente de Chewie na Millenium Falcon, que não gosta nada de perder…). A técnica de pintura manual do celuloide, algo antigo, foi elevado à décima potência para tornar críveis os geniais e antológicos sabres de luz e, talvez o que mais pessoalmente me assombre, a técnica de pintura matte (aquelas pinturas com efeito de profundidade, usadas comumente como fundo de determinadas sequências) alcançaram talvez seu ponto máximo, com trabalhos que até hoje desafiam sua detecção pelo cinéfilo mais cuidadoso e detalhista.

A mágica da ILM

Fundada em 1975, a ILM foi uma frenética fábrica de mágica, começando com Guerra nas Estrelas e passando por literalmente todos os filmes mais importantes das décadas seguintes.

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Não, eles não foram ao espaço para filmar na órbita de Tatooine…

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Ceci n’est pas une Millenium Falcon…

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Vai desenhar bem assim lá em Dagobah!

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Brinquedos!!!

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Eu quero um! Não, esquece! Quero DOIS!!!

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Olha essa manobra…

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Mais um pouco e cabe o cara lá dentro…

E o interessante é que os conceitos trabalhados e desenvolvidos pela ILM tiveram ainda uma grande ajuda talvez do maior nome criativo envolvido em todo esse processo: Ralph McQuarrie. Esse nome causa calafrios de excitação em todos os verdadeiros fãs da saga e qualquer elogio é realmente bem merecido. Foi a arte conceitual desse grande artista que, trabalhando sob encomenda para George Lucas, criou painéis inesquecíveis que foram fundamentais para que a Fox, reticente com a empreitada, finalmente embarcasse no projeto, injetando o dinheiro necessário para que o filme acontecesse. Trabalhando apenas com um tratamento inicial de Lucas para suas ideias, com ideias ainda em ebulição, muitas delas nem de longe utilizadas no filme, McQuarrie montou um portfólio invejável que impulsionou a produção e gerou as imagens finais que  ficaram gravadas nas mentes de gerações.

Ralph McQuarrie, o gênio

Ralph Angus McQuarrie (13 de junho de 1929 – 03 de março de 2012) foi um dos grandes nomes da arte conceitual. Ele trabalhou antes da produção de Guerra nas Estrelas e, depois, por toda a produção da trilogia original (ele se recusou a voltar para a trilogia-prelúdio, em sábia decisão aliás), criando os visuais mais sensacionais da Sétima Arte. Sua filmografia, porém, vai além da trilogia, tendo trabalhado, também em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Battlestar Galactica (a série de TV original), Caçadores da Arca Perdida, E.T., Cocoon (levou o Oscar aqui), Star Trek IV, O Milagre Veio do Espaço e Raça das Trevas.

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Mais imponente que no filme!

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Esses não são os droids que você procura.

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É a nave que fez a corrida de Kessel em menos do que 12 parsecs!

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Vou tirar onda: em um de meus surtos gastadores, comprei essa gravura limitada e assinada por McQuarrie. Onde está? Jamais saberão!!!

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Um Sithtrooper?

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Quem atira pior, os Stormtroopers ou os pilotos dos Tie Fighters?

Usando técnicas consideradas antiquadas mesmo para a época, como swipes horizontais (retirados diretamente do serial de Flash Gordon) para a transição de cenas e empregando extremo cuidado para nos passar um universo crível, com lógica interna (para fins dessa crítica, claro, esqueçam que a Trilogia Prelúdio, mais conhecida como a Trilogia do Lado Negro da Força – e sim, eu uso “negro” no lugar de “sombrio”, pois “negro” não só e a tradução mais correta, como essa coisa de politicamente correto me irrita ao extremo – sequer existiu) e que captura a imaginação de espectadores de todas as idades, gêneros e credos.

Acontece que estaria cometendo um crime hediondo se terminasse minha crítica sem falar do monumental trabalho de John Williams na composição da trilha sonora da ópera espacial. Já veterano quando foi contratado para trabalhar em Guerra nas Estrelas e já tendo sido indicado a 11 Oscars na categoria e levado dois, o primeiro por  Um Violinista no Telhado (1971) e o segundo logo antes, em 1975, por Tubarão, Williams compôs talvez a mais lembrada música do cinema, empregando temas dramáticos e profundos para a saga, sem se furtar de costurar, em vários tempos diferentes, diferentes leit motifs para os mais importantes personagens e as mais importantes situações. Reparem como ouvimos acordes dedicados a Luke Skywalker sempre que ele está presente na tela, o mesmo valendo para a dupla de androides ou para Darth Vader. E não é música intrusiva e sim perfeitamente sincronizada à película, tornando-se, assim como em Tubarão, um personagem.

Se é possível reduzir e resumir Guerra nas Estrelas em uma frase, seria algo assim: é um filme independente que encapsula toda a mágica da Sétima Arte em um grande, mas íntimo universo que se transformou, instantaneamente, no padrão que a Indústria passou a perseguir, sem nunca verdadeiramente alcançar. Hiperbólico? Talvez, mas vejam lá meus dois primeiros parágrafos e que a Força esteja com vocês, sempre!

Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança (Star Wars: Episode IV – A New Hope, EUA – 1977)
Direção: George Lucas
Roteiro: George Lucas
Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Peter Cushing, Alec Guinness, Anthony Daniels, Kenny Baker, Peter Mayhew, David Prowse, Phil Brown, Shelagh Fraser, Garrick Hagon, Denis Lawson, Jack Klaff, William Hootkins, James Earl Jones
Duração: 121 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.