Crítica | Star Wars Episódio V – O Império Contra-Ataca (Trilha Sonora Original)

estrelas 5,0

A trilha sonora de O Império Contra-Ataca foi gravada entre dezembro de 1979 e janeiro de 1980, com John Williams à frente da Orquestra Sinfônica de Londres e exatamente o mesmo time de produção que gravou Uma Nova Esperança, com orquestração de Herbert W. Spencer; engenharia de som de Eric Tomlinson; edição de Kenneth Wannberg e supervisão técnica de Lionel Newman. Esse mesmo time se repetiria nos bastidores da trilha de O Retorno do Jedi, marcando a unidade técnica e familiaridade dos mesmos profissionais com a trilogia clássica. Musicalmente falando, isto significa similaridade de tratamento de som, ou seja, nada de variações técnicas fora do padrão estabelecido no Episódio IV; nada de diferentes manipulações de som, mal uso de canais de gravação ou qualquer outro capricho supostamente “inovador” que a adição de um profissional “de fora” pudesse trazer ao projeto. De todos os aspectos técnicos da trilogia original, a música é a que mais marca um diálogo uníssono.

A pergunta inicial aqui, para um espectador/ouvinte com um ouvido destreinado seria: o que há de novo entre uma trilha e outra?

Bom, basicamente tivemos a reorquestração de temas clássicos como a abertura e, no todo, os metais são mais estridentes e a resposta das cordas [violinos, violas, cellos e baixos] é inicialmente mais sutil, marcando um território de marcha/fanfarra que seria o caráter central do filme, muito por conta de seu conteúdo belicista e de os enfrentamentos serem bem maiores e mais intensos do que no longa anterior. Além disso, temos temas novos, não só para acompanhamento complementar das cenas mas também para caracterização de personagens (Yoda, Darth Vader, Boba Fett, Luke, Leia e Han) ou cenários (hiperespaço, asteroides e planetas Hoth e Dagobah).

Abaixo temos as imagens do LP original e as faixas musicais da presente trilha, considerando o lançamento em álbum duplo da RSO Records (lançamento original), nos Estados Unidos, em 1980.

 

  •  Lado 1: Star Wars (Tema principal), Yoda’s Theme, The Training of a Jedi Knight, The Heroics of Luke and Han.
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  • Lado 2: The Imperial March (Tema de Darth Vader), Departure of Boba Fett, Han Solo and the Princess, Hyperspace, The Battle in the Snow.
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  • Lado 3: The Asteroid Field, The City in the Clouds, Rebels at Bay, Yoda and the Force.
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  • Lado 4: The Duel, The Magic Tree, Lando’s Palace, Finale.
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Os Sons da Força Contra-Atacam
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Depois do sucesso mundial de Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança (1977) — ou apenas Star Wars — e o Oscar de Melhor Trilha Sonora que John Williams recebeu por ele (uma das 8 estatuetas que o filme ganhou), a pressão em cima do compositor para a partitura de Star Wars: Episódio V – O Império Contra-Ataca (1980) se tornou enorme. O principal motivo para isso foi a excelente criação do compositor para o mundo fantástico de George Lucas que conhecemos em 77. Mas havia mais. Williams vinha em uma sequência de composições notáveis que mostravam sua alta capacidade de desenvolver realidades musicais amplamente contrastantes ou fazer variações muito ricas para temas que ele já havia composto (falarei disso mais adiante) sem que parecessem reciclagem barata. Assim, destacaremos rapidamente suas principais trilhas no período que compreende os dois primeiros longas da trilogia original de SW.

  • 1977 —  Domingo Negro / Star Wars (Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora) / Contatos Imediatos do 3º Grau (indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora).
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  • 1978 —  A Fúria / Superman: O Filme (indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora).
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  • 1979 —  Drácula / 1941: Uma Guerra Muito Louca
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  • 1980 —  Star Wars: O Império Contra-Ataca (indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora).
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Trabalhando com diretores, cenários e estímulos diferentes em um curto espaço de tempo, Williams acostumou-se responder de forma rápida e bastante sentimental às imagens do primeiro copião que visse ao lado do diretor e dos produtores, exatamente como aconteceu em O Império Contra-Ataca. Entre as reuniões com o diretor Irvin Kershner e os produtores Gary Kurtz e George Lucas, Williams teve 6 semanas para compor e orquestrar (juntamente com Herbert W. Spencer) toda a trilha do filme, o que evidentemente não foi uma tarefa fácil.

Algumas pessoas podem perguntar: mas como isso pode ter sido difícil para ele, uma vez que “tudo já tinha sido feito no filme anterior?“. Bem, não estamos falando da mesma trilha sonora, evidentemente. Como já explicado antes, peças como o Main Theme permaneceram com a mesma estrutura musical mas receberam uma reorquestração ou, no mínimo, uma forma mais ou menos intensa de regência que acelerou ou desacelerou alguns compassos, evidenciou um grupo de instrumentos, tornou a percussão mais forte ou adicionou outros grupos de instrumentos à orquestra. Se temos um novo filme, temos uma nova trilha, a despeito das recorrências estruturais entre uma obra e outra.
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À Sombra do Império

A grande diferença temática é que O Império Contra-Ataca é uma história muitíssimo mais sombria. George Lucas já tinha batido o pé quanto ao caráter da trilha sonora e, depois do sucesso de Uma Nova Esperança, se tornou mais irredutível quanto ao uso de uma “trilha moderna” ou os típicos “temas musicais sci-fi” que martelavam os ouvidos dos espectadores em diversos filmes do gênero — logo, nada de música eletrônica ou concreta nos filmes da saga. O primeiro risco estava aí. Star Wars era um projeto ousado e futurista mas com uma trilha sonora tradicional, composta sob um caráter sinfônico que não era mais “a sensação” em Hollywood desde os anos 1960! Ainda por cima, John Williams não poupou referências operísticas e nem deixou de beber em fontes que iam do romantismo ao pós-modernismo clássico, trazendo referências de Wagner (O Anel dos Nibelungos), Holst (Os Planetas, especialmente a peça sobre Marte) a Shostakovich (9ª Sinfonia).

De todas as peças compostas para O Império Contra-Ataca a mais importante, sem sombra de dúvida, é The Imperial March (o tema de Darth Vader). Nós a ouvimos 41 vezes ao longo do filme inteiro, com diversas variações de execução, indo de algo bombástico para algo muito sutil.

No início do filme, na sequência de Luke com o Tauntaun, é possível ouvir um piccolo (flautim) sugerir o início da Marcha Imperial, uma linha que quase se perde entre trombones, trompas e trompetes, mas que ajuda a fixar na cabeça do espectador algo que ele ouviria muitas vezes dali pra frente. A mesma coisa acontece no acompanhamento dos créditos finais, só que desta vez de maneira mais evidente, com um pequeno grupo de metais engrossado por clarinetes tocando uma frase, num tempo mais lento, para a mesma marcha. John Williams e Irvin Kershner não deixaram dúvidas sobre o caráter temático e psicológico/emocional (em termos musicais) do filme: o Império estava rondando a tudo e a todos, do começo ao final desta parte da saga.

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The Imperial March é, ao mesmo tempo, um tema simples e conceitualmente complexo. Simples, porque Williams brinca com cromatismo, quase como se estivesse executando um exercício de escala. E complexo, porque este mesmo “quase-exercício de escala” ganha adições e combinações harmônicas que denotam de imediato poder, medo, dominação e ameaça. Eu escolhi três demonstrações para comentar essa construção aos poucos e provar esta “complexa simplicidade”. Vamos a elas.

The Imperial March : melodia + harmonia simples ao piano (sem partitura)

Essa demonstração é para que vocês observem como a melodia central da marcha é uma brincadeira do compositor. Veja como ele organiza as frases melódicas a partir de arranjos, desarranjos e rearranjos vindos de uma mesma sequência temática original.

The Imperial March : melodia + harmonia originais ao piano (com partitura)

Agora que você já se familiarizou com os elementos melódicos e harmônicos simples, vamos acompanhá-los sob a perspetiva original, ao piano. Aqui é interessante porque você consegue entender melhor o papel do ritmo em cada uma das fases do tema (muitas vezes corrompidos por uma desnecessária velocidade nas versões orquestrais) e como a alternância entre tons maiores e menores se dão ao longo da peça.

The Imperial March : versão orquestral

Temos aqui a versão da Orquestra Sinfônica de Vancouver para o tema. O maestro pesa a mão em demasia do início da marcha, mas depois estabiliza o ritmo em um tempo mais próximo do original exigido pelo compositor. Perceba como a marcação da percussão ganha adições ao longo da marcha e como a relação entre os instrumentos, que você viu nos pianos acima, se torna cada vez mais rica e cresce, como uma bola de neve musical.

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O Coração da Força

Diferente dos outros dois filmes da trilogia original de Star Wars, O Império Contra-Ataca é propositalmente um filme de quase total contraponto dramático-musical. John Williams expôs aqui a maior diversidade da trilogia (considerando não só as peças compostas mas seu uso dramático no filme), aproveitando-se dos dois extremos que o roteiro da obra nos apresenta em paralelo: a bondade extrema e a maldade extrema.

A questão é que para um tema central desse porte, a trilha sonora normalmente cairia na armadilha do clichê das peças graves e sombrias para representar o mal e dos temas dóceis e românticos para representar o bem. Williams, no entanto, fugiu por completo dessa configuração. Ele compôs e concebeu o uso de um acompanhamento musical “contrário” ao que vemos, tocando em aspectos não ligados à ação representada e abrindo um leque de emoções no espectador que constantemente incita a emoção simplesmente porque há emoções demais para serem representadas. Tomemos como exemplo a execução do tema de Yoda. Dê o play enquanto você lê o restante do texto.

Yoda está em Dagobah quando nós (e Luke) o conhecemos. Dagobah é um lugar úmido, escuro, nojento, lamacento, pantanoso e assustador. Um compositor ‘normal’ colocaria como tema principal deste lugar uma peça sombria, algo que acompanhasse a realidade aparentemente macabra do planeta. Mas não é isso que temos em O Império Contra-Ataca. O principal tema musical do local, o tema de Yoda, é de uma beleza ímpar, uma peça romântica clássica (lembra um pouco Strauss, pelo lirismo) que nos faz sentir seguros e caminhando em um lugar mágico, quando na verdade estamos em um lugar aterrador. Aliás, a beleza e delicadeza do tema é tão grande, que é quase uma desonestidade do compositor para conosco porque ele não nos dá a opção de construirmos uma opinião sobre Yoda. Com uma música-tema tema dessas, como não amar o personagem de cara?

Em contraponto, temos lugares bonitos como Cloud City ou o hiperespaço que são representados musicalmente por uma marcha com andamentos diferentes, onde até a harpa soa em um contexto medonho. Há momentos em que vemos variações da Marcha Imperial tocada por diversos grupos instrumentais (predominantemente de sopro) e um grande número de compassos dissonantes, ou seja, a despeito da beleza visual dos lugares, a música nos dá uma informação diferente e de imediato entendemos que não somos bem vindos ali. Comprove isso ouvindo os dois temas abaixo.

Ainda poderíamos atribuir esta dualidade ao relacionamento de Leia e Han Solo, cujo conflito é imediatamente desmentido pela trilha calorosa e efetuosa que ouvimos em suas cenas de conjunto — ouçam Han Solo and the Princess com atenção. Em outro nível, podemos também ver a manipulação de tonalidades que Williams usa, por exemplo, ao exibir escalas menores toda vez que Luke tem algum tipo de dúvida em relação a Força ou ao que ele é capaz de fazer; ou ainda, a inesperada e clandestina inclusão de um sintetizador em Magic Tree/The Cave of Evil, que ouvindo rapidamente julgamos ser uma flauta ou um teremim, mas definitivamente é um sintetizador.

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As Muitas Faces do Heroísmo

Eu deixei para falar dos temas heroicos por último porque eles são um caso curioso nessa trilha sonora, abordados de uma forma bem diferente em relação a Uma Nova Esperança e que geraria frutos bem interessantes (mais imponentes) em O Retorno do Jedi.

Acontece que nas peças heroicas, John Williams parece ter juntado uma série de músicas inacabadas que ele tinha em um baú e conseguiu fazer com que tudo fizesse sentido e ainda homenageasse a um colega de profissão que ele admirava muito, Bernard Herrmann. Claro que essa homenagem não se dá em todas as peças heroicas, ela acontece especialmente na primeira parte de The Heroics Of Luke and Han, uma de suas composições que traz andamentos “desencontrados”, uso quase aleatório de instrumentos e até tendências orquestrais díspares, com pitadas de épico e suspense. Curiosamente, uma frase da Marcha Imperial aparece aqui, como um lembrete da constante ameaça que os dois enfrentavam. Ouça com atenção.

A graduação dessas tendências acontece dependendo do local em que a ação se dá (já falamos sobre isso) e da motivação psicológica das personagens, não porque a música a acompanha, mas porque a contradiz. Veja, por exemplo, como Rebels At Bay segue mais ou menos o mesmo caminho de The Heroics Of Luke and Han, mas se afasta completamente da sensacional The Battle In The Snow. Essas diferenças não só marcam o que já foi comentado sobre disparidades dramáticas através da trilha mas também nos mostra a capacidade de Williams em fazer variações quase imperceptíveis de temas que ele nos apresentou em outros momentos e que não prestamos muita atenção. Alguns exemplos são as melodias de flauta que ouvimos todas as vezes em que R2-D2 e C-3PO aparecem na tela ou na tríade de temas que temos abaixo, mais uma vez com compassos da Marcha Imperial (perceba a onipresença do Império nas peças) e força épica alternada com pequenas frases enigmáticas ou de uma reticente esperança. Carbon Freeze / Darth Vader’s Trap / Departure of Boba Fett.

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É muito difícil estabelecer alguma preferência entre as trilhas de John Williams para Star Wars, mas, da trilogia clássica, O Império Contra-Ataca ocupa um lugar mais que especial. Para mim, ela é muito mais rica que a trilha do filme que a precedeu e, junto com ele, marca todas as bases para os filmes vindouros, dos novos temas de O Retorno do Jedi à nova trilogia. A música de O Império Contra-Ataca não é só um ponto alto de uma insuperável saga galática cinematográfica, mas também um dos maiores momentos do incansável e inventivo John Williams, nosso velho criador de sonhos e pesadelos.

Star Wars Episode V: The Empire Strikes Back (Original Motion Picture)
Composto e conduzido por John Williams
País: Estados Unidos
Lançamento: 1980
Gravadora: Sony Classical
Estilo: Música Clássica, Trilha Sonora

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.