Crítica | Star Wars: Episódio V – O Império Contra-Ataca

estrelas 5,0

Quem já leu minha crítica de Guerra nas Estrelas (como ainda chamo e sempre chamarei o Episódio IV) sabe que não tenho como separar o lado pessoal do lado técnico. Àqueles que não leram, fica o aviso: sou fanboy de Star Wars como um todo. Reconheço os diversos defeitos da Trilogia Prelúdio, mas quase não consigo encontrar falhas na Trilogia Original, especialmente em O Império Contra-Ataca que, assim como muitos, considero o melhor filme da franquia.

E, exatamente por ser algo pessoal para mim, é que começarei com um depoimento muito próximo de meu coração (a crítica começa logo abaixo e, quem não quiser ler lembranças de minha infância, pule logo para o próximo capítulo). O Império Contra-Ataca é o primeiro filme cuja experiência cinematográfica eu lembro em detalhes (e eu chamava de “Império Tataca”…). Tinha oito anos na época e, lógico, já havia assistido Guerra nas Estrelas e aguardava ansiosamente pela continuação, que assistiria com minha mãe e minha prima ligeiramente mais velha.

Acontece que, parte por maldade, parte para “tirar onda”, minha prima, que já havia visto a sequência, contou-me, genericamente, que “o Império, dessa vez, ganhava”. Lembro-me vividamente o quanto isso me apavorou. Era uma época em que spoilers raramente existiam e eu não poderia imaginar em mil anos que um filme desse tipo acabaria com a vitória dos vilões.

Receoso, quase chorando (ok, talvez tenha sido um exagero essa parte), mergulhei no escuro do cinema para ver a prometida vitória do Império, mas esperando que fosse uma mentira deslavada e que Luke e companhia saíssem por cima. Como todos sabem muito bem, o Império realmente “ganha” e, pior do que isso, Darth Vader se revela como pai de Luke Skywalker. O impacto do tom sombrio da fita e da revelação do parentesco – o “NÃO” de Luke ecoou mentalmente em minha cabeça e demorei até o lançamento de O Retorno de Jedi para realmente acreditar nisso.

A moral da história é que, mais do que qualquer outro filme visto ainda em tenra idade, O Império Contra-Ataca me marcou. E profundamente. Até hoje sinto calafrios quando coloco o Blu-Ray no player e as sequências em Hoth começam a passar na telinha. E o “I am your father” sempre será um dos momentos mais inesquecíveis do Cinema e, tenho certeza, não estou sozinho nessa conclusão.

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O Império Contra-Ataca foi o primeiro filme da franquia Star Wars que realmente pode ser chamado de independente. Ele foi financiado, quase em sua integralidade, por fundos próprios da Lucasfilm angariados com o completamente inesperado sucesso de Guerra nas Estrelas três anos antes e com empréstimos bancários. Digo “quase”, pois, em determinado ponto da produção, com o filme custando mais caro do que o previsto, o banco precisou de mais garantias e a Fox então entrou no processo como avalista contra o pagamento de uma percentagem maior pela distribuição.

Com isso, George Lucas tinha a mais completa liberdade criativa e, diante de suas várias funções, decidiu não mais se envolver diretamente no roteiro e na direção. Assim, ele contratou a autora de ficção científica Leigh Brackett para escrever o roteiro, cuja primeira versão, sem parentesco entre Luke e Vader, mas já razoavelmente próxima do produto final, ela entregou em 1978, logo antes de falecer vítima de câncer. Lucas, detalhista (leia-se: chato) como sempre foi, não gostou de verdade do trabalho de Brackett, mas nunca teve oportunidade de discutir o assunto com ela e, com o falecimento, ele mesmo passou a criar novas versões do roteiro.

Foram essas versões que levaram à questão do parentesco e, pela primeira vez, o uso de “Episódio” para marcar os filmes – primeiro Episódio II e, depois, com a evolução da narrativa em volta de Darth Vader, Episódio IV – e para indicar uma saga mais abrangente.

Quando Lawrence Kasdan entrou no projeto, ele havia acabado de escrever Caçadores da Arca Perdida e mergulhou na nova missão de continuar escrevendo as versões do roteiro juntamente com Irvin Kershner, então já contratado para dirigir, e com o produtor Gary Kurtz. Os três abordaram a continuação como entretenimento mais adulto, fugindo do enfoque simplista e leve do primeiro filme.

E é nesse ponto que O Império Contra-Ataca se diferencia fortemente de seu material original. Mais do que “o meio de uma trilogia”, ele é o filme definidor, moldador de uma saga. Guerra nas Estrelas pode ser visto e interpretado como um filme fehado completamente, sem necessidade de continuação, ainda que a sobrevivência de Vader, ao final, dê a entender sua volta. Já Império não. Ele, a partir de elementos do primeiro filme, constrói e evolui conceitos, ampliando os arcos de personagens de somente Luke Skywalker para quase todo o elenco principal. Vemos o crescimento não só do garoto fazendeiro que se torna piloto e herói da Rebelião e, em seguida, em Cavaleiro Jedi, como também da Princesa Leia que sai do papel de “dama em perigo” para mulher de ação, que não tem problema algum em empunhar armas e esbofetear traidores. Até Han Solo ganha seu momento ao sol, ao passar de “canalha simpático” que só pensa em si mesmo para alguém que se preocupa com sua nova família e, provavelmente pela primeira vez na vida, em uma causa.

Mas é o núcleo familiar expandido fortemente em Império que solidifica as bases da saga espacial, que retira a obra do lado camp (como Flash Gordon) e a crava profundamente como ficção científica/fantasia de primeira linha, literalmente definidora de muitas obras futuras do Cinema. É, sem dúvida alguma, uma grande evolução em termos de roteiro se compararmos com os ares juvenis de Guerra nas Estrelas, o que ajuda ainda mais na impressão de evolução orgânica dos personagens.

Em termos técnicos, a Industrial Light & Magic, criada para servir aos desejos de Lucas em levar o filme original para as telonas revolucionando os efeitos especiais, já estava mais do que estabelecida no mercado. O pulo tecnológico de um filme para o outro é visível. Se, antes, as batalhas eram limitadas ao espaço, com o trabalho de chroma-key (à época a “tela azul”) facilitado pela inserção de fundos simplistas escuros, agora a coisa muda de figura. E logo no início, com a inesquecível Batalha de Hoth em cenário de fundo branco pintado, com os AT-AT em stop motion em primeiro plano.

Além disso, a quantidade de novos equipamentos de transporte e guerra é de se tirar o chapéu. Além das X-Wing e Destroyers Imperais, Império é pródigo em AT-ATs, Snowspeeders, Super-Star Destroyers, Slave I (ou “Ferro de Passar”) e uma variedade de outras naves formando a aliança rebelde.

E, claro, como não falar nas novas criaturas e os novos designs de personagens? Desde o Tauntaun, Wampa e Ughnaut, passando pela “lesma espacial”, até o absolutamente inimitável Yoda, criado por Frank Oz, que também dá voz ao personagem, além de Boba Fett, Lobot os Snowtroopers, a impressão de um universo só é completa, ainda que somente Yoda ganhe tempo de tela e, portanto, construção de personagem, que nos faça realmente identificar com ele (ok, abro exceção para Boba Fett, pois, mesmo quase calado, seu design é tão perfeito que ele se tornou favorito dos fãs automaticamente).

Kerschner, acostumado a filmes mais intimistas antes de embarcar no projeto, foi uma escolha no mínimo estranha para comandar O Império Contra-Ataca justamente em razão de seu currículo. No entanto, ele faz aquilo que Lucas nunca foi – ou seria – capaz de fazer: pegar os personagens já estabelecidos e acrescentar camadas de complexidade com o mero uso de close-ups e tomadas que permanecem com o ator por um ou dois segundos a mais que o normal, de forma que o espectador possa absorver e compreender seus respectivos estados de espírito.

Com isso, Mark Hamill, Harrison Ford e Carrie Fisher têm atuações muito mais intensas e verdadeiras do que no filme anterior. Vemos personagens calejados, maltratados pelo tempo fugindo do Império (três anos se passam entre um filme e outro). Há um crescimento refletido em seus rostos e em seus figurinos, que escurecem junto com eles. O “sombrio” de O Império Contra-Ataca não é aquele sombrio artificial de muitas obras atuais, cujos diretores e produtores acham que basta que tenham fotografia escura para qualificar. Assim como a Força, o “sombrio” está dentro e ao redor dos personagens, interligando-os.

O único personagem que propositalmente – no início – foge dessa marca é Lando Calrissian (Billy Dee Williams), uma espécie de Han Solo que se estabilizou na vida. Ele oferece momentos de leveza, ainda que a revelação de sua traição tirem o tapete sob nossos pés e desfaçam nossa impressão de tranquilidade que ele e Bespin, sua angelical cidade nas nuvens (tirada diretamente de Flash Gordon), passam.

A atmosfera sombria não seria metade do que é, porém, sem mais um magistral trabalho de John Williams na composição da trilha sonora. Mas como superar seu trabalho original? Williams havia construído seu trabalho anterior em cima do conceito de leit motifs por personagem, com um grande tema geral para a saga. Mantendo, então, o conceito, Williams cria algo que não havia feito ainda: um tema específico para Darth Vader. Com maior relevância do personagem nesse segundo capítulo, era consequência natural que ele ganha seu próprio leit motif, mas o que acabou acontecendo é que a chamada Marcha Imperial (o nome completo é Marcha Imperial (Tema de Darth Vader)) tornou-se tão dramática e marcante quanto o tema principal, especialmente se considerarmos que ela permeia literalmente o filme todo, desde os primeiros segundos de projeção, já dando o toque sombrio que a fita precisava.

Reparem como já ouvimos alguns acordes discretos da Marcha Imperial quando o Império envia drones para os quatro cantos da galáxia e como ele volta com força total, quase 20 minutos depois, com os Star Destroyers se juntam como prelúdio da chegada de Vader. O mesmo vale para a inserção dos acordes na Batalha de Hoth, na perseguição pelo campo de asteroides e, lógico, na luta final entre pai e filho. O tema voltaria, retrabalhado, em O Retorno de Jedi, não só para identificar também o Imperador, mas também para lidar com o fim de Darth Vader.

Mas não é só a Marcha Imperial de merece destaque. Williams compôs o belo Tema de Yoda, que é ao mesmo tempo divertido e contemplativo, refletindo a natureza do pequeno, elétrico, mas muito sábio Mestre Jedi. No caso de Lando Calrissian, apesar de ele não receber propriamente um tema, sua presença é marcada com duas novas composições, A Cidade nas Nuvens e O Palácio de Lando. Ambas se complementam e se opõe, revelando, musicalmente, a natureza dúbia e dupla do personagem.

O Império Contra-Ataca consegue, por seus próprios méritos, ser outro marco da ficção científica/fantasia na Sétima Arte. Em quase todos os aspectos, é uma obra superior à original, o que, por si só, é um feito quase inacreditável. É a continuação que toda a continuação quer ser, mas que quase nenhuma consegue ser. E que a Força esteja com vocês, sempre!

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Quase que como um “p.s.”, não queria deixar de passar a oportunidade de comentar sobre a Edição Especial de O Império Contra-Ataca. Sou partidário da tese que Lucas tem todo o direito de revisitar suas obras e alterá-las como quiser desde que ofereça a seus fãs o material original também. Essa história de renegar as versões que passaram no cinema me tira do sério.

De toda forma, considerando as mexidas que Lucas fez ao longo dos anos em sua bilionária franquia, O Império Contra-Ataca foi o que menos sofreu. Nada de “Han atirando depois” ou “pisadas no rabo de Jabba”. As alterações feitas, aqui, foram suaves e bem pensadas, somente focando na melhoria dos efeitos especiais, especialmente nas sequências na cidade flutuante de Bespin. O Imperador teve sua imagem holográfica alterada para refletir a aparência de Ian McDiarmid, mas isso também não mexeu na concepção da obra.

Em geral, considero a Edição Especial de Império tão boa quanto a original, o que, para mim, é uma exceção nessa Trilogia.

Star Wars: Episódio V – O Império Contra-Ataca (Star Wars: Episode V – The Empire Strikes Back, EUA – 1980)
Direção: Irvin Kershner
Roteiro: Leigh Brackett, Lawrence Kasdan (baseado em história de George Lucas)
Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Alec Guinness, Anthony Daniels, Kenny Baker, Peter Mayhew, David Prowse, James Earl Jones, Billy Dee Williams, Frank Oz, Jeremy Bulloch, Clive Revill, Kenneth Colley, Julian Glover, Michael Sheard, Michael Culver
Duração: 124 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.