Crítica | Star Wars: Episódio VI – O Retorno de Jedi (Trilha Sonora Original)

estrelas 4,5

A estreia de Star Wars: Episódio VI – O Retorno de Jedi ocorreu em 25 de maio de 1983, com todo o peso possível que um fechamento de saga poderia ter. As expectativas eram muitas e haviam dúvidas e anseios dos fãs para o que aconteceria com Darth Vader, qual seria o destino dos rebeldes e o que o Império Galático faria nesta reta final. Não era pouca coisa e todos os envolvidos no projeto sabiam disso.

Novamente a cargo da trilha sonora, John Williams viveu momentos de puro estresse durante as filmagens. O Retorno de Jedi foi o filme da trilogia original para o qual ele mais compôs material novo, além de fazer arranjos e adotar progressões diferentes para alguns temas já consagrados em Uma Nova Esperança e O Império Contra-Ataca.

Diferente dos longas anteriores, porém, a trilha do Episódio VI foi gravada no Abbey Road Studios, em vez de no Anvil Studios. A casa nova e a nova trama possibilitaram alguns experimentos musicais, especialmente porque estamos falando de trechos bastante especiais, como o jazz/pop que ouvimos no Palácio de Jabba ou a música de guerra/festejo dos Ewoks.

Quando o vinil da RSO foi lançado, em 1983, tínhamos listadas apenas 11 músicas (as principais, mas não suas extensões), um erro crasso corrigido em termos de quantidade no relançamento, em 1993, pela 20th Century Fox Film Scores, que trouxe 21 músicas e uma qualidade de gravação que podemos questionar com veemência, considerando a fonte que veio. Em 2004, a Sony Classical lançou a versão aceitável em termos de engenharia de som e com um total de 27 faixas, totalizando 74 minutos e alguns segundos de uma viagem musical por O Retorno de Jedi.

A vergonha alheia do filme


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Identidade

Devido ao pouco tempo que tinha para compor as músicas, produzir o disco e reger a Orquestra Sinfônica de Londres, Williams precisou de um bom time de editores para darem conta do processo semi-finalizado e mixarem as faixas logo após serem gravadas, a fim de que George Lucas e o diretor Richard Marquand pudessem ouvi-las e aprová-las ou não. Com essa agenda mais apertada, é de impressionar a organicidade que as músicas possuem em toda a trilha, que traz um único ponto fraco, ou melhor, péssimo, a tenebrosa Jedi Rocks, interpretada no Palácio de Jabba pela Max Rebo Band. A parte instrumental da canção tem sua graça – é um R&B, não tinha como ser de todo ruim –, mas a parte cantada pela Sy Snootles, uma Pa’lowick com os típicos lábios de Mick Jagger dessa espécie, dublada por Annie Arbogast, que inclusive escreveu a estranha letra da canção na estranha língua da espécie, estraga tudo.

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A aqui vão os créditos e o agradecimento ao meu Mestre Ritt Er-Fan por me ajudar na pesquisa para esta cena específica do Palácio de Jabba. Jedi Rocks só existe mesmo na Edição Especial do filme. Na versão original, há Lapti-Nek, uma canção mais curta, com uma pegada disco-funk e que se enquadra melhor nesse contexto, tanto por ser mais curta quanto por não descaracterizar a sequência, que, como vocês poderão ver abaixo, não deixa de ser sombria e mostrar o lado asqueroso do personagem. Particularmente também não gosto dessa pequena canção, mas percebo que ela não atrapalha a narrativa, como Jedi Rocks. Vejam a versão original e comparem. E mais uma vez, obrigado Mestre Ritt Er-Fan! Que a força esteja com você!

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Por outro lado, percebemos ligações perfeitas entre outros temas aparentemente desconexos e que se juntam, mais adiante, de forma muito inteligente. Embora a unidade dramática aqui seja distinta daquela de O Império Contra-Ataca e mais parecida com a de Uma Nova Esperança, existe um padrão fixo de mixagem que fecha um ciclo, indício da excelência da equipe extra de finalização. É difícil que em um projeto onde tantas pessoas tenham voz e ação para moldar sua estrutura haja uma classificação final excelente, como é o presente caso.

Para demonstrar essa questão de identidade feita na ligação dos temas, peguemos quatro exemplos rápidos. O primeiro, logo no início do filme, na ligação entre entre o tema principal de Star Wars e a aproximação que a câmera faz para a Base Imperial na órbita de Endor, onde uma nova Estrela da Morte é construída. Há uma conversa dramática entre os instrumentos de sopro (uma família adicionada por vez) com incursões simples da percussão e apoio belíssimo das cordas. Lá pelos 5 minutos da faixa, temos uma pequena surpresa chamada Death Star in Disarray, que mistura a Marcha Imperial com a sombria Tatooine Rendezvous, que até pode enganar com a suposta alegria dos clarinetes e das flautas, mas o restante da orquestra nos passa uma informação diferente. Os outros três exemplos são as variações que temos dentro de The Battle of Endor (tema múltiplo e dividido em partes I, II e III, cada uma com suas subdivisões). Em todos esses temas, temos uma clara separação entre ações específicas dos personagens, mas existe uma ligação perfeita entre os blocos, sejam novos ou clássicos. Ouçam abaixo como essa ligação é feita no excelente primeiro bloco musical de Endor, Into the Trap (o melhor de todos do mesmo bloco), que traz a já dita mistura entre “velho e novo”.


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Jabba, Ewoks e Imperador

Como já falei um pouco sobre a música da cantina/palácio de Jabba, vou me ater aqui apenas a alguns elementos ou personagens ligados ao Hutt. John Williams teve a ideia de ligar o tema da primeira grande ameaça real aos rebeldes ao tema do verdadeiro vilão da história, o Imperador. Veja como o a maldade presente desde The Droids are Captured se fixa na história e retorna pontualmente até a morte de Palpatine, isso de maneira cada vez mais ameaçadora. Se ouvimos Bounty for a Wookiee com atenção, notamos são só a tuba que dá a identidade musical para Jabba mas que também existem partes orquestrais dóceis, como um contraponto, um diálogo à enigmática melodia que representa o enorme gângster.

O ciclo se fecha de maneira impecável e assustadora em Luke Confronts Jabba/Den of the Rancor/Sarlacc Sentence, cuja ponte para o lado oposto é finalmente cimentada em The Emperor Arrives, com sopros tocando em fortíssimo a Marcha Imperial e um arrepiante baixo profundo acompanhado de violoncelos, contrabaixos e violas em tons lúgubres. Aliás, a relação do Imperador com a Marcha Imperial e outros temas heroicos da saga ajuda a mostrar algo que o roteiro não consegue de todo, que é dar profundidade ao personagem além de sua carranca malévola. A trilha é responsável por criar a postura de “Arquiteto da Destruição” do personagem, o cérebro e a maldade por trás do Império. Pelo menos até a batalha final, na Lua Florestal de Endor, esse “tema de trevas” de Palpatine retorna com nuances diferentes, seguindo, muitas vezes, a escala do blues em um andamento e tonalidade pouco usuais para destacar suas aparições, com destaque para os momentos em que ele se refere ao jovem Skywalker.

A terceira parte dos grandes temas deste filme se fecha com a ampla abordagem musical dada aos Ewoks. Toda a trama com esses ‘ursinhos fofos’ tem como base duas tendências musicais: uma primitiva e outra renascentista. No primeiro aspecto, temos uma justificativa visual para tal escolha de John Williams. Os Ewoks são caçadores, organizados em uma sociedade de caráter místico (eles enxergam C-3PO como um deus) e forte organização estratégica para a caça. É como se víssemos uma mistura do nosso Neolítico com a Antiguidade protagonizada por ursinhos de pelúcia.

Nessa realidade, o uso de instrumentos de sopro (feitos de chifre de animais) e percussões tribais são os elementos musicais de destaque. Assim como as músicas do palácio de Jabba, existem diversas referências melódicas externas na vila dos Ewoks e nos blocos sinfônicos chamados de Batalha de Endor. O final feliz, com a reunião de todos ou mesmo a celebração da vitória sobre o Império através da Galáxia mostra nuances dessa música e nos faz retornar a um momento bastante conhecido, mas aqui em novo arranjo:, a bela música da Sala do Trono ao final de Uma Nova Esperança. E o ciclo se fecha.
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Fim de uma Era

John Williams fez um trabalho intenso e histórico nos três filmes da trilogia clássica de Star Wars. A cada novo filme, o compositor procurou mesclar novidades com algo que o espectador poderia se identificar, uma marca percebida com menos intensidade ao final de A Vingança dos Sith, o Episódio III. Aqui em O Retorno de Jedi, o compositor está mais dramático (porque o enredo pede) e menos lírico, mas mesmo assim, conseguiu nos passar uma forte emoção nos temas afetuosos de Luke e Leia / Leia e Solo; construir um heroísmo de textura musical impressionista à la Maurice Ravel nas temáticas de salvamento encabeçadas por Lando, Luke, Solo, Almirante Ackbar e pela dupla C-3PO e R2-D2.

Todavia, essa tendência dramática da trilha sonora não avança onde não deve avançar, e aí temos boas escolhas do diretor Richard Marquand para deixar ou cortar o acompanhamento em determinadas cenas (a famosa revelação que Luke faz a Leia sobre o parentesco que compartilhavam é muito mais potente sob silêncio do que seria sob música – e sim, Williams compôs uma peça para esse momento), o que faz a trilha ser notável não apenas musicalmente, mas também em seu uso no filme. A despeito da questionável música para a Max Rebo Band, na Edição Especial, a trilha sonora de O Retorno de Jedi é grandiosa, com um explosivo apelo bélico (representado pelos metais) e orquestração épica. A Orquestra Sinfônica de Londres provou, mais uma vez, o seu valor e executou um trabalho impecável, sobre regência do maestro John Williams, que terminava aqui não só um capítulo em sua carreira mas também um capítulo na vida cinéfila de todos aqueles que um dia tiveram o prazer de conhecer a Força e do que ela é capaz de fazer.

Star Wars: Return of the Jedi (Original Motion Picture Soundtrack)
Composto e conduzido por John Williams
País: Estados Unidos
Lançamento: 1983
Gravadora: RSO Records
Estilo: Música Clássica, Trilha Sonora

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.