Crítica | Star Wars: Episódio VI – O Retorno de Jedi

o retorno de jedi

estrelas 5,0

Normalmente visto como o mais fraco filme da Trilogia Original, O Retorno de Jedi é, apesar de tudo, um mais do que digno encerramento de um ciclo. Finalmente vemos Luke Skywalker como um Cavaleiro Jedi, Leia como outra possível herdeira da Força e, claro, a redenção de Anakin Skywalker, preso na armadura letal de Darth Vader. O círculo se fecha quase que sem falhas.

E isso apesar dos Ewoks, apontados como responsáveis pela alegada infantilização da trama.

Mas que infantilização é essa exatamente? Em seu nascedouro, a franquia Star Wars sempre olhou para um público mais jovem e somente em O Império Contra-Ataca é que o necessário tom dramático acabou tornando a franquia mais sóbria e solene. O Retorno de Jedi, no final das contas, é o filme que, dos três, melhor sabe dosar o sombrio e o alegre, o pesado e o leve e os Ewoks ajudam, não atrapalham, nesse equilíbrio.

Vejam por exemplo como O Retorno de Jedi começa, com uma espécie de prelúdio de volta à Tatooine, com nossos heróis tentando libertar Han Solo, ainda congelado em carbonita, do Palácio de Jabba. Reparem como a mesma Tatooine clara, expansiva e de certa forma esperançosa do primeiro filme é convertida em uma terra ameaçadora, escura e mortal graças a filtros bem utilizados e uma direção solene de Richard Marquand, que sabe tratar com suficiente suspense o vilão Jabba the Hutt e sua escória de seguidores em uma submundo que faria o bar onde Han é contratado em Guerra nas Estrelas um mero maternal. E, claro, ele trabalha de maneira reverencial o Jedi do título, apresentando-nos a um Luke Skywalker mais sombrio, mais sábio e mais poderoso.

Esse momento inicial deixa evidente que algum tempo se passou algum tempo desde O Império Contra-Ataca (apenas um ano tecnicamente, mas gosto de imaginar que foi um tanto mais) e que o fim está próximo. A Rebelião continua ativa, Leia, disfarçada de caçadora de recompensas e levando Chewbacca acorrentado, está decisivamente apaixonada por Han Solo e Luke, apesar de não ser ainda de verdade um Jedi – ou será que já é? – assimilou muito bem os ensinamentos do Mestre Yoda, algo que ele demonstra em sua luta contra o temível Rancor, no calabouço de Jabba e, depois, na perfeitamente ensaiada sequência no deserto que revela seu pensamento tático e sua condição de guerreiro frio e impiedoso. E, lógico, em uma virada até estranha, mas absolutamente icônica, a produçao carrega nas cores da sensualidade, usando linguagem até fetichista ao mostrar Leia em reveladores trajes de escrava do enorme ser lagartoide. Não é tão infantil assim, não é mesmo?

Tudo funciona como um grande balé, encadeado com uma trilha sonora atmosférica e pouco reveladora de John Williams, que faz uso de seus motifs, mas rearranjando-os de maneira sutilmente mais dramática, o que acaba reforçando o lado heroico da missão de resgate. Definitivamente, um grande começo do fim.

Quando o segundo ato começa, o roteiro de Lawrence Kasdan e de George Lucas dá o que se poderia chamar de derrapada e um dos pontos principais de reclamações de fãs surge: os famigerados ursinhos simpáticos batizados de Ewoks, apesar de esse nome nunca ser mencionado no filme. Mas o problema, na verdade, é injustamente indicado como sendo os pequenos seres da lua de Endor, pois a questão está muito mais ligada com a cadência narrativa do roteiro e com a respectiva direção de Marquand, do que com qualquer outra coisa.

Deixe-me tentar explicar.

Ainda que Guerra nas Estrelas tenha sido o grande catalisador desse fantástico universo criado por George Lucas, foi em O Império Contra-Ataca que as ramificações foram deixadas à mostra. Aprendemos – sem confirmação – que Vader provavelmente é o pai de Luke; descobrimos em diálogo críptico entre Yoda e o espectro de Ben Kenobi que há outra “esperança” contra o Império; ficamos na dúvida sobre o fim de Han Solo; ficamos estarrecidos ao descobrir que o Império quase nada sofreu com a destruição da primeira Estrela da Morte. Era muito material para ser encerrado em um filme só, mas que precisava ser abordado. Além disso, como característico em obras da franquia, cada no episódio traz novas raças, novos personagens, novas situações.

Resolvida então a questão de Han Solo no primeiro ato, restava, assim, o foco em todo o resto ainda durante o segundo ato, de maneira que fosse possível encerrar a saga de maneira satisfatória e com ênfase na ação, no terceiro e derradeiro ato. Com isso, vemos Luke voltar brevemente para Dagobah, como prometido a Yoda, somente para vermos o Mestre às portas da morte. Mas verdades são confirmadas – sim, Vader é mesmo pai de Luke – e segredos são revelados – Luke e Leia são irmãos gêmeos separados no nascimento para evitar que Vader os achasse – mas Luke está eminentemente sozinho, em uma busca particular, agora não mais por identidade, mas pela salvação de seu pai.

Quando o Jedi volta ao seio de seus amigos, ele está novamente diferente tendo crescido um pouco mais com as informações recebidas e, não demora, ele se junta ao braço da missão rebelde que vai a Endor para desabilitar o escudo de força da nova Estrela da Morte, ainda em construção, de forma que a frota rebelde comandada por Lando Calrissian (com a Millenium Falcon emprestada relutantemente por Han) possa atacá-la. Luke sabe que vai ao encontro de seu destino e está tranquilo.

Mas, chegando em Endor, a história ganha, então, o mencionado lado mais “leve” e “infantil”, quando os simpáticos ursinhos nativos da lua adotam Leia como um deles e capturam os demais, somente para passarem a reverenciar um estupefato C-3P0 com um deus. Infantil, dizem alguns. Inteligente, digo eu. Quebra-se, aqui, o lado sombrio da história. Kasdan e Lucas sabiam a direção em que estavam indo e precisavam desanuviar a cabeça dos espectadores. Luke ainda enfrentaria Vader e o Imperador e a relação com os Ewoks serve como um momento divertido e calmo antes da tempestade final.

Com isso, a narrativa parece parar em alguns momentos e essa parada é, na verdade, bem-vinda. Permite um dos poucos momentos verdadeiramente íntimos entre Luke e Leia e faz genial uso do sempre divertido C3-p0 (a sequência dele contando os eventos dos filmes anteriores aos amedrontados Ewoks é impagável), sem que realmente percamos de vista o futuro sombrio que se avizinha.

E, no terceiro ato, Marquand faz, contando com a inestimável ajuda de Sean Barton e sua equipe na montagem, algo que é arriscado, mas cujo resultado final ficou próximo da perfeição: o uso de três narrativas paralelas. O grande clímax é protraído no tempo e segregado em três momentos: a batalha no espaço, a batalha em Endor e o confronto de Luke contra Darth Vader e o Imperador. Dois momentos em larga escala e um intimista. Os três indelevelmente conectados e interdependentes, ao ponto que a falha em um poderia significar a falha nos demais.

Mas o sequenciamento é de tirar o fôlego do começo ao fim. O frenesi e a desorganização dos dois ataques são balanceados pela aparente calma e serenidade do desafio psicológico a que Luke é submetido. Há muito mais palavras do que choques de sabres de luz, mas a tensão é crescente e é perfeitamente possível sentir a Rebelião acabando graças ao eficiente jogo de xadrez pensado 20 jogadas antes pelo maquiavélico Imperador (aliás, Ian McDiarmid, que vive o personagem pela primeira vez aqui dá um show de interpretação de vilão, encarnando em parte iguais a Bruxa Má de Branca de Neve e Ming, O Impiedoso de Flash Gordon). Lógico que sabemos que tudo dará certo no final, mas Marquand sabe manipular o espectador até o limite, transformando o ataque espacial em um massacre perpetrado pelo Império e o ataque em terra algo completamente fadado ao fracasso. E, no processo, a certeza de Luke começa a ruir.

As únicas peças não previstas no complexo jogo do Imperador são justamente os Ewoks, seres primitivos e sem tecnologia. A lição é obvia e clichê? Talvez, mas ela funciona sem parecer forçada ou de alguma maneira fora de lugar, além de ter ecos do primeiro filme, quando uma pequena nave X-Wing rebelde pilotada por um adolescente fazendeiro consegue destruir o monstro tecnológico representado pela Estrela da Morte.

E Marquand, agora trabalhando ângulos, filtros e a opacidade da máscara de Vader, além dos movimentos de David Prowse, o ator debaixo da armadura, humanizam o robótico personagem. Percebam como sentimos o sofrimento e a dúvida de Vader ao ver seu filho sendo torturado pelos raios do Imperador. É um pai querendo proteger o filho ou um servo querendo servir seu mestre? Sempre me impressionei e ainda me impressiono como a máscara negra de Vader ganha vida nessa belíssima sequência, que culmina com o lacrimoso momento em que finalmente o pai vê o filho sem máscara pela primeira e única vez.

O Retorno de Jedi é o filme mais fraco da trilogia? Talvez. Mas provavelmente não é. Não se o entendermos como o resultado da hercúlea tarefa de se fechar uma saga familiar de sci-fi/fantasia com perfeita circularidade sem, porém, perder em ousadia, construção de novos e fascinantes (e também fofos) personagens e momentos que arrancam emoções fortes mesmo depois de múltiplas conferidas. Um marco por seus próprios méritos, O Retorno de Jedi é o encerramento de trilogia que muita trilogia gostaria de ter.

A Edição Especial

estrelas 3,5

As incontáveis e insuportáveis mexidas de George Lucas na Trilogia Original são, por si só absolutamente inaceitáveis, já que ele se recusava – espero que isso mude agora que ele não tem mais controle sobre isso – em lançar em versão remasterizada de alta definição os filmes originais como vistos no cinema. Guerra nas Estrelas sofreu um tanto, com a re-inserção de cena com Jabba, gravada quando o gângster não era um ser em forma de lagarto, mas nada realmente fatal.

O Império Contra-Ataca foi o que definitivamente menos sofreu com a sana de alterações de Lucas, mostrando que, realmente, dos três filmes, esse era o mais bem-acabado. Apenas alterações cosméticas aqui e ali, nada mais.

O Retorno de Jedi, porém, sofreu terrivelmente.

E uma das mais execráveis “novas ideias” de Lucas foi substituir o discreto número musical Lapti Nek no Palácio de Jabba por um completo videoclipe com a tenebrosa Jedi Rocks, que quebra completamente o aspecto sombrio do covil do vilão e que macula a carreira de John Williams como compositor. Sem dúvida alguma, uma demonstração do total descontrole de Lucas sobre suas próprias concepções.

Mas as mudanças não param por aí e temos a celebração pela galáxia ao final, depois da derrota do Império. Muitos consideram boa a sequência, que abre mais o leque da vitória dos Rebeldes. Para mim, porém, ela só foi feita na base do “por que eu quero”. Nada, absolutamente nada no arco narrativo desenvolvido desde o primeiro filme pedia algo assim. Ah, claro, a música tribal comemorativa dos Ewoks também sofre com essa alteração.

A cereja no proverbial bolo, porém, é mesmo a troca da versão espectral de Anakin Skywalker, com a retirada de Sebastian Shaw e a inclusão do péssimo Hayden Christensen. Não só é um desrespeito ao veterano ator que, por alguns segundos, deu o rosto humano ao moribundo Vader como, dentro da história, a mudança não faz sentido algum. O espectro não é da versão “iluminada” do Jedi falecido? Bem, Anakin foi para o Lado Negro quando se tornou Vader, ainda como Christensen, mas a última vez em que ele é um Jedi não é ele de volta quando era “Anakin jovem do bem” e sim ainda dentro da máscara de Vader, na câmara do Imperador, quando ele resolve salvar seu filho, sacrificando-se no processo. Ali ele é um Jedi novamente e assim ele morre. Portanto, sob todos os aspectos, deveria ser Shaw junto com Yoda e Ben Kenobi ao final. E nem comentarei sobre o “NÃÃÃÃÃÃOOOO” que Vader ganha, pois é muita tristeza para o meu coração.

Sei que reclamo demais, mas essas alterações no clássico são, na verdade, mutilações.

Star Wars: Episódio VI – O Retorno de Jedi (Star Wars: Episode VI – Return of the Jedi, EUA – 1983)
Direção: Richard Marquand
Roteiro: Lawrence Kasdan, George Lucas
Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Anthony Daniels, Peter Mayhew, Sebastian Shaw, Ian McDiarmid, Frank Oz, James Earl Jones, David Prowse, Alec Guinness, Kenny Baker, Michael Pennington, Michael Carter, Denis Lawson, Tim Rose, Dermot Crowley, Caroline Blakiston, Warwick Davis, Jeremy Bulloch
Duração: 134 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.