Crítica | Star Wars Holiday Special

star wars holiday special

estrelas 0,5

Muita gente com pouca intimidade com Star Wars não tem a menor ideia do que é Star Wars Holiday Special. E, para a sanidade dessas pessoas, é melhor que permaneçam assim.

Mesmo para mim, um auto-proclamado fã de tudo que se passa nesse universo, esse especial de Natal feito para a TV e exibido em 1978, um ano e meio depois que Guerra nas Estrelas estourou nas bilheterias do mundo, ficou, por muito anos, como algo que achava que era apenas fruto de minha fértil imaginação de criança. Afinal, eu o vi na televisão – quando TV a cabo com centenas de canais e internet eram coisas de ficção científica – e minha memória do programa era, nos melhores momentos, enevoada, como algo que vi com um sorriso de excitação no rosto, mas que desapareceu nas brumas do tempo e, portanto, não poderia ser verdade.

Os anúncios

Eles ainda gastaram dinheiro com anúncios!

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Mas Star Wars Holiday Special é verdade. Verdade verdadeira, por mais que o próprio George Lucas tenha renegado o produto e feito das tripas coração para que ele nunca mais visse a luz do dia. E ele conseguiu, pois, com exceção de um trecho em animação – que comentarei mais abaixo – que foi lançado como easter egg da edição completa em blu-ray da saga, em 2011, o resto permanece enterrado nos cofres da Lucasfilm, hoje Disney, com apenas versões não autorizadas circulando por aí para aqueles que, como eu, têm algum tipo de doença grave que nos força a rever algo tão tenebroso assim.

Pois Star Wars Holiday Special é tenebroso. Tão tenebroso que não cai nem na famosa categoria do “tão ruim que é bom”. O especial é tão ruim que é péssimo mesmo, uma daquelas ideias geradas e produzidas em um período em que ainda não era evidente que caminho percorrer com a franquia. E temos mesmo que agradecer à Força pelo caminho que a série de filmes tomou (até 1983, para deixar bem claro), já que, se  Lucas tivesse perdido as rédeas como quase perdeu ao licenciar esse especial para a CBS, não consigo nem imaginar que triste fim teria essa galáxia muito muito distante, há muito tempo…

A galeria dos horrores - só clique se for masoquista

Comecei com a imagem mais palatável…

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O roteiro (se é que se pode chamar assim) costura um filete de história em diversas frentes. Vemos Han Solo e Chewbacca voltando para Kazook (Kashyyyk, o planeta-natal de Chewie antes de ser batizado assim) para que o segundo possa comemorar o Dia da Vida, algo como o Natal ou festa semelhante, com a família e fugindo de Destroyers Estelares. Em Kazook, somos apresentados à família de Chewbacca, Mallatobuck (sua esposa), Lumpawarrump (seu filho) e Attichitcuk, chefe da tribo Kaapauku (seu pai), que estão ansiosos pela volta do herói que, porém, não chega. Com isso, Mallatobuck (ou só Malla, para os íntimos) liga para Luke Skywalker que, junto com R2-D2, parte para procurar Han e Chewie. Saun Dann, amigo da família, chega com presentes quase que ao mesmo tempo que Stormtroopers para procurar os fugitivos do Império. Com isso, a audiência é levada a tomar o ponto de vista de Lumpy assistindo clipes musicais – que passam por inteiro – e desenhos animados, particularmente um em que vemos, pela primeira vez, Boba Fett, dois anos antes de sua estreia cinematográfica em O Império Contra-Ataca.

Todas as situações são absolutamente risíveis e forçadas, em um crescendo de canastrice e pieguice que, por incrível que pareça, conta com absolutamente todo o elenco principal, na única situação em que os vemos juntos fora da trilogia original. Talvez o momento mais vergonhoso – e herege – seja Carrie Fisher, vestida de Leia de roupão branco e em um palco com seus “amigos”, cantando uma canção no ritmo da música tema de Guerra nas Estrelas de John Williams e, ainda por cima, como a proverbial cereja no bolo, desafinando. É um daqueles momentos que gera um surto de gargalhadas e de vergonha alheia que só é dissipado dias depois de muita meditação, apesar da agonia que é relembrá-lo mesmo que parcialmente para o resto de sua vida. Tenho a impressão sincera que me sentiria melhor com a memória fugaz que tinha dessa aberração televisiva quando a vi, inocente, em 1978.

Apesar de todo o horror que é essa produção, que se perde entre roteiro imbecilizante, direção inexistente, trilha sonora pavorosa (sim, pois sincronizar letras na majestosa música instrumental de Williams é a definição de pavor), atuações que revelam o quão envergonhados estão os atores e figurinos encontrados na lixeira da Fox, há um elemento solitário que se salva: o desenho com Boba Fett. Não que ele seja bom, longe disso, mas, em comparação com o desconjuntado especial à sua volta, ele parece realmente um oásis de sanidade e competência. Não faço ideia como conseguiram esse feito, mas o fato é que o desenho funciona, com uma trama minimamente interessante e com o design do caçador de recompensas – com cores mais vivas que no filme e com uma espécie de rifle-tridente nas mãos – no mínimo intrigante. Vale o esforço de se assistir os 90 minutos restantes? Certamente que não, pois seria o mesmo que arrancar seus dentes um a um sem anestesia apenas para comer uma colherada de sorvete Kibon ao final, mas aqueles que não viram o desenho devem procurar o easter egg que mencionei para assisti-lo separadamente (afinal, a meia estrela discreta que dei é unicamente para o desenho e mesmo assim com relutância…).

O desenho

Momentos de alívio entre um dente arrancado e outro…

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Alguns podem ter interesse em saber se o especial é canônico, ou seja, conta na cronologia das histórias do universo estendido de Star Wars. A resposta para isso é complicada e daria uma tese de mestrado de alguém louco o suficiente para escrever sobre isso. Mas o fato é que o chamado The Holocrom, catálogo da Lucasfilm sobre todo o universo Star Wars, expandido ou não (tudo fora dos longas de cinema – seis até agora – é classificado como “Universo Expandido”) tem quase três dezenas de verbetes baseados em Star Wars Holiday Special, incluindo o Dia da Vida e a família de Chewbacca. Isso não quer dizer que esse conteúdo é imutável, muito ao contrário, apenas que, em linhas gerais, ele se encontra dentro do cânone oficial da franquia, por mais estapafúrdias que algumas coisas – ou tudo – possam ser.

O resumo da ópera é o seguinte: Star Wars Holiday Special é para os fortes. Para aqueles que querem bater no peito, com orgulho, e berrar aos quatro ventos: EU VI!

Não, mentira. Apaga tudo. Não desejo uma sessão de Star Wars Holiday Special nem para meu pior inimigo.

Mentira de novo: desejo sim…

Star Wars Holiday Special (Idem, EUA/Canadá – 1978)
Direção: Steve Binder, David Acomba
Roteiro: Pat Proft, Leonard Ripps, Bruce Vilanch, Rod Warren, Mitzie Welch
Elenco: Harrison Ford, Peter Mayhew, Mark Hamill, Carrie Fisher, Anthony Daniels, Kenny Baker, Bea Arthur, Don Francks, Harvey Korman, James Earl Jones, Art Carney, Diahann Carroll, Mickey Morton, Patty Maloney
Duração: 97 min.

RITTER FAN. . . .Sou um carioca rabugento que não faz questão nem de sol (muito quente) nem de praia (tem areia e água salgada). Prefiro o escurinho do cinema onde, sozinho ou acompanhado da família ou de amigos, me divirto - ou não, depende - por horas a fio.