Crítica | Star Wars: Legends #1

star wars legends 1Devo fazer uma ressalva logo de início: apesar de ser um enorme fã da trilogia original de Star Wars, nunca fui muito chegado ao chamado Universo Expandido, tendo apenas lido obras esparsas nessa linha. Além disso, não me importo em nada se algo é ou não é canônico no Universo Star Wars. O que me interessa são boas histórias. Digo isso, pois, com a aquisição da Lucasfilm pela Disney e, portanto, com a não-renovação do contrato de licenças da empresa de George Lucas com a Dark Horse Comics, que vinha publicando material em quadrinhos sobre a franquia ininterruptamente e como muito sucesso há 23 anos, é possível que muita coisa interpretada como canônica seja completamente ignorada daqui para frente.

Star Wars: Legends é uma publicação mensal da Panini Comics que, pelo menos por enquanto, reunirá a série simplesmente intitulada Star Wars, a mais recente ongoing da Dark Horse, iniciada em 2013, depois da notícia de que o contrato não seria renovado, além do “selo” Dark Times, que a Dark Horse publica desde 2006. Como se trata de material muito diferente, preferi dar notas separadas para cada história.

estrelas 3,5

Star Wars: À Sombra de Yavin – Partes Um e Dois
Roteiro: Brian Wood
Tradução: Levi Trindade, Paulo França
Arte: Carlos D’Anda
Cores: Gabe Eltaeb
Editora original: Dark Horse Comics
Título e data original de publicação: Star Wars #1 e 2 (janeiro e fevereiro de 2013)
Publicação no Brasil: Setembro de 2014
Espaço: Setor Dominus, Frota Rebelde, Sistema Kuat, Coruscant
Tempo: A Rebelião – Dois meses depois da Batalha de Yavin

Apenas dois meses depois da Batalha de Yavin, que deu vitória retumbante aos Rebeldes contra as forças do Império, as coisas não estão muito boas. Leia, Luke e Wedge, em caças X-Wing estão na órbita do planeta Dominus IV, na Orla Exterior, procurando um local para servir de base nova à Aliança.

No entanto, o Império está a seu encalço e nem bem eles lá chegam, um Destróier Estelar e caças Interceptadores Tie saem do hiperespaço. Essa sequência inicial de ação é brevemente antecedida de um diálogo pessoal entre Luke e Leia, via comunicadores (com Wedge escutando, o que torna tudo mais estranho) que logo estabelece a princesa/senadora como a protagonista da série. O texto pesadamente expositivo objetiva, claro, deixar isso em evidência e, ao mesmo tempo, situar o leitor em relação ao evento mais importante da franquia no cinema: a destruição da primeira Estrela da Morte. Eventos do filme, como a destruição de Alderaan, a morte de Obi-Wan Kenobi e as consequências para a Aliança Rebelde são mencionados a todo o tempo e de forma um tanto exagerada, para deixar todo mundo literalmente na “mesma página”. Não é, definitivamente, a forma mais elegante de se iniciar uma nova série, mas é perfeitamente possível entender o porquê do uso desse artifício no roteiro de Brian Wood, que faz dessa série um “ponto de entrada” para qualquer leitor novato sobre o Universo Expandido.

Mas a narrativa, depois da curta ação inicial em Dominus IV, logo estabelece outros vértices narrativos, dividindo a história em três núcleos efetivos. O primeiro, claro, é o que coloca Leia no comando de um grupo de elite autorizado secretamente por Mon Mothma com dois objetivos: (1) achar uma nova base para os Rebeldes e (2) descobrir quem é o espião do Império infiltrado na Aliança, já que o Destróier não surgiu no “nada” exatamente onde estavam Leia, Luke e Wedge. Não é a premissa mais original do mundo, mas ter Leia no comando, mostrando o quanto ela é badass é uma virada interessante, afastando-nos daquela visão fragilizada da “princesa” em apuros.

star wars 3

O segundo vértice é uma missão misteriosa de Han Solo e seu sidekick Chewbacca que não é explicada momento algum. Apenas sabemos que envolve dinheiro, muita implicância de Chewie e o característico ar bonachão e bon vivant de Solo. Nesse aspecto, os dois primeiros números da revista, contidos em Star Wars: Legends #1, não permitem muito vislumbre do potencial narrativo, mas a história combina bem como a missão também secreta de Leia e seus pilotos, além de permitir a inclusão do favorito da galera, Boba Fett (só a Slave I aparece, porém).

Finalmente, o terceiro vértice é, claro, Darth Vader. Ele perdeu vários pontos com o Imperador depois que não só “deixou” a Estrela da Morte ser destruída, como por não ter conseguido destruir o caça de Luke graças à interferência tempestiva de Han Solo. Vader literalmente leva um esporro do Imperador, que o “rebaixa”, mandando-o sair em outra missão secreta (Brian Wood exagera um pouco na repetição de ideias, como vocês devem ter percebido) e substituindo-o no comando de seu Destróier pelo Coronel Bircher, que parece ter planos ambiciosos em relação ao Império como um todo. A tensão entre Vader e ele é palpável e o potencial de conflitos interessantes é grande nesse ponto.

A narrativa de Wood consegue fluidez entre os três pontos principais da história, com boas transições, apesar de ele carregar demais no chamada techno-babble, especialmente no começo. O que por diversas vezes atrapalha a leitura é a tradução pouco inspirada de Levi Trindade e Paulo França, que parecem ter recorrido demais ao livro The Cow Went to the Swamp do Millôr Fernandes. Há momentos de trincar os dentes e outros ininteligíveis que, espero, sejam suavizados no futuro.

Em termos de arte, o trabalho de Carlos D’Anda é excelente para retratar o mundo de Star Wars, com muitos detalhes nas naves, robôs e roupas, além de splash pages que impressionam. Vale especial destaque a primeira dela, logo no início, em que mostra Interceptadores Tie em primeiro plano e o enorme Destróier Galático em segundo plano. Darth Vader também se beneficia da releitura do artista, ganhando um porte mais atlético e ameaçador ainda que nos filmes. O trabalho de cores de Gabe Eltaeb ajuda muito na imersão no “espaço frio”, com o uso de esquemas de cores perfeitamente críveis e bem pensadas para esse universo, especialmente o azul (em vários tons) e o preto, além de tons de cinza.

O que distrai um pouco, especialmente nas primeiras páginas, são os traços faciais de D’Anda. Ele tenta manter as características dos atores e, ainda que seja bem sucedido com Leia, ele erra a mão com Luke e especialmente com Han Solo. Mas, quando a estranheza inicial se dissipa, o conjunto da arte é bem sucedido o suficiente.

estrelas 3

Star Wars: Dark Times – Fora da Escuridão – Parte Um
Roteiro: Randy Stradley (escrevendo como Mick Harrison)
Tradução: Magda Lopes, Paulo França
Arte: Douglas Wheatley
Cores: Dan Jackson
Editora original: Dark Horse Comics
Título e data original de publicação: Star Wars – Dark Times: Out of the Wilderness #1 (agosto de 2011)
Publicação no Brasil: Setembro de 2014
Espaço: Estação Prisional ISO-L8, perto de Recopia (Corredor Corelliano), Telerath,
nave de Dass Jenir a caminho de Vondarc (loca inexato), planeta não identificado
Tempo: A Ascensão do Império –  19 anos antes da Batalha de Yavin

A primeira grande desvantagem que o leitor de primeira viagem tem ao pegar essa história para ler é descobrir, depois, que ela faz parte da série Dark Times, da Dark Horse Comics, que vem sendo publicada desde 2006. O arco reproduzido em Star Wars: Legends, batizado de Fora da Escuridão, é, na verdade, o quinto da série que, em seu primeiro, introduz o Mestre Jedi Dann Jennir (por introduz, entenda introduz na série Dark Times, pois sua primeira aparição se deu antes ainda em Star Wars: Republic: Into the Unknown).

Não que saber do passado de Jennir seja essencial, mas Fora da Escuridão já começa “no meio” e o roteiro de Randy Stradley não consegue dissipar a névoa que fica na cabeça do leitor ao longo da história. Claro que, com apenas um número publicado em Star Wars: Legends, fica difícil julgar se, depois, Stradley esclarecerá mais o passado ou limitará as referências a outras séries de Dark Times. É esperar para ver.

star wars dark times

A narrativa, por si só, é interessante, com uma figura misteriosa, em armadura preta, invadindo a Estação Prisional Imperial ISO-L8 para saber de Jennir por um prisioneiro, que ele mata em seguida, somente para testemunharmos a fúria de Vader pelo ocorrido, já que Skywalker também queria saber onde diabos está Jennir, que sobrevivera à famigerada Ordem 66. Na outra ponta, mas também procurando Jennir, vemos a multi-racial (mesmo!) tripulação da nave Uhumele, comandada por Bomo Greenbark, chegando à Kidron para saber do paradeiro do Mestre Jedi por intermédio de Beyghor Sahdett.

É um começo confuso, que ainda nos introduz à Jennir e sua curvilínea amiga (ou namorada, não fica claro) Ember e seu encontro mais recente com o Império e sua queda em um planeta perdido. E Jennir e Ember são vistos em dois momentos, “há duas semanas” e no presente, o que acaba contribuindo para atrapalhar a leitura fluida da história e, potencialmente, afastar interessados.

O traço de Douglas Wheatley, porém, é muito bom em sequências de ação, especialmente a que envolve Vader. Não há tantos detalhes e percebe-se o uso de computador para imagens de fundo, mas o resultado geral é satisfatório, com rostos detalhados e muita criatividade na profusão de criaturas que vemos em Kidron.

Há potencial. Resta saber se ele será realizado ou se se perderá no labirinto sem fim do Universo Expandido de Star Wars.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.