Crítica | Star Wars: O Despertar da Força (Marvel)

estrelas 3

Espaço: Jakku, órbita de Jakku, espaço profundo, Base Starkiller, Takodana, órbita da Base Starkiller, Sistema Hosnian, D’Qar (base da Resistência)
Tempo: 34 d.B.Y.

Adaptações em quadrinhos de obras cinematográficas são notoriamente complicadas e muitas vezes feitas às pressas para aproveitar lançamentos no cinema. Essa situação é agravada quando a obra cinematográfica em questão é do universo de Star Wars, dado o controle quase sempre exercido por George Lucas, que fazia o que podia para evitar arroubos criativos. Houve uma época, lá nos primórdios, em que esse micro-gerenciamento não existia ou era muito mais relaxado, gerando versões em quadrinhos da Trilogia Original que são verdadeiras obras-primas quase pioneiras, ainda que, na medida em que os filmes foram sendo sedimentados, elas passaram a gozar de menos liberdade.

Mas nada foi pior do que os efeitos desse controle exacerbado do que as adaptações da Trilogia Prelúdio pela Dark Horse Comics. Não só o material fonte era cheio de problemas, como o que chegou aos quadrinhos não trouxe um vislumbre sequer de ousadia, nenhuma tentativa de trazer algo minimamente autoral.

Com a volta da propriedade para a Marvel, a esperança era que a versão em quadrinhos de O Despertar da Força tivesse valor além do burocrático, especialmente depois do desapontamento que foi a novelização por Alan Dean Foster. E o resultado é algo que  fica razoavelmente entre uma coisa e outra. Ainda há a escravidão até de certa forma necessária ao roteiro e ao design do filme, mas a minissérie em seis edições oferece um pouco mais do que apenas isso.

O primeiro trabalho a se destacar é o de Chuck Wendig, na hercúlea tarefa de sintetizar o filme aos limites de uma HQ, obedecendo a linguagem específica do meio. No lugar de permanecer servil aos eventos, o autor consegue escolher os momentos que aborda, sem transformar a minissérie em uma versão quadro-a-quadro do filme. Com isso, ele toma atalhos, como apresentar Rey, Poe, Finn e BB-8 de maneira direta e sem enrolações, com o uso de brevíssimos quadros narrativos. Além disso, ele corta sem dó algumas cenas consideradas clássicas na obra de J.J. Abrams, como o icônico momento em que Kylo Ren congela, no ar, um tiro de um blaster com a Força.

Mesmo sacrificando momentos assim, Wendig consegue o resultado esperado, dinamizando a narrativa e transformando-a em uma HQ que pode ser lida como tal. Luke Ross, na arte de quatro dos cinco números da série (ele só não desenhou a terceira edição, que ficou com Marc Laming), é também feliz ao impor seu próprio estilo, fugindo do fotorrealismo e do uso dos semblantes dos atores em seus desenhos. Mas calma, pois Rey ainda é Rey, assim como Han Solo ainda é Han Solo. Os personagens permanece perfeitamente reconhecíveis dentro do contexto da história ou mesmo fora dele. O que Ross evita é o que Wendig também evita: a reprodução servil do material fonte, o que nada agregaria à adaptação.

Há, também, um bom uso dos quadros, notadamente quando Ross desenha splash pages como a que ilustra as visões de Rey no estabelecimento de Maz Kanata e o ataque à Base Starkiller. Não são páginas clássicas, porém, com um desenho só, mas sim diversos montados em uma progressão auto-contida que é muito eficiente em contar rapidamente determinados momentos que, de outra forma, poderiam tomar páginas e páginas. Por outro lado, o artista foge tanto quanto pode de se aproveitar das sequências de ação para criar quadros realmente marcantes. A fuga de Rey com a Millenium Falcon, no começo da história, é contada de forma canhestra em quadros pequenos e genéricos, assim como a luta com sabres de luz entre ela e Kylo Ren na floresta na Base Starkiller. Ele deixa de aproveitar o potencial imagético destes e vários outros momentos em prol de correr com a história. Faltou paciência e coragem para ousar, para realmente extrair de um filme da série Star Wars o que ele poderia oferecer.

A adaptação de O Despertar da Força não é particularmente memorável como deveria ter sido, mas ela não desaponta completamente. Há bons momentos, notadamente no texto de Wendig, o que já a coloca acima dos trabalhos da Dark Horse Comics e bem acima da fraquíssima adaptação literária do filme.

Star Wars: O Despertar da Força (EUA, 2016/7)
Contendo:
Star Wars: The Force Awakens #1 a #6
Roteiro: Chuck Wendig
Arte: Luke Ross (#1, #2, #4 e #5), Marc Laming (#3)
Cores: Frank Martin
Letras: Clayton Cowles
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: agosto de 2017 a janeiro de 2017
Páginas: 150

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.