Crítica | Star Wars: O Despertar da Força (Sem Spoilers)

estrelas 4

Obs: Leia nossa crítica COM SPOILERS, aqui.

Durante anos da História do Cinema, uma das mais sagradas e cultuadas sagas de todos os tempos é, sem sombra de dúvida, Star Wars. A fábula espacial introduzida por George Lucas em 1977 ajudou a inspirar cineastas, contadores de histórias e simples admiradores de bom entretenimento, por isso era tão grande a responsabilidade e o risco de se começar um novo capítulo nos cinemas. Com a recepção majoritariamente negativa da trilogia prequel, J.J. Abrams foi o escolhido para injetar vida nova à galáxia muito, muito distante. Bem, o responsável por revitalizar Star Trek certamente não decepcionou, e a saga desperta para uma nova geração.

A trama mantida a sete chaves nos introduz a um período conturbado na galáxia. Luke Skywalker (Mark Hamill) está desaparecido e o Império Galáctico foi substituído pela Primeira Ordem, uma organização radical inspirada no mandato de Darth Vader. Em sua luta, encontramos a Resistência, liderada pela general Leia Organa (Carrie Fisher), que parece ter encontrado um segredo chave para enfraquecer seus oponentes. Nesse cenário, conhecemos a sucateira Rey (Daisy Ridley) e o guerreiro fugitivo (John Boyega), logo colocados sob a mira do sinistro Kylo Ren (Adam Driver) enquanto tentam entregar uma importante mensagem para a Resistência.

Muitos segredos ao redor dessa premissa, que é apenas o ponto de partida. O roteiro assinado pelo próprio Adams e o veterano Lawrence Kasdan (responsável pelos roteiros de O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi) é uma continuação digna para os eventos da trilogia original, especialmente nas surpresas e revelações ao longo da trama. Isso é o básico, mas desde já somos capazes de notar nítidas semelhanças com a estrutura de Uma Nova Esperança. É a jornada clássica do herói de Joseph Campbell, ainda mais no cotidiano solitário de Rey nas dunas de Jakku, mas até mesmo a presença de uma grande arma mortal no clímax, o que chega a enfraquecer a originalidade do projeto. A dependência do compositor John Williams em temas consagrados também decepciona, já que o mestre infelizmente não traz um tema tão marcante ou memorável como fez para a trilogia prequel.

Isso também porque o trabalho de miniaturas da Industrial Light & Magic nos primeiros filmes permanece imbatível. Abrams é um habilidoso diretor, capaz de capturar planos e enquadramentos criativos e que valorizem a grandiosidade do design de produção (vamos de desertos a florestas e montanhas de neve) e a questão espacial de ação. E Abrams também revela-se saudoso ao apostar em diversas criaturas e alienígenas construídos através de efeitos práticos! Porém, sua condução com efeitos visuais no clímax, que envolve – em partes – diversos caças CGI não é tão impressionante, empalidecendo diante do trabalho dos originais. A exceção fica com a empolgante perseguição aérea da Millennium Falcon em Jakku, ainda mais pelo voo desajeitado e as manobras fisicamente “realistas”.

Mas esse talvez seja o único delito mais grave de O Despertar da Força. No geral, é uma aventura empolgante, com ritmo frenético e com o espírito despretensioso dos originais. A decisão de manter o foco nos personagens novos revela-se inteligente não só do ponto de vista de público (de forma a apresentar o universo de Star Wars para uma nova geração), mas também pelo tratamento quase mítico aos personagens e eventos que acompanhamos nos longas anteriores. “Luke Skywalker? Achei que era um mito!”, diz Rey empolgada em certo momento, simbolizando como Star Wars está cada vez sólido como peça essencial da cultura pop.

O primeiro ato do longa também merece aplausos por unir tão bem as diferentes tramas, unindo-as com o desértico planeta Jakku e o dróide BB-8 – uma das mais adoráveis e carismáticas criações de toda a saga. Mesmo que algumas coincidências sejam necessárias, Abrams e Kasdan conseguem criar fios narrativos que se cruzam de forma interessante, especialmente durante os primeiros 20 minutos e a introdução dos personagens veteranos. Figuras como a gangue Guvian (participação dos atores tailandeses de Operação Invasão) e a enigmática Maz Kanata, vivida através de motion capture por Lupita Nyong’o ajudam a avançar a trama apropriadamente, além de plantar promissoras sementes para o futuro.

O elenco é fantástico. A começar pela estreante Daisy Ridley, que faz de Rey uma personagem feminina com personalidade cativante e capacidade de lidar com cenas de ação, além de trazer muito carisma e uma força necessária para as mulheres da saga. Seu parceiro de cena, John Boyega é outro achado: o jovem cria uma figura nitidamente arrependida de suas ações como soldado de uma força opressora, algo que constantemente vemos na expressão preocupada do ator. O que mais surpreende, porém, é que Boyega é um alívio cômico brilhante, sendo capaz de divertir com seus surtos de desespero sem parecer um artifício irritante como fora Jar Jar Binks. Oscar Isaac tem menos tempo em cena como o piloto Poe Dameron, mas é uma figura heróica e adorável, que certamente deverá ter mais tempo em continuações.

Um filme de Star Wars também depende muito de seu vilão, e temos em O Despertar da Força aquele talvez seja o mais complexo personagem de toda a saga: Kylo Ren. Com o sabre de luz em forma de cruz e uma máscara ameaçadora, Adam Driver cria um personagem perturbado e que parece entrar em conflito consigo mesmo constantemente: não tem receio de tirar a máscara quando tal personagem o insulta, mas é incapaz de se controlar ao receber más noticiais (arrebentando um painel de controle no processo). Essa vulnerabilidade e descontrole emocional realmente tornam Ren um oponente digno e fascinante. Sua obsessão com Darth Vader também é um fator valioso, e a jornada de Ren promete ser uma das mais interessantes dessa nova fase.

E, claro, temos o saudosismo. Todo mundo chorou e se emocionou quando vimos Harrison Ford de volta como Han Solo e Peter Mayhew novamente no traje peludo de Chewbacca na Millennium Falcon, e essas mesmas pessoas têm muito pelo que esperar aqui. Abrams aposta em diversas referências visuais e em diálogos para acontecimentos específicos, mas que não irei detalhar a fim de preservar a surpresa. Vale sim destacar como o contrabandista de Solo mantém o jeito rebelde e cool, mas que traga um amadurecimento impressionante diante de suas crenças e ações, e Ford faz um excelente trabalho. Carrie Fisher também marca presença com sua Leia mais durona, ainda que seja eficaz ao trazer o lado mais doce da personagem em momentos emocionantes. E Mark Hamill, que não vimos em absolutamente nenhuma peça de divulgação do marketing? Ele está no filme, e paro por aqui.

Outra consideração final, que será vastamente discutida em nossa crítica com spoilers, são as decisões tomadas por Abrams para manter a chama acesa. Não teremos todas as respostas que buscamos, sendo guardadas para o já confirmado Episódio VIII, e isso deve aborrecer aqueles que esperavam por uma história mais fechada. Mas o futuro é empolgante, disso temos certeza.

Star Wars: O Despertar da Força é um eficiente retorno à forma para a saga espacial que fez (e faz) parte da vida de uma gigantesca legião de fãs. Pode sim se apegar demais à nostalgia, mas é uma continuação digna que ainda oferece um caminho promissor para o futuro. A Força é forte nessa nova franquia.

Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens, 2015 – EUA)

Direção: J.J. Abrams
Roteiro: J.J. Abrams, Lawrence Kasdan, Michael Arndt
Elenco: Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Daisy Ridley, John Boyega, Adam Driver, Oscar Isaac, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Peter Mayhew, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Max von Sydow
Duração: 136 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.