Crítica | Star Wars: Os Últimos Jedi (Sem Spoilers)

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Rian Johnson não tem uma extensa carreira como diretor, apesar de já há muito tempo estar no ramo cinematográfico. Diretor e roteirista do bom A Ponta de um Crime (2005) e do ótimo Looper: Assassinos do Futuro (2012), Johnson firmou com impetuosidade o seu estilo ágil de direção e escrita, sempre partindo de princípios simples para a criação de dramas que não necessariamente se resolvem por si só, mas que em sua extinção ou prosseguimento deixam novas coisas aparecerem e fazerem parte do grande plano do enredo. Para uma franquia como Star Wars, que precisava de uma renovação e um guia que ao mesmo tempo soubesse respeitar o passado, lidar com a continuidade e abrir portas para mais coisas, este era o tipo de diretor necessário.

A história aqui não segue o padrão até agora encontrado na franquia, que foi o da passagem de alguns anos entre um episódio e outro. Os eventos de Os Últimos Jedi se passam imediatamente após O Despertar da Força, tendo apenas o tempo elíptico correto para estabelecer um status de ajuste na história, com a hospitalização de Finn; outra missão de Poe; Luke pegando o sabre oferecido por Rey e assim por diante. Ciente de que estava dirigindo um Space Western em um ponto de conflito e que tinha por obrigação respeitar um legado e oferecer a possibilidade de este Universo crescer e ter mais de um caminho para seguir (noção antes fortalecida e entendida como possível após o excelente Rogue One) Johnson fez uso de referências cinematográficas bastante curiosas como os filmes Almas Em Chamas (1949), A Carta Que Não Se Enviou (1960), A Ponte do Rio Kwai (1957), Três Samurais Fora da Lei (1964) e entregou um tsunami de reviravoltas, um bom filme de guerra espacial e um bom filme de personagens com uma fortíssima mitologia por trás.

A noção entre o bem e o mal foi, em essência, a base para a escrita do roteiro e, gostemos ou não, há aqui uma forte influência de composição ético-moral e simbólica para um personagem e criação de situações-limite dentro de novidades narrativas como víramos nos malfadados A Ameaça FantasmaA Vingança dos Sith, tendo agora a vantagem de a Rebelião estar estabelecida e em ponto de colapso, encontrando pela primeira vez uma espécie de impasse interno (“Eu só tenho uma certeza. Está na hora de os Jedi acabarem“, já dizia Luke no trailer), onde a cada momento alguém parece querer seguir um caminho diferente. Johnson sabia que se não tratasse com a devida solidez os personagens já estabelecidos ele teria uma imensa quantidade de problemas que o impediriam de fechar este bloco e abrir um outro. Aí entrou a sua habilidade de construção dramática, usando do cânone para reinventar a cartilha da franquia, fazendo sim o conhecido feijão-com-arroz da fuga, perdas, danos e vingança que tão imediatamente aproximamos de Star Wars, mas incrementando isso com a colocação de personagens em um outro nível de amadurecimento, ao mesmo tempo que suas escolhas ajudam a colocar em cena novos momentos na atual História da Guerra.

Mas as mudanças vão além. Pela lógica comparativa, havia a espera de que este longa se aproximasse de O Império Contra-Ataca assim como O Despertar da Força fizera com Uma Nova Esperança. De maneira hábil, porém, Rian Johnson consegue montar um panorama bem mais pessoal, fazendo valer as promessas de oxigenação da saga da qual tanto se falava ultimamente. Evidente que a aproximação existe — e seria insano que não houvesse –, mas ela não é de ordem íntima, é quase uma sugestão de acontecimentos, muito por conta de o mesmo padrão estar em jogo, mas desta vez oferecendo a oportunidade de ambos os lados da Força mostrarem o seu verdadeiro potencial e a noção de que equilíbrio é sim um ponto de arrogância que cada Jedi carrega consigo e que mais dia menos dia irá cobrar o seu preço. O entorno, a memória e os sentimentos sombrios do passado da Galáxia sempre voltarão para atormentar àqueles que conseguem ver muito mais nas pessoas do que elas aparentam à primeira vista.

Plasmando esses tantos conflitos temos a fotografia entre pouca luz e belíssimas explosões de vermelho de Steve Yedlin, cujo último trabalho nos cinemas foi com o filme Terremoto: A Falha de San Andreas. De um lado, o fotógrafo consegue marcar em tons de cinza e azul a apreensão e medo que reina na Galáxia enquanto a arrogância do Supremo Líder Snoke se dá o luxo de achar que algumas coisas estão fatalmente fixadas no tempo e no íntimo das pessoas. Brota daí o vermelho como uma peculiar dualidade interna e externa aos personagens. Primeiro, indicando a possibilidade de o rio da Força que existe nos fortes fluírem por caminhos diferentes do esperado. A variedade de conflitos internos, a busca por respostas, a constante marcação do cenário de esperança em um momento tão delicado da guerra e a postura intempestiva de alguns personagens parecem fluir para um único lugar de toque minimalista e belíssimo uso do vermelho como marca central. Aí também são percebidas as influências orientais assumidas por Johnson refletindo na direção de arte, nos figurinos e na marcação de trechos sinfônicos da bela trilha de John Williams, avançando bem mais do que no Episódio VII, onde parecia preso ao passado), chegando ao ponto onde muitas respostas são sugeridas e mudanças definitivas acontecem.

Como o filme é inteiramente marcado por idas e vindas entre núcleos narrativos e por diferentes estágios de conflito em seus principais personagens, é natural que haja alguns ruídos na passagem de um bloco para outro, não necessariamente em termos de edição (o trabalho de Bob Ducsay — que vem do vergonhoso As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras — é realmente bom), mas no peso de roteiro que cada um desses blocos tem, o que implica em impasses entre uma parte e outra, especialmente em dois pontos: nas sequências da ilha onde Luke está, bloco que na parte final se estende mais do que deveria; e na missão onde DJ (Benicio Del Toro) nos é apresentado. Em termos de construção de personagens, Luke Skywalker (Mark Hamill coloca sua alma em toda a intensidade que traz neste momento de seu personagem) é o que provavelmente irá gerar mais comentários sobre questões de conduta e escolhas — já sabemos que ele disse em pessoa a Rian Johnson que não concordava com uma linha do que estava no roteiro, mas que ia segui-lo com tudo o que tinha de melhor para dar — algo mais ou menos na onda de debates que o último episódio trouxe em torno de Rey (Daisy Ridley).

É impossível não falar ou se emocionar com as cenas da nossa saudosa Princesa Leia (Carrie Fisher) ou não ter apreensão e ranger os dentes no decorrer do filme, quando situações bastante intensas e contrastantes envolvem os personagens de Adam Driver (Kylo Ren tem aqui um grande desenvolvimento e é favorecido pela excelente atuação do ator), Laura Dern (A Vice-Almirante Amilyn Holdo é um dos livros mais difíceis de se ler), Oscar Isaac (o roteiro exagera na toada de rebeldia para Poe Dameron e quase nos faz enjoar do personagem, mas se segura a tempo) e John Boyega (Finn está bem menos interessante do que no Episódio VII, mas segue bem o fluxo de colocação na história, especialmente no final). Todos aqui tem espaço em tela para mostrar a que veio — afinal, são 2h32 de filme, o que não chega a tornar a obra pesada, dada a boa administração do ritmo, mas o espectador sente um pouco o tempo — e isso vai dos mais antigos na saga aos estreantes, como Rose Tico (Kelly Marie Tran); e das novas criaturas, como Porgs, Caretakers e Vulptex (ou “raposas de cristal) ao clímax do filme, na Batalha de Crait, opondo a Resistência e a Primeira Ordem mais as suas consequências.

Star Wars: Os Últimos Jedi tem todos os benefícios de um filme escrito e dirigido por alguém que teve muito mais liberdade criativa para trabalhar do que qualquer um de nós esperava. O resultado é algo que, apesar de bater na mesma tecla algumas vezes, não deixa de ser muito interessante porque é novo na saga e porque nos tira da zona de conforto e nos leva para outros lugares, acenando para situações que podem ter uma meia dúzia de destinos diferentes. Trata-se de um filme que marca uma importante fase de mudança dentro e fora da série, colocando na Galáxia uma geração da Resistência que tem a realidade e a lenda como partes de uma mesma bandeira que levam no coração. A Força ainda segue forte com esta saga.

Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars: The Last Jedi) — EUA, 2017
Direção: Rian Johnson
Roteiro: Rian Johnson
Elenco: Daisy Ridley, Mark Hamill, Adam Driver, Gwendoline Christie, Domhnall Gleeson, Carrie Fisher, Billie Lourd, Andy Serkis, Joseph Gordon-Levitt, Laura Dern, Oscar Isaac, Benicio Del Toro, Kelly Marie Tran, John Boyega, Lupita Nyong’o, Warwick Davis, Hermione Corfield, Joonas Suotamo, Veronica Ngo, Gareth Edwards, Anthony Daniels, Jimmy Vee, Tim Rose
Duração: 152 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.