Crítica | Star Wars Rebels – 4X10 e 4X11: Jedi Night e DUME

plano critico star wars rebels

Contém spoilers do episódio. Confiram todas as nossas críticas da série aqui.

Falta pouco. Com três episódios duplos, Star Wars: Rebels aproxima-se de um fim que promete fazer justiça ao que foi construído até aqui. Se tomarmos como exemplo essa volta da série com Jedi Night/DUME, o final promete ser nada menos do que belo, triunfal e trágico. Impossível não ficar ansioso.

Mas, vamos por partes. Dave Filoni e seus roteiristas nos deixaram no ano passado com Hera capturada pelo Império. Seguindo o óbvio, Kanan, Ezra e a equipe da Fantasma se preparam para o plano de resgate, enquanto a própria capitã Syndulla é torturada nas mãos da governadora Pryce e do Grão Almirante Thrawn.

Peças postas, Jedi Night acaba sendo muito mais do que aparentemente se propõe. Entre as preparações para o resgate, o roteiro lentamente pontua despedidas em um tom intimista, orientando o espectador a um fim cuidadosamente anunciado. Ainda assim, restava a dúvida: teria Rebels a coragem de finalmente matar um de seus personagens principais, mesmo não sendo no episódio derradeiro de todo o seriado?

Não só teria como, felizmente, teve. Somos brindados com uma das mortes mais lindas do universo Star Wars logo neste primeiro passo em direção ao encerramento.

Caleb Dume, aka Kanan Jarrus, discípulo de Depa Billaba e mestre de Ezra Bridger, o último padawan da galáxia após a fatídica ordem 66, nos deixa após 65 episódios. Desnecessário dizer que tantos capítulos se passaram rápido demais.

Sacrifício, lucidez, calma, convicção. Da morte de Luke Skywalker à de Kanan, cada palavra dessa simboliza o que significa a morte de um mestre Jedi, mas fica longe de esgotar seu significado. Compreender o fim de Kanan é compreender sua jornada, sintetizada com maestria nos poucos minutos que Jedi Night tem antes de seu momento decisivo.

Uma simples mão nos ombros de Zeb, um “que a Força esteja contigo” para Sabine, ou ainda um último conselho para Ezra. Concentrado em sua missão – e preparado para qualquer tipo de risco – Kanan se oferece ao sacrifício em meio ao misto de leveza e urgência que Rebels sempre soube expor.

Como um samurai preparando-se para a guerra, pratica sua mini liturgia ao cortar suas madeixas, deixando apenas uma leve franja e um singelo, ainda que ridículo, mullet. O que dizer? Nem a Força pode ajudar um cego a cortar o próprio cabelo sozinho.

Pouco importa o visual em face de seu amor por Hera. O esperado beijo tem lá seus obstáculos para acontecer – tudo com muito humor e docilidade. Quando acontece, nada de breguice. São os passos finais que jogam a última luz no porquê do sacrífico de Kanan. Mais do que a rebelião – ainda que por ela. Mais do que pelos Jedi – ainda que por eles. Mais do que pela família ali criada – ainda que por eles também. O motor principal de Kanan não pode ser outro: seu amor por Hera, o mesmo desfrutado por todo telespectador que o viu florescer em toda a pureza que só um desenho infantil pode proporcionar.

Do momento final, talvez caibam algumas palavras, mas, provavelmente, elas serão desnecessárias. Tal como a falta de cor e de música nos créditos, a ausência de uma análise extensa de um momento evidentemente épico e, ao mesmo tempo, íntimo em seu núcleo, me soa como a melhor saída. Os olhos de Dume e a magnífica trilha sonora ditam o monumento que é Jedi Night dentro de Rebels.

DUME acaba servindo como aftermath do evento trágico que acabamos de vivenciar. Lembra-se vagamente de uma empolgante promessa, deixada ainda no episódio anterior, de se ver Thrawn e o Imperador em tela. Acabamos com uma promessa ainda melhor: voltaremos ao templo Jedi – onde os melhores episódios da série geralmente acontecem, incluindo aí os que se passam em templos Sith.

Entre os mistérios dos lobos de Lothal, cada vez mais místicos, e a politicagem insossa do Império, cada membro da equipe reage de maneira própria à dor e ao sofrimento que o telespectador sente. Assim, DUME se torna muito bem-vindo, estabelecendo uma rápida conexão com o espectador que só é atrapalhada, veja só, quando a ação tem de acontecer com o chato Rukh.

Por fim, mas não menos importante, o trabalho de Freddie Prinze Jr. é digno de aplausos e reconhecimento, assim como o de cada ator da série. Perder Kanan é, também, perder o talentoso ator que deu, sem exagero, vida e personalidade ao personagem.

Restaurar o passado, redimir o futuro. O que isso significa? É só mais uma de várias perguntas que Rebels precisa nos responder. Se Filoni conseguir o que conseguiu nesta volta triunfal, o fã de Star Wars, que já tem em Rebels uma das melhores estórias deste universo, será agraciado com uma verdadeira chave de ouro. Resta aguardar.

Star Wars Rebels – 4X10/11: Jedi Night/DUME (EUA, 19 de fevereiro de 2018)
Showrunner: 
Dave Filoni
Direção:
 Dave Filoni, Steward Lee
Roteiro: 
Henry Gilroy, Steven Melching
Elenco: 
Taylor Gray, Vanessa Marshall, Freddie Prinze Jr., Tiya Sircar,  Cary-Hiroyuki Tagawa, Katee Sackhoff,  Andrew Kishino, Kevin McKidd, Dave Filoni, Sharmila Devar, Tobias Menzies, Lars Mikkelsen
Duração: 
44 min.

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran. https://twitter.com/AnthonioDelbon