Crítica | Star Wars Rebels – 4X12 e 4X13: Wolves at the Door e A World Between Worlds

Contém spoilers do episódio. Confiram todas as nossas críticas da série aqui.

*Seis estrelas, apenas corrigindo a nota do episódio.

Agora que chegamos ao penúltimo capítulo da jornada de Rebels posso dizer, com tranquilidade, que qualquer episódio mais questionável destas quatro temporadas há de ser perdoado. O que temos em mãos, como fãs de Star Wars e de boas séries animadas – e Wolves at the Door e A World Between Worlds são provas – é uma pérola para fã nenhum botar defeito. Os altos de Rebels são tão, mas tão altos, que as irregularidades e fillers que eventualmente possam ter surgido se tornam, em perspectiva, algo perto do invisível.

Aproximando-se do final, velhas perguntas precisavam ser respondidas. Dave Filoni, nesta dupla de episódios, não só as responde como as aproveita para proporcionar aquele tipo de insight do universo Star Wars que o verdadeiro fã, sem exagero, ama apreciar. Comecemos, portanto, pelo início.

Seguindo a bela e trágica morte de Kanan e suas implicações emocionais na equipe da Ghost, Wolves at the Door já começa acertando em seu tom. Filoni não nos traz nenhuma leveza boba nem nenhum humor mal colocado. Trata-se de dar um prosseguimento sério aos seríssimos eventos recentes.

Do semblante de Hera à opção pelo destaque da silenciosa jornada até o templo Jedi de Lothal, da incrível trilha sonora – repito, incrível – ao suspense de uma decisiva missão com ares de Indiana Jones, o penúltimo capítulo da série coloca cuidadosamente as peças no xadrez final, elevando constantemente nossa expectativa e prometendo memórias inesquecíveis.

Felizmente, a promessa é cumprida. E com louvor.

Em meio às escavações imperiais e mind tricks em Death Troopers, aposta-se no simbolismo das divindades Mortis – apresentadas no finado Clone Wars – como centro do mistério que move o capítulo. Aproveitando, assim, a busca obsessiva do Imperador por esse tipo de sabedoria arcana e, ao mesmo tempo, indicando uma resolução conjunta aos mistérios dos lobos de Lothal e da missão de Ezra no templo, Filoni traz uma peça sólida o suficiente para, com o decente ritmo, ditar a nossa expectativa para A World Between Worlds.

E convenhamos: um episódio que começa com falas clássicas de Yoda, Qui-Gon e Obi Wan só pode terminar no mais puro êxtase.

Colocando-nos na figura de Ezra, Filoni nos deixa maravilhosamente perdidos neste “entre mundos” aberto ao fim do episódio anterior – em uma animação 2d, é preciso dizer, elegantíssima. Aqui, Filoni brilha em sua coragem.

Esse lugar que não obedece às leis do espaço e do tempo nunca foi difícil de imaginar para um fã da série. Na própria primeira temporada, no mesmo templo, o próprio Ezra encontra Yoda em lugar semelhante. Ainda assim, o design escolhido é capaz de proporcionar uma fina sensação de vastidão, de um vazio insondável. Deixa-se o profano cenário “Império x Rebeldes” para se imergir imediatamente em águas sagradas e, portanto, incompreensíveis.

Mas a coragem de Filoni não se limita à escolha de design nem à expansão de Star Wars que ganha, com todas as letras, um espaço onde todos os filmes, livros, séries e eventos de seu universo se reúnem – ouvimos até Rey neste episódio! Filoni o utiliza, mostrando um vislumbre do poder que se tem neste mundo entre mundos – e da possível corrupção de alma que esse poder pode trazer.

Afinal, é aqui que, após duas temporadas, muitas lágrimas e exclamações, perguntas e aflições, finalmente sabemos o destino de Ahsoka Tano. E o melhor: entre tantos indícios e teorias sobre sua vida, duvido que algum fã de Star Wars imaginaria que a nossa não-Jedi favorita teria sido salva de seu ex-mestre pelas mãos de um Ezra Bridger…do futuro! Como o Bran de Game Of Thrones, Ezra ganhou o poder sobre o espaço e o tempo, com a diferença de ter conseguido salvar a melhor personagem da série em vez de deixa-la convulsionando repetindo “Hodor” para sempre.

Para ser claro: Dave Filoni introduz uma espécie de viagem no tempo em Star Wars. As implicações disso, como se pode notar, são tão gigantes que se tornam difíceis de medir.

Não bastasse introduzir esse místico lugar, dar a resposta tão almejada pelo espectador e adicionar uma drástica mudança no jogo de Star Wars – talvez mais drástica do que a projeção astral de Luke Skywalker – Filoni traz, pela primeira vez em toda a série, o Imperador, praticando pela primeira vez uma espécie de magia a dar inveja em qualquer Saruman que se preze.

Como a série já nos acostumou com outros personagens clássicos, o Imperador não aparece só para dizer que apareceu. Seu objetivo é claro e coerente, o que só acrescenta ao evento: vemos Darth Sidious citar nominalmente Kanan Jarrus, Ahsoka Tano e Ezra Bridger. Isso, é claro, na incrível e inconfundível voz de Ian McDiarmid, como se o resto do capítulo fosse pouco.

Em suma, o penúltimo capítulo de Star Wars Rebels sabe se impor, ora respondendo, ora perguntando. Sabe introduzir mistérios e figuras clássicas, mas sabe, principalmente, concluir as tramas emocionais e pessoais de seus personagens, mesmo que em meio a um turbilhão de eventos. É delicado em sua excelência, o que só nos deixa mais tristes por saber que, em apenas uma semana, a jornada estará acabada.

Star Wars Rebels – 4X12/13: Wolves at the Door/A World Between Worlds (EUA, 26 de fevereiro de 2018)
Showrunner: 
Dave Filoni
Direção:
 Dave Filoni, Steward Lee
Roteiro: 
Henry Gilroy, Steven Melching
Elenco: 
Taylor Gray, Vanessa Marshall, Freddie Prinze Jr., Tiya Sircar,  Cary-Hiroyuki Tagawa, Katee Sackhoff,  Andrew Kishino, Kevin McKidd, Dave Filoni, Sharmila Devar, Tobias Menzies, Lars Mikkelsen
Duração: 
44 min.

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.