Crítica | Star Wars Rebels – 4X14, 4X15 e 4X16: A Fool’s Hope e Family Reunion and Farewell (Partes 1 e 2)

Série e Episódio:

Temporada:

  • Leia, aqui, as críticas de todas as temporadas de Star Wars Rebels e, aqui, nosso Especial Star Wars.

Um breve comentário

Star Wars toca o coração de muita gente por diversos motivos. Do saudosismo aos sabres de luz, das personagens às batalhas espaciais. Da tradicional luta dos rebeldes pela liberdade à tradicional luta entre o bem e o mal. Do seu misticismo religioso à trilha de John Williams cobrindo os sóis de Tatooine. Tudo isso – e mais uma enormidade de coisa – parece tocar a melodia certa para aquecer o espírito tanto da velha guarda quanto dos que cresceram comprando Pepsis com a cara estampada de Qui Gon e Darth Maul, como foi meu caso.

Quem cresceu com as prequels, vendo agora em retrospectiva, tinha tudo para dar errado. Mas a imensa maioria deu certo, por um fator simples: Star Wars é um encanto. Seus temas falam com qualquer homem em qualquer tempo. Tragédia, esperança e família – fico nos três para não me alongar – podem até ser desenvolvidos de maneira porca nesse universo, mas o universo de Star Wars pulsa como nenhum outro conseguiu na breve história do cinema.

Não sei o porquê disso. A bem da verdade, só encontro pistas da razão de todo esse sucesso quando ouço ou leio alguém tentando, sempre com dificuldade, exprimir o que Star Wars foi e é em sua vida. Sei, sim, que as definições de arte que mais me agradam gostam de flertar com essa sensação de transcendência intrinsecamente religiosa.

O que me interessa, e aqui justifico o longo preâmbulo à crítica de um mero desenho animado, é apenas destacar o prazer insondável que me dá ver esse universo funcionando de maneira fluída e cuidadosa. Star Wars Rebels conseguiu isso e nos deu – incluo você, leitor, que sei que concordará pelo menos com essa parte do texto – memórias inesquecíveis, limpando aquele nosso filtro no qual a realidade diária nos passa sem pedir licença, filtro tão visceral que Fernando Pessoa clamava para o homem couraçar-se cercando-se de realidades mais próximas de si do que os factos, e através das quais os factos, alterados para de acordo com elas, lhe cheguem.

Star Wars não é puro escapismo distraído. É escapismo consciente de sua volta à realidade, seja ela familiar, social, profissional e, sobretudo, espiritual. Star Wars também não é autoajuda disfarçada de sabedoria milenar – ser de hollywood, naturalmente, não ajuda muito na hora de defender esse ponto. Também não é filosofia de primeira na sétima arte – qualquer Bergman ou Bresson explicam o porquê de tanto cinéfilo olhar de soslaio para George Lucas, com razão.

Mas Star Wars está aí, permitindo, como boa peça de arte, acesso a quem quiser escapar e se distrair, buscar aquela autoajuda mística à la Paulo Coelho ou acreditar que se trata do ponto final de toda a história da teologia cristã e da filosofia ocidental e oriental. Ao meu ver, reduções, todas elas, exageradíssimas.

Basta Star Wars ser um conto.

Contém spoilers do episódio. Confiram todas as nossas críticas da série aqui

Rebels aplica essa noção em suas quatro temporadas nos narrando uma estória específica entre os episódios III e IV. É a estória de Kanan Jarrus, Hera Syndulla, Sabine Wren, Zeb Orrelios e, principalmente, de Chopper, de Ezra Bridger, como pudemos ver neste belíssimo capítulo triplo que encerrou a série.

Tantas especulações sondaram o desenho animado no intervalo de suas temporadas que vale a pena lembrar de algumas, rapidamente. Ezra iria para o lado negro da força após ser tentado por Darth Maul? Seria Sabine Wren relacionada, de alguma forma, com os cavaleiros de Ren? Seria Ezra a versão jovem de Snoke? Seria Rey filha de Sabine e Ezra? Besteiras atrás de besteiras, que não pararão por aqui dado o final que Dave Filoni deu… mas como foi divertido especular tudo isso com amigos!

Antes de chegar ao final em si, tratemos do(s) episódio(s) primeiro. A ação come solta, essa é a verdade. Sem enrolação, a batalha final entre Império e Rebeldes em Lothal é um típico terceiro ato dos filmes de Star Wars. De um lado, os Rebeldes resistem e bolam planos mirabolantes para sobreviver ou sabotar os imperiais. De outro, um tom um pouco mais reflexivo pondera o ritmo, anunciando a tragédia com fiapos de esperança a surgir.

Homenagens aos clássicos – como a estratégia de Hondo para entrar em Lothal – e ao próprio Rebels, com uma penca de coadjuvantes de outros episódios aparecendo, foram bem-vindas. Uma monumental trilha sonora foi mais do que adequada para ditar o pico épico a fechar essa aventura de quatro anos. E a ação em si, por mais previsível que seja – trata-se de um desenho animado feito para crianças, não esqueçamos – agrada. Mal vejo a hora de colocarem na telona as manobras de Sabine Wren.

Nas quatro temporadas, por mais que seja essencialmente previsível e infantil como disse acima, Rebels realmente consegue brilhar quando aposta um pouco na imprevisibilidade. Foi assim com a morte de Kanan no antepenúltimo episódio. Foi assim em Twilight Of The Apprentice e foi assim, felizmente, no seu series finale.

Não só Thrawn captura e troca belas linhas de diálogo com Ezra – dessas que esclarecem a bússola moral de quem aposta na Força e imoral de quem aposta na natureza “humana”, algo que flerta de leve com temas pesados em filosofia – como também o entrega ao, veja só, menino Palpatine, aqui todo dengoso e da paz.

Convenhamos: Ian Mcdiarmid e seu Imperador nunca são demais!

Daí para frente, Dave Filoni capricha. Recria e repete a tentação que vimos no último episódio, onde Ezra quase salvou seu mestre da morte. Aqui, com o adicional e a sutileza de se tratar do garoto órfão que conhecemos batendo carteiras agora enfrentando seu derradeiro teste para amadurecer. Manners maketh man, já dizia o sábio. Rebels é infantil, é verdade. Mas nada a impediu de me fazer quase gritar à tela para Ezra voltar aos pais e ser feliz de uma vez. Acho que eu seria um sith…

Mais uma vez, Star Wars brincou, mesmo em sua série animada, com nossa sensibilidade. Se Ezra volta aos pais como eu desejei ardentemente que fizesse, o que aconteceria, a bem da verdade, seria o apagamento automático de toda a jornada que nos foi apresentada até aqui. Minto. Toda a jornada que vivemos e experimentamos até aqui. E ninguém, em sã consciência, quer apagar o que se viveu em Rebels, nem mesmo os sofrimentos e as dores que foram causadas nestes anos. O problema é que a tentação é sempre forte e a carne, se não for a de Ezra Bridger, é geralmente muito fraca.

(Só eu me assustei com o tilt na holografia do Imperador, que voltou a ser o capeta de sempre?)

Devo dizer, ainda, que toda a arquitetura criada por Filoni para colocar os animais em sintonia com a Força não me desceu suavemente goela abaixo. Ainda que sirvam para mostrar o aspecto religioso de um convicto e crente Ezra – é a sua lição principal, afinal, e a que o faz ser um brilhante e corajoso comandante neste capítulo final – os animais sempre me soaram como tipos de deus ex machina, desde o Bendu da terceira temporada. Nada que atrapalhe, desrespeite ou desfigure o que é Star Wars e o que é Rebels, que fique claro. Apenas uma objeção de um fã chato.

Para além disso e focando minha lente no final da série, é preciso destacar novamente a imprevisibilidade de Rebels. À boba especulação sobre a morte de toda a tripulação da Ghost ao estilo Rogue One, devido ao fato de não haver mais Jedi na trilogia clássica etc., Filoni resolve a coisa de uma maneira corajosa e criativa. Elegendo Ezra o herói definitivo de Rebels e o colocando na posição sacrificial necessária, posto que Ezra é, agora, um homem maduro, Filoni fecha o ciclo com mais um lindo sacrifício, bem construído do começo ao fim do finale e capaz de promover, em vazios silenciosos e rápidas trocas de olhares, emoções das mais saborosamente tristes.

Ao mesmo tempo, somos colocados, neste momento, em uma expectativa potencialmente explosiva. Sabemos que ainda há tempo no episódio para muita coisa. Sabemos que o “Bem” venceu, como esperado, mas ficamos sem chão ao não sabermos se Ezra morreu ou não. Gradualmente, primeiro com uma mensagem de Ezra deixada para cada membro da equipe, depois com um bem-vindo salto temporal para a era pós-Batalha de Endor, nossa surpresa não para de aumentar. Zeb e Kallus são melhores amigos, Kanan e Hera tiveram um filho (!!!) e Sabine, cada vez mais linda, guarda o lar de Ezra com afinco e beleza artística.

Até que acontece o que acontece e eu já não vejo a hora de ver o que a Disney vai anunciar e o que Dave Filoni vai fazer em seguida. Viro apenas mais uma criança ansiosa por uma estória nova, pela continuação da jornada desses personagens que acabam, mesmo em um desenho infantil, refletindo nossas próprias jornadas – desculpem-me a cafonice. E volto e revejo o final mais umas dez vezes para sentir o mesmo arrepio na espinha – veja: tudo que eu mais desejava é ter a possibilidade de Ahsoka estar viva entre os episódios VI e VII. É pedir muito para que ela vire a maior sábia do universo, fique idosa como o Yoda e oriente Luke Skywalker em algum momento nesse período?

Talvez seja demais. Até a padawan de Anakin ter rugas no rosto, pelo jeito, muitas aventuras acontecerão – aventuras mais sérias, eu chuto – com Sabine Wren em busca de Ezra Bridger, o Jedi Perdido. E a criança em mim surge novamente, imaginando esse subtítulo para a próxima vez…paremos por aqui. Que a força esteja com cada fã de Rebels!

*Ainda nessa semana prometo elencar um breve top 10 com os melhores episódios da série. Vai ficar gente de fora, não há como.

*Você tem aquele amigo ou parente com filho pequeno que se desespera quando a criança não fica quieta? Pois bem, eu tenho. A solução é quase sempre estresse ou Galinha Pintadinha, se não for, dependendo da idade, a tela de um celular. Permaneço sem entender como alguém, que até gosta de Star Wars como esse amigo/parente, não aproveita a desculpa de ter um filho pequeno para embarcar logo de uma vez em Rebels com seu miúdo. Eu cresci com Goku, Ash e Kenshin. Ezra e Ahsoka não devem absolutamente nada para esse trio de ferro. Vai ver, os pais da criança precisam mais de Rebels do que a filha…

Star Wars Rebels – 4X14/15/16: A Fool’s Hope/Family Reunion and Farewell (Parts 1/2)(EUA, 05 de março de 2018)
Showrunner: 
Dave Filoni
Direção:
 Dave Filoni, Steward Lee
Roteiro: 
Henry Gilroy, Steven Melching
Elenco: 
Taylor Gray, Vanessa Marshall, Freddie Prinze Jr., Tiya Sircar,  Cary-Hiroyuki Tagawa, Katee Sackhoff,  Andrew Kishino, Kevin McKidd, Dave Filoni, Sharmila Devar, Tobias Menzies, Lars Mikkelsen, Ian McDiarmid
Duração: 
66 min.

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran. https://twitter.com/AnthonioDelbon