Crítica | Star Wars: The Clone Wars – A Série Completa

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estrelas 3,5

Espaço: Vários
Tempo: Entre os episódios II e III.

Até 2003 a franquia Star Wars nunca havia se sustentado na televisão, com algumas poucas séries e especiais tendo sido feitos desde a estreia de Uma Nova Esperança. Desses podemos citar o especial de natal tenebroso e o seriado dróides, duas obras que servem muito bem como resumo de toda a tragédia na qual a saga criada por George Lucas fora transformada na televisão. Isso mudou com Clone Wars, o desenho animado criado por Genndy Tartakovsky que serviu como tie-in de A Vingança dos Sith, desenho esse que herdou muito de Samurai Jack, tanto na arte, quanto na estrutura de sua narrativa. Foram poucos episódios, porém, que fecharam de forma redonda toda a guerra que seria, de fato, encerrada no Episódio III. 

Simplesmente deixar passar o sucesso dessa animação, contudo, não faz bem para os bolsos e George Lucas, claro, viu uma nova oportunidade de lucrar em cima desse mesmo período da saga. Eis que surge The Clone Wars, que transforma os característicos traços de Tartakovsky em computação gráfica, nos contando novas histórias focadas, principalmente, em Anakin Skywalker, Ahsoka e Obi-Wan. Cada capítulo de vinte e dois minutos, aproximadamente, nos apresenta um diferente evento dessa longa guerra. Não se enganem, porém, já que determinados episódios não trazem nada do conflito da República contra os Separatistas, preferindo aprofundar os diversos personagens que dão as caras ao longo do seriado.

O grande problema de The Clone Wars é a forma como seus episódios foram lançados, em ordem não-cronológica, algo que, felizmente, foi corrigido posteriormente através de uma lista publicada no site oficial de Star Wars, que conta com a ordem cronológica certa. Portanto, para o desavisado, assistir a animação será um verdadeiro suplício, já que alguns arcos vão soar completamente malucos, desconexos, sem falar na aparição de personagens que já morreram em um ponto anterior da história. Portanto, se ainda não assistiu o desenho e o intenciona fazer, recomendo fortemente que o faça seguindo a ordem cronológica – a experiência será absurdamente melhor.

Isso, contudo, não quer dizer que tudo mudará da água para o vinho, pois a série conta com outros evidentes problemas, especialmente nas duas primeiras temporadas. Era bastante claro que essa era uma obra despretensiosa, que foi ganhando maiores proporções com o tempo. Enxergamos isso claramente pelas tramas mais infantis e pouco engajantes dos primeiros anos. Conforme o tempo passa, porém, uma maior sensação de urgência é passada e mortes de personagens de destaque começam a ocorrer, tornando essa uma guerra de verdade e não somente uma troca de raios coloridos. O escopo das Guerras Clônicas se torna muito maior e o humor que toma conta das primeiras temporadas é reduzido, aparecendo somente como alívio cômico em ocasiões específicas.

Quando chegamos na segunda metade da terceira temporada, portanto, sentimos uma mudança brutal na narrativa, que passa a trabalhar com personagens secundários recorrentes e arcos maiores e mais sombrios, alguns dos quais atuam como uma bela adição ao cânone de Star Wars, lembrando que The Clone Wars faz parte das histórias “oficiais” após a compra da Lucasfilm pela Disney. Com narrativas mais refinadas e ousadas, o seriado começa a, verdadeiramente, nos prender, ainda que, vez ou outra, apareçam alguns capítulos tediosos, que se apoiam na infantilidade das primeiras temporadas. É preciso ressaltar, também, a inclusão de ótimos novos personagens à franquia, como a própria Ahsoka (por mais que não faça o menor sentido Anakin jamais mencioná-la depois), o caçador de recompensas Cad Bane e, claro, Rex o soldado clone que acompanha Skywalker na maioria das missões.

Um dos pontos altos da série é justamente a forma como os roteiros trabalham a relação entre esses vários personagens. Com o tempo sentimos a cumplicidade existente entre Anakin e Rex, ou a amizade de Obi-Wan com seu aprendiz, que é muito melhor trabalhada que nos próprios filmes. Além disso, enxergamos claramente o amadurecimento de Ahsoka, que retornaria em Rebels, anos mais tarde. Fora isso, o desenho ainda traz de volta elementos praticamente desperdiçados por Lucas nos três filmes prelúdio, como o icônico Darth Maul, que aparece em alguns dos melhores arcos da animação. O próprio conde Dooku é visto como uma ameaça maior aqui, mesmo que sem a voz imponente de Christopher Lee.

Tudo isso é coroado com um belo trabalho de animação, que se sustenta até os dias de hoje, por mais que tenha apresentado claros sinais de evolução de 2008 até 2015. O traço de Tartakovsky é respeitado e, embora os movimentos não tragam a mesma fluidez da animação tradicional que vimos em Clone Wars, não há como reclamar de como esse desenho foi elaborado, trazendo algumas memoráveis sequências que o tornam muito superior à toda trilogia prelúdio (ainda que consideravelmente inferior à sua contraparte em 2D).

The Clone Wars, por duas temporadas e mais alguns episódios soltos, é uma verdadeira provação, feita somente para os maiores fãs de Star Wars, que precisam resistir a tentação de desistir por causa dessas tragédias iniciais que tomam conta da animação. Quando chegamos à terceira temporada, porém, nossos esforços são recompensados e ganhamos uma série digna de fazer parte do novo cânone. Pode não contar com todo o teor artístico de Genndy Tartakovsky, mas nos entrega algumas boas histórias que enriquecem a saga criada por George Lucas. Uma pena que, no seu auge, ela tenha sido cancelada, nos deixando com um final que não encerra tudo da maneira que deveria.

Star Wars: The Clone Wars — EUA, 2008-2015
Showrunner:
Dave Filoni
Direção: Steward Lee, Brian O’Connell, Kyle Dunlevy, Giancarlo Volpe, Danny Keller, Bosco Ng, Dave Filoni, Rob Coleman, Justin Ridge, Jesse Yeh, Duwayne Dunham, Dave Bullock, Atsushi Takeuchi, Robert Dalva, Walter Murch
Roteiro: Henry Gilroy, Drew Z. Greenberg, Scott Murphy, Christian Taylor, Steven Melching, Katie Lucas, Chris Collins, Matt Michnovetz, Brent V. Friedman, Paul Dini, Dave Filoni, Eoghan Mahony, Daniel Arkin, Charles Murray, George Krstic, Steven Long Mitchell, Craig W. Van Sickle, Cameron Litvack, Bonnie Mark, Jose Molina, Melinda Hsu Taylor, Brian Larsen, Craig Titley, Julie Siege, Jonathan Rinzler, Tim Burns, Kevin Campbell, Kevin Rubio, Bill Canterbury, Jen Klein, Andrew Kreisberg, Wendy Mericle, Ben Edlund
Elenco: Tom Kane, Dee Bradley Baker, Matt Lanter, James Arnold Taylor, Matthew Wood, Corey Burton, Ashley Eckstein, Terrence ‘T.C.’ Carson, Catherine Taber, Ian Abercrombie, Phil LaMarr
Duração: 129 episódios de aprox. 22 minutos.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.