Crítica | Star Wars: Troopers da Morte, de Joe Schreiber

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estrelas 2

Não-canônico (Star Wars Legends) – a partir de 1º de janeiro de 2015
Espaço: Espaço profundo. Nave-prisão imperial Purgação e Destróier Imperial Vector
Tempo: A Ascensão do Império – 1 ano a.BY (antes da Batalha de Yavin)

É muito difícil fazer a crítica de Troopers da Morte, história que introduz zumbis ao universo expandido de Star Wars, sem abordar algo que pode ser visto como spoiler para que não leu. Não se trata de nada relacionado ao final ou alguma reviravolta espetacular, mas sim algo razoavelmente inesperado que acontece mais ou menos na metade da história e que, em minha concepção, detrai da experiência como um todo. No entanto, como preferi manter a crítica sem spoilers, marquei os parágrafos em que abordo o assunto mais especificamente, para justificar minha avaliação final. Portanto, quem ainda não tiver lido esse livro pode ler a crítica sem medo, pulando o “cinturão de spoilers“.

A obra de Joe Schreiber, escritor americano razoavelmente conhecido por seus livros de terror, ficou encarregado de trabalhar o conceito de zumbis dentro do universo de Star Wars, algo que foi muito bem sucedido, considerando-se que Troopers da Morte ganhou uma continuação, Red Harvest, ainda não lançada no Brasil. Mas isso era já de se esperar diante da fascinação dos consumidores de cultura pop com os mortos-vivos e, claro, com o universo criado por George Lucas.

Em breves palavras, o livro começa muito bem, mas desmorona a partir da metade. É uma pena ver o potencial narrativo desperdiçado considerando que Schreiber consegue criar personagens novos que cativam rapidamente o leitor: Trig e Kale Longo, irmãos e órfãos prisioneiros da nave-prisão imperial Purgação a caminho da penitenciária; Jareth Sartoris, cruel capitão da guarda imperial e Zahara Cody, aristocrata que largou tudo para ser médica do Império e que trabalha na nave-prisão. Cada um dos personagens ganham vidas pregressas que funcionam bem para dar estofo às suas ações, especialmente no caso de Cody, quando, em uma volta ao passado, entendemos sua relação familiar conturbada e sua escolha radical de se emancipar, saindo das asas dos pais. Os Longo também são bem trabalhados como jovens que perderam o pai há pouquíssimo tempo também na nave-prisão e que, agora, precisam lidar com isso e com toda a estrutura perigosa de poder entre os prisioneiros mais afluentes, especialmente o perigoso Aur Myss. O mais unidimensional de todos é Jareth Sartoris, enquadrado como o vilão principal, mas mesmo ele é brindado com uma boa camada de ambiguidade moral por Schreiber, permitindo até mesmo um razoável grau de empatia com o personagem.

Toda a história se passa no espaço profundo e a interação com o universo Star Wars mais conhecido é extremamente limitada, o que permite uma ótima aura de “auto-contenção” que ajuda a narrativa e impede que a praga zumbificadora espalhe-se para além do confinamento estabelecido. Mas é claro que todos os elementos já estabelecidos da franquia estão presentes, notadamente quando a Purgação se aproxima do Destróier Imperial Vector para pedir socorro e acaba descobrindo que é de lá que vêm a verdadeira ameaça.

Aliás, tudo o que acontece no livro até o vírus zumbi contaminar a Purgação é narrativa de horror da melhor qualidade. O passo é, porém, extremamente rápido, pois o livro é razoavelmente curto, com pouco mais de 300 páginas. Depois de estabelecidos os personagens principais, a infestação acontece quase que imediatamente e, infelizmente, como mencionei no início, a qualidade cai tremendamente. Quando a Purgação doca na Vector, permitindo que nossos heróis (e vilão) entrem no Destróier, a história de Schreiber se perde quase que completamente, deixando de focar nos personagens para trabalhar a ação e as laboriosas descrições das monstruosidades esfomeadas que tomam conta da gigantesca nave do Império. Se, por um lado, é fascinante ler as descrições de um Destróier Imperial completamente vazio, a necessidade de transformar um bom terror em uma trasheira empilhadora de pedaços de corpos inertes e zumbis fardados de Stormtroopers e oficiais do império toma de assalto a história e dilui todo seu poder. Sem dúvida que a sanguinolência era necessária, mas o problema é que o autor quase que completamente esquece o que ele mesmo construiu antes e parte para quase que contar uma outra história. Mal comparando, é como assistir Um Drink no Inferno, mas o filme de Robert Rodriguez consegue ser bem mais eficiente que Schreiber.

CINTURÃO DE SPOILERS

Outro problema do livro é a inclusão de dois personagens famosos da franquia Star Wars: Han Solo e Chewbacca. Eles aparecem depois que os personagens inéditos já estão estabelecidos e mais para o final da infestação da nave-prisão, já que eles são prisioneiros da solitária e são libertados por Cody. O grande problema de sua presença na história é que eles são quem são. Nós sabemos que eles sobreviverão. Nós sabemos que nada que acontecer na Purgação ou Vector os afetará de alguma forma.

Além disso, mas também por serem quem são, todo o foco nos Longo, Cody e Sartoris é alterado para a dupla de contrabandistas ainda antes deles ajudarem a Rebelião a destruir a Estrela da Morte. Todas as páginas empregadas por Schreiber para trabalhar seus personagens são quase que jogadas no lixo para que os dois queridos heróis passem a ganhar os holofotes. E a pergunta que me veio à cabeça foi um simples: “para que?”.

Claro que é retórica, pois Han Solo e Chewbacca vendem livros (e qualquer outra coisa). Os nomes familiares atraem potenciais leitores, especialmente considerando a proposta arriscada de “zumbificar” o universo Star Wars. No entanto, teria sido mais honesto focar nos dois logo de início, sem introduzir Trig Longo como um dos principais personagens. Do jeito que ficou, soou como uma tentativa barata de surpreender o leitor e de ganhar mais alguns trocados sem qualquer função narrativa específica.

Assim, toda a ação no Vector é, basicamente, Han Solo e Chewbacca lidando com os problemas, transformando todos os demais em seus coadjuvantes. Uma pena.

FIM DO CINTURÃO DE SPOILERS

Troopers da Morte é uma ótima ideia embalada para presente para os fãs de zumbis e de Star Wars. Mas a execução simplista de Schreiber deixa muito a desejar quando ele parte para a ação, transformando um belo e desejado presente em um daqueles “pares de meia” que volta e meia ganhamos de parentes que não sabem o que comprar. Oportunidade desperdiçada.

Star Wars: Troopers da Morte (Star Wars: Death Troopers, EUA – 2009)
Autor: Joe Schreiber
Tradução: Caio Pereira
Editora original: Del Rey
Data original de publicação: 13 de outubro de 2009
Editora no Brasil: Editora Aleph
Data de publicação no Brasil: 2015
Páginas: 328

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.