Crítica | Star Wars: Uma Nova Esperança (Dramatização Radiofônica)

estrelas 5,0

Star Wars foi um sucesso imediato e tornou-se presença marcante na cultura pop de todo mundo, sendo adaptada para praticamente todas as mídias. Mas o primeiro filme foi lançado em 1977 quando as dramatizações radiofônicas já vinham perdendo a força e imaginar a adaptação da franquia para um programa de rádio já era algo improvável. Não falo aqui de um audiodrama, algo comum até hoje em dia, mas sim de um clássico programa de rádio, transmitido por ondas hertzianas em capítulos, como era padrão nas décadas de 30 e seguintes com propriedades importantes tal qual, por exemplo, Superman.

No entanto, Richard Toscan, diretor-associado da Universidade da Califórnia, era um entusiasta da mídia e, juntamente com John Houseman, responsável pela produção da famosa adaptação radiofônica de A Guerra dos Mundos com Orson Welles, começou a mover uma engrenagem que levaria o primeiro filme da franquia ao ar em 9 de março de 1981, com produção da KUSC-FM, rádio do campus da universidade, juntamente com a National Public Radio e com a BBC. George Lucas, que havia estudado na mesma universidade, licenciou todos os direitos à KUSC-FM pelo valor simbólico de um dólar (por filme), direitos esses que incluíram o uso da trilha sonora de John Williams e dos efeitos sonoros dos filmes. Do elenco original, a produção conseguiu contratar Mark Hamill (Luke Skywalker) e Anthony Daniels (C3-P0) apenas.

O resultado desse esforço conjunto é absolutamente impressionante e uma joia para qualquer fã de Star Wars. Brian Daley, responsável pelo roteiro, teve acesso não só ao roteiro efetivamente usado no filme, como também, às versões anteriores, o que lhe permitiu expandir enormemente a narrativa. Não só ouvimos as quase míticas sequências de Luke com Fixer e, depois, de Luke com Biggs ainda em Tatooine, mas também versões ampliadas destas mesmas cenas, dando estofo e um passado a Luke.

Mas o mesmo acontece com os demais personagens principais, com criações 100% de Daley. A primeira vez que ouvimos Leia, por exemplo, não é em sua nave Tantive IV gravando uma mensagem para Obi-Wan Kenobi, mas sim ainda no planeta Toprawa., sendo cortejada de forma grosseira por um oficial do império, Lord Tian. Lá, descobrimos como os planos da Estrela da Morte chegam a ela e há uma sequência passada em Alderaan, em que ela conversa com seu pai e o convence a parar de resistir ao Império e começar a lutar contra o Império, amplificando a tragédia que é a destruição de seu planeta mais para a frente.

Com isso, a adaptação não só obedece a estrutura que a mídia radiofônica exige, como – e mais importante – realmente acrescenta elementos novos e interessantíssimos à história, por vezes nos dando justificativas para diversas ações que viriam adiante. Luke e Leia, claro, são os personagens que mais ganham desenvolvimento, o primeiro com uma abordagem da amizade dele com Biggs e a segunda com seu pai e com Lord Tian (que quer casar com ela) em seu planeta natal, com a confirmação, durante um jantar, sobre a existência de uma estação espacial mortal sendo construída pelo Império, com poder suficiente para destruir planetas inteiros. Da mesma forma, vemos a ligação direta entre Leia e o General Kenobi, já que seu pai a envia para alistar Obi-Wan para a luta contra o Império.

O trabalho de vozes do elenco é exemplar. Cada ator e atriz está realmente investido em seus personagens e mesmo os fãs mais fanáticos da franquia não sentirão falta das vozes originais. Enquanto Mark Hamill e Anthony Daniels reprisam seus papeis com grande qualidade e energia, Ann Sachs faz uma Princesa Leia que não deixa nada a desejar à versão de Carrie Fisher. Perry King – que havia feito audição para viver Han Solo no filme – faz o contrabandista de sua própria e eficiente maneira que, ainda que não consiga alcançar a qualidade malandra de Harrison Ford. Talvez a voz que mais cause estranheza seja a de Brock Peters como Darh Vader, mas muito mais pelo modulador que é utilizado do que pela voz em si. Mas o que se ouve na dramatização é uma dedicação que impressiona e dá gosto, tornando a audição fácil e agradável ao ponto de entristecer o ouvinte quando acaba.

E ela demora a acabar. O filme original tem 121 minutos, mas a dramatização, com todos os seus enxertos, chega a quase seis horas. Mas esse tempo é muito bem aproveitado e passam voando, ainda que a melhor forma de ouvir a performance seja obedecendo a estrutura de 13 capítulos, exatamente como ela foi ao ar originalmente, já que cada capítulo é substancialmente auto-contido, o que mais uma vez demonstra a qualidade do trabalho de Daley no roteiro.

O uso da música original de John Williams e dos efeitos sonoros de Ben Burtt dão o toque final à produção, emprestando-lhe legitimidade e um caráter de superprodução. Estão presentes todos os leit motifs dos personagens e cada som de blaster, sabre de luz e respiração de Vader, além das naves e explosões. Realmente parece que estamos escutando o filme em diversos momentos, ainda que, claro, haja uma carga maior nos diálogos em razão das restrições da mídia.

A dramatização radiofônica é, simplesmente, a melhor forma de se “ver” Star Wars depois do próprio filme. Nenhum fã que entenda fluentemente o inglês pode se dar ao luxo de perder essa obra-prima. E, aos que não falam inglês, vale o esforço de aprender só para ouvir essa pérola.

Star Wars: Uma Nova Esperança (Star Wars: A New Hope, EUA – 1981)
Direção:
John Madden
Roteiro:  Brian Daley (baseado em obra de George Lucas)
Elenco: Mark Hamill, Anthony Daniels, Ann Sachs, Perry King, Bernard Behrens, Brock Peters, Keene Curtis, John Considine, Stephen Elliott, David Ackroyd, Adam Arkin, Kale Browne, David Clennon, Anne Gerety, Thomas Hill, David Paymer, Ken Hiller
Duração: 5h57′ (13 partes)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.