Crítica | Stargate – A Chave para o Futuro da Humanidade

estrelas 2,5

Todo cinéfilo tem um “prazer culpado” (o guilty pleasure). No meu caso, tenho pelo menos umas duas dúzias e Stargate, o filme de 1994 e todos os seus derivados são alguns deles. Afinal de contas, esse filme foi extensamente explorado pela MGM na televisão, com o desenvolvimento e lançamento, a partir de 1997, da mais longa série de ficção científica até hoje, Stargate SG-1, com 10 temporadas (e dois filmes para televisão), além de Stargate: Atlantis, com cinco temporadas e, finalmente, a ótima, mas esquecida Stargate: Universe, com apenas duas temporadas (isso sem contar com um desenho animado).

E é interessante toda essa proliferação, pois, apesar de não ter sido um fracasso, Stargate, o filme original, também não foi um estrondoso sucesso. Mas é inegável que o mistério da premissa, desenvolvida depois para roteiro por Dean Devlin e por Roland Emmerich, é intrigante. Afinal, a história tenta dar azo às teorias da conspiração que rezam que as pirâmides do Egito e outras magníficas obras dessa natureza, foram obras de extraterrestres, como bem defende Erich Von Däniken em suas divertidas obras pseudo-fáticas.

Partindo da descoberta, em 1928, no platô de Giza, de um enorme anel cheio de hieróglifos misteriosos, o filme nos catapulta para os dias de hoje, quando Daniel Jackson (James Spader), um linguista desacreditado com teorias extravagantes sobre os egípcios, é recrutado por Catherine Langford (Viveca Lindfors) para desvendar o mistério. Não demora muito e o projeto é colocado sobre a tutela militar do depressivo coronel aposentado Jonathan ‘Jack’ O’Neil (Kurt Russell), que recentemente perdera o filho. Mesmo assim, Jackson deduz que os símbolos ao redor do anel de metal são constelações e que se trata de um porta estelar, um gerador de “buraco de minhoca” permitindo o transporte entre a Terra e um distante planeta governado por faraós extraterrestres.

Apesar de cair sob o conceito de super-produção e de exagerar em efeitos especiais, Stargate estranhamente é espartano nos cenários. Quando a equipe comandada por Jack O’Neil chega ao planeta misterioso, o que vemos é só areia e mais areia, lembrando-nos fortemente de Star Wars: Episódio IV. Mas a imaginação da equipe criativa prende a atenção do espectador ao usar todo nosso fascínio pelo Egito Antigo e transpô-lo para as telas, com capacetes no formato de deuses da mitologia egípcia, pirâmides que, na verdade, são naves espaciais e um vilão andrógino repugnante que é ninguém menos do que Ra (Jaye Davidson, que viria a fazer o surpreendente Traídos pelo Desejo, em 1992).

Mas entre uma batalha e outra, com raios que nada atingem e um escasso número de naves, denotando que o dinheiro do orçamento (55 milhões na época) deve ter sido usado nos figurinos e nos salários de Russell e Spader, a trama é vazia e até mesmo boba. Nunca deixa de ser interessante, só que o interessante vai se esvaindo na repetição e diluição de conceitos e, bem no estilo Emmerich de ser (Independence Day, O Dia Depois do Amanhã, 2012, Godzilla), muito mais voltado para o espetáculo do que para a substância. Ele recorre a muitas tomadas que tentam impressionar, como planos abertos de paisagens desérticas ou do vilarejo dos habitantes da região, com muito uso de extras, mas sem que as imagens realmente causem o efeito desejado. É uma espécie de abordagem burocrática do espetáculo, quase um treinamento do que ele viria a fazer de maneira mais eficiente em alguns de seus filmes-catástrofe posteriores.

O que realmente segura a fita é a canastrice de Kurt Russell em eterno conflito com a “boa-mocice” de James Spader (antes de seus papeis mais cínicos, claro). A cara amarrada de um se choca com a cara de bobo do outro e o resultado é divertido, gerando uma química perfeita que é suficiente para tornar curiosa a jornada pelo universo para descobrir que os deuses eram mesmo astronautas.

Dentre todos os meus prazeres-culpados, esse é um dos que sinto menos culpa, mas logo lembro que minha obsessão me fez passar por todas as 17 temporadas das séries derivadas e os dois filmes para TV, além da série tenebrosa em desenho animado que não tem absolutamente nenhuma ligação com nada. Foi uma epopeia divertida que, se não me segurarem, percorro novamente…

Stargate – A Chave para o Futuro da Humanidade (Stargate, EUA – 1994)
Direção: Roland Emmerich
Roteiro: Dean Devlin, Roland Emmerich
Elenco: Kurt Russell, James Spader, Jaye Davidson, Viveca Lindfors, Alexis Cruz, Mili Avital, Leon Rippy, John Diehl, Carlos Lauchu, Djimon Hounsou
Duração: 121 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.