Crítica | Steamboat Willie

Mickey Mouse é um personagem indubitavelmente icônico, uma das “personalidades” mais famosas do mundo. Uma figura que, diferentemente de qualquer outra humana, é imortal, visto que trata-se de um trabalho de animação feito pelos estúdios Disney, e, portanto, continua presente em nossos cotidianos décadas depois da morte de seus criadores, Ub Iwerks e Walt Disney. Provavelmente, a situação se manterá assim pelas gerações que vierem. Mickey Mouse, porém, é, acima de tudo, o pontapé de sucesso de uma empresa, que imortalizou não apenas um camundongo falante para a eternidade, mas centenas de outras criaturas e histórias que hoje são tratadas como clássicos indiscutíveis. Todos os apetrechos contextuais envolvidos com a origem dessa animação, Steamboat Willie, sugerem uma mente visionária para ambos animadores. A começar, essa não é a primeira animação feita com o Mickey Mouse. O personagem já havia sido apresentado a um público limitado em curtas posteriormente lançados sob o selo Mickey Mouse Series como Plane Crazy.  Contudo, se há alguma obra animada ainda mais importante do que Branca de Neve e os Sete Anões, essa obra definitivamente é Steamboat Willie.

Uma pergunta pode ter surgido nas cabeças dos leitores deste texto: Por que Steamboat Willie fora lançado antes desses demais curtas-metragens estrelando o mesmo personagem, os quais já haviam sido exibidos para um público consideravelmente limitado anteriormente? Numa época no qual o cinema via o “surgimento” definitivo do som com O Cantor de Jazz, de Alan Crosland, Walt Disney não esperou tempo para revolucionar o gênero da animação e trabalhou ferozmente nesse curta, junto com Ub Iwerks, com o intuito de sincronizar perfeitamente o som com o filme. Os dois filmes prévios, Plane CrazyThe Gallopin’ Gaucho, outro curta exibido anteriormente em sessões-teste, eram mudos. Disney não queria começar uma nova fase de sua vida a base do que estaria prestes a se tornar ultrapassado. Dedicando tempo integral para a confecção de Steamboat, ambos podem não ter sido os pioneiros dessa técnica, nem mesmo em animações, mas a dupla tornou a animação um sucesso tão enorme, que a série de curtas do Mickey Mouse colocou os estúdios Disney no posto que sempre deveriam ter estado.

Assistindo a animação, distribuída para o grande público em novembro de 1928, é impossível não se deliciar com o resultado da técnica empregada nessa obra. A premissa, bastante simples e sem muitas firulas, é ainda assim encantadora. O filme abre com o assovio Steamboat Bill, em uma cena clássica na qual Mickey Mouse estampa as telas pilotando o barco a vapor, supostamente sendo seu capitão. Engano nosso, Mickey é um mero trabalhador a bordo da embarcação, sendo João Bafo-de-Onça (nome português dado para Pete), o verdadeiro – e rude – comandante do barco. Aliás, o título da animação é uma brincadeira com o título do filme de Buster Keaton, Steamboat Bill, Jr. Em si, a animação é arranjada pelo estilo clássico da Era de Ouro das Animações, tratando de nos fazer mergulhar dentro de um mundo sem aparentes regras. No meio de todo o preto e branco, objetos inanimados atuam como se estivessem vivos, como no momento no qual a embarcação faz uma parada no porto local extremamente surreal, ou ainda, na transformação do rabo de uma cabra em uma manivela, por Minnie Mouse, personagem que também “estreia” aqui, todavia, como coadjuvante. Ainda mais mágica do que toda essa imprevisibilidade, a qual abre espaço para a criatividade do animador não ter de se ater às regras mundanas, a sequência musical de Turkey in the Straw é dinâmica, como os cartoons costumavam ser. Nada está parado, visto que em todo momento algum personagem está dançando ou se movimentando repetidamente, criando uma aura de vivacidade tremenda. Por oito minutos somos transportados para um mundo atemporal, no qual os dentes de uma vaca são usados como instrumentos musicais para Mickey, e o humor “incoerente” sustenta perfeitamente nossa atenção.

Por falar em humor, podemos muito ver da personalidade “otimista” de Mickey Mouse sendo traçada nesse curta, quando, ao final de tudo, o nosso herói, mesmo tendo sido pego por um Bafo-de-Onça introvertido, ainda consegue extrair uma gargalhada (trabalho de voz de Walt Disney, o qual continuaria sendo o dublador oficial do camundongo por muito tempo). Por outro lado, tem várias peças de comédia aqui que provavelmente não encontrariam muito espaço se fossem produzidas atualmente, o que não é algo negativo, mas sinônimo de um próprio tempo que valoriza os bons tratos aos animais como nunca antes. Isso não desmerece o filme, muito pelo contrário. O que Walt Disney e Ub Iwerks fizeram aqui é impossível de ser rebaixado a um outro nível. Retomando a questão das peripécias contextuais envoltas dessa produção, ambos resistiram ao baque que foi a perda de Oswald, o Coelho para a Universal Pictures, dona dos direitos do personagem até pouco tempo atrás, mas não a verdadeira criadora dele, além da contratação por parte da Universal de uma gigantesca parcela da equipe de animadores da Disney. Sorte do destino, Mickey seria incontáveis vezes mais popular do que Disney e Iwerks sonharam que Oswald um dia seria. Steamboat Willie é, enfim, o verdadeiro precursor de uma Disney que aprendemos a amar. De uma Disney construída também por patos rabugentos, patetas atrapalhados, bonecos de madeira que queriam ser meninos de verdade, elefantes voadores, contos de fadas, leões destinados a ser rei, e até por garotinhas que adentraram países e terras, das maravilhas e do nunca. Caso precisemos falar de onde surgiu todo esse encanto que um mundo encontrou em filmes animados, a resposta correta não poderia ser outra senão a breve história de um camundongo antropomórfico, desastrado, às vezes até abusado, mas sempre carismático, dentro de um barco a vapor. Mesmo tendo existido antes um coelho, a realidade, de fato, é que tudo começou com um mero rato.

Steamboat Willie – EUA, 1928
Direção: Walt Disney, Ub Iwerks
Roteiro: Walt Disney, Ub Iwerks
Elenco: Walt Disney
Duração: 7 min. e 42 seg.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.