Crítica | Steel – O Homem De Aço

Shaquille O’Neal, como ator, é um ótimo jogador de basquete. Kenneth Johnson, como diretor e roteirista de cinema, é um eclético profissional especializado em TV. Aço (ou Steel, no original) como super-herói, é um ótimo personagem C, candidato a Superman, da DC Comics. No entanto, de alguma forma milagrosa, Steel – O Homem de Aço resulta não em um grande filme, mas em uma aventura decididamente simpática e gostosa de se assistir.

Estreando em As Aventuras do Superman #500, em junho de 1993, Aço/Steel foi um dos “substitutos” do Homem de Aço quando ele morreu pelas mãos de Apocalypse. Inspirado na figura folclórica de base histórica, o afro-americano marretador de rebites John Henry, Aço ganhou diversos níveis de destaque desde sua criação, inclusive uma série solo própria razoavelmente longeva, de 1994 a 1998. Apesar do filme distanciar-se da conexão com a mitologia do Superman, uma decisão que, de uma maneira ou outra, descomplicou sua origem no filme (o que considero uma boa escolha), há menções ao herói máximo dos quadrinhos na tatuagem que John Henry Irons (Shaq) tem no braço e em uma música que ouvimos durante a projeção.

No filme, o personagem é um soldado e engenheiro de armas do exército americano que desenvolve tecnologia não letal juntamente com sua amiga e também soldado Susan “Sparky” Sparks (Annabeth Gish, que raramente desaponta em seus papeis e aqui não é uma exceção). Em uma demonstração para uma senadora, o ambicioso e irresponsável soldado Nathaniel Burke (Judd Nelson) atira com uma arma em uma gradação não antes testada, resultando na morte da política e na paralisia da cintura abaixo de Sparky. Depois de Burke ser expulso do exército, o próprio Irons desiste de sua carreira militar e volta para a casa de sua simpática avó Odessa (Irma P. Hall), até ter que voltar à ação para tirar  das ruas armas baseadas na tecnologia que criou, cortesia de um Burke não só vingativo como quase obssessivo em tornar-se um rei do crime.

Para isso, ele arregimenta Sparky, retirando-a do hospital em que está internada e depressiva e seu tio Joe (Richard Roundtree, o John Shaft clássico da TV), dono de um ferro-velho e escultor de obras feitas com ferro e aço, para criar uma armadura invulnerável e um martelo (símbolo do John Henry do folclore e também a arma que o personagem dos quadrinhos mais classicamente usa) de mil e uma utilidades. Paramentado como um Homem de Ferro não tecnológico versão 0.5, Irons sai chutando bundas no melhor estilo de filme B dos anos 90, com a ajuda de Sparky, que funciona como a Oráculo dos quadrinhos, com um surpreendentemente vasto – e crível – arsenal tecnológico nessa era em que a internet como a conhecemos ainda engatinhava.

Se Shaq tem extremas limitações dramáticas, elas são mais do que compensadas por seu bom-mocismo irresistível que, claro, transforma seu personagem em uma caricatura super-heroística mais rasa do que o proverbial pires, com um arco de crescimento absolutamente inexistente. O mesmo pode ser dito de Roundtree, que traz sua verve urbana para o filme sem se preocupar muito em ser algo além do que o personagem escalado para permitir uma boa brincadeira com o nome de seu único personagem famoso, em uma das várias tiradas metalinguísticas do roteiro (as que mais se repetem, obviamente, são as relacionadas com basquete). O único destaque dramático fica mesmo com Gish que, porém, só pode mesmo ser chamada de destaque na comparação com os demais atores que a cerca, aí incluído Judd Nelson que ainda não se livrou de seu John Bender, de Clube dos Cinco.

A história demora a decolar mais do que devia e, com isso, o filme dura mais tempo do que precisava, com momentos de ação protraídos demais, o que leva à repetições constantes, torna mais óbvias ainda as limitações da desconjuntada armadura de Steel e denuncia o baixo orçamento que restringe os efeitos práticos, ainda que eles estejam acima da média para uma obra pequena como esta. Um roteiro mais econômico poderia ter evitado alguns momentos constrangedores que volta e meia pipocam na tela.

Na direção, Johnson realmente parece estar dirigindo um telefilme, cismando em trabalhar com câmera parada o tempo todo e em fazer uso de establishing shots para nos dizer onde a ação que veremos a seguir se passa. São cacoetes claros de sua carreira televisiva, mas que também resultam da limitação orçamentária, ainda que ele pudesse ter sido mais criativo em sua decupagem exatamente em razão dela.

Mas a grande verdade é que Steel – O Homem de Aço, mesmo com seus vastos problemas, talvez seja melhor do que muitos se lembram. No mínimo, ele é um filme descompromissado que divertirá com sua ternura e abordagem que quase ultrapassa o limite do aceitavelmente brega. Shaq pode não ser um grande ator, mas ele coloca seu coração em seu invulnerável personagem de aço e nós caímos na armadilha.

Steel – O Homem de Aço (Steel, EUA – 1997)
Direção: Kenneth Johnson
Roteiro: Kenneth Johnson (baseado em criação de Louise Simonson e Jon Bogdanove)
Elenco: Shaquille O’Neal, Annabeth Gish, Judd Nelson, Richard Roundtree, Irma P. Hall, Ray J, Harvey Silver, Charles Napier, Kerrie Keane, Eric Pierpoint, Tembi Locke, Thom Barry, Gary Graham
Duração: 97 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.