Crítica | Steve Jobs

STEVE JOBS_FILME

estrelas 4

Mas de novo? Essa é a reação quase que unânime diante deste Steve Jobs, novo filme sobre a vida do icônico fundador da Apple, falecido em vítima do câncer em 2011. Depois de uma biografia mediana com Ashton Kutcher e diversos documentários obcecados em reformular a imagem de Jobs (que de gênio de informática não tinha muito, um fato absoluto), chega a vez do roteirista Aaron Sorkin dar sua versão em um biopic diferente de qualquer outro longa do gênero.

Desinteressado em contar a história de Jobs (vivido aqui por Michael Fassbender) do início ao fim, Sorkin aposta em uma estrutura que se espelha mais no teatro do que no cinema: são três atos diferentes, cada um centrado nos bastidores do lançamento de algum produto. No caso, o Macintosh em 1984, o NEXT em 1988 e o iMac em 1998.

Essa decisão ousada transforma Steve Jobs em uma experiência verborrágica e diferente, já que uma grande quantidade de informações e exposição sobre fatos passados será constantemente debatida. Mesmo que tenhamos alguns flashbacks ocasionais (incluindo uma cena na garagem real de Jobs) para traçar bons paralelos com o presente, tudo é explicado verbalmente. Desde o funcionamento dos produtos até a gerência de Jobs na Apple e, principalmente, sua conturbada relação com Chrisann Brennan (Katherine Waterston) e sua filha Lisa, a qual ele recusa insistentemente a paternidade.

Normalmente, tanta exposição é um pesadelo cinematográfico. Felizmente, Aaron Sorkin é o melhor roteirista trabalhando em Hollywood no momento. Saído dos roteiros magníficos de A Rede Social e O Homem que Mudou o Jogo (que assinou ao lado de outro monstro, Steven Zaillian), Sorkin é simplesmente um mestre na arte de diálogos. Na escolha de palavras, analogias e tiradas cômicas, tudo funciona como uma sinfonia verborrágica da melhor qualidade, e a arrogância de Jobs é perfeita para que o roteirista traga discussões onde ouvimos frases como “Não está funcionando? Você teve três semanas para consertar isso. O Universo foi construído em um 1/3 desse tempo” ou “Deus mandou seu filho único em uma missão suicida, e todos gostamos dele porque nos deu árvores”. É uma prosa tão detalhada e repleta de nuances que até a melhor das legendas em português terá dificuldades em capturar e adaptar todas elas apropriadamente.

A questão da paternidade talvez seja o elemento mais fundamental da trama. A pequena Lisa (vivida por Makenzie Ross, Ripley Sobo e a brasileira Perla Haney-Jardine em diferentes períodos) tem participações pontuais em todos os três atos, muitas vezes escondida atrás de portas ou mobílias. É uma rejeição gigantesca e uma relação peculiar a de Jobs com a suposta filha, mas é fascinante ver como a relação dos dois vai se transformando consideravelmente, até porque Sorkin confere diálogos espirituosos até mesmo às jovens atrizes. É só no ato final, porém, que a maior catarse emocional atinge como um trem-bala à toda velocidade. “Fui mal construído”, desabafa Jobs.

É um roteiro perfeito, do tipo que merece ser estudado minuciosamente por estudantes da área. Por isso, o que impede Steve Jobs de se tornar um novo clássico americano é a incompatibilidade do texto com a direção de Danny Boyle. Dono de um estilo visual marcante e agressivo, é até aliviante vê-lo muito mais contido do que costuma ser (basta lembrar-nos da fúria visual em Quem quer ser um Milionário? ou o surtado Em Transe), adotando uma câmera leve e que acompanha os incontroláveis personagens em travellings constantes, até chegando a manter a câmera fixa durante alguns diálogos – o que é ótimo. Porém, Boyle aposta em alguns maneirismos visuais que acabam por roubar a atenção e tornar-se algo mais caótico; vide a cena em que Jobs usa a história do lançamento do foguete Skylab como alegoria, e vemos imagens de arquivo do mesmo magicamente na parede às suas costas ou até mesmo a quantidade de planos holandeses sem a menor função narrativa.

A ferocidade de uma discussão entre Jobs e John Sculley (Jeff Daniels) acaba confusa no contra-fogo de uma montagem paralela muito mal posicionada, onde o embate verbal dos dois é entrecortado com flashbacks – com mais diálogos – do dia fatídico que levou à inimizade dos dois. Mesmo que ambos os atores estejam fantásticos, a condução de Boyle é desastrosa, quase sacrificando a compreensão dos eventos diante dessa gritante falta de foco, também afetada pelo excesso de trilha sonora no momento (ainda que seja do fantástico Daniel Pemberton). É uma simples questão de dosagem.

A fotografia de Alwin H. Küchler, no entanto, se mostra uma ideia mais certeira. Com a divisão de três períodos temporais, Küchler aposta no uso de formatos diferentes para cada porção da história: o Macintosh é rodado em película 16mm, o NEXT em 35mm e o iMac enfim alcança a cinematografia digital (mesmo que seja uma decisão factualmente imprecisa, já que a técnica digital só seria bem aprimorada em 2002). Logo na primeira cena o impacto é forte, já que o grão forte dos 16mm nos revela a “sujeira” e caos por trás do lançamento de uma empresa tão notória por design e a estética clean.

Da mesma forma, o aspecto teatral de Sorkin evoca uma grandiloquência que acaba refletida no design de produção, situado todo em bastidores, palcos, salões de orquestra e camarins, o que reforça a ideia de todos ali serem artistas e até atores (até vemos Jobs retocando maquiagem em certo momento). É quase como olhar pelo ponto de vista do próprio Jobs, já que dificilmente uma platéia ficaria tão extasiante a ponto de fazer o tremer o chão com um simples anúncio tecnológico.

O que nos leva ao elenco, que certamente sofreu nas sessões de ensaio para decorar e interpretar toda a metralhadora verborrágica de Sorkin. A começar pelo sensacional Michael Fassbender, cujo Jobs está em praticamente em todas as cenas do longa, fazendo com que o ator carregue tudo nas costas. Uma tarefa que Fassbender realiza excepcionalmente, conseguindo capturar o sentimento de superioridade e quase como se suas realizações fossem dignas do Monte Olímpio, como observamos em seu trabalho vocal que oscila magicamente entre pedante e ameaçador ou os gestos no qual parece saudar a todos sua presença; em um momento, até simula a pose de um maestro, tema de um dos diálogos mais memoráveis.

Coadjuvante no melhor sentido da palavra, Kate Winslet da vida a Joanna Hoffman, a diretora de marketing da Apple. E como Jobs era um aficionado em design, não é de se imaginar que a incansável assistente vá de ajustar propriedades na exibição de um projetor até uma cruzada de última hora atrás de uma camisa que atenda às exigências de Jobs. Winslet se sai muito bem, por também revelar um apego emocional quase que maternal diante de seu chefe, sendo a bússola moral que aponta para o conserto da situação Lisa. Sem falar que a atriz adota um discretíssimo sotaque polonês.

Por fim, temos Seth Rogen, Jeff Daniels e Michael Stuhlbarg em bons papéis menores. O comediante famoso pelas comédias stoner se sai incrivelmente bem na pele de Steve Wozniack, amigo íntimo de Jobs e o verdadeiro cérebro por trás da criação do Apple II. Não só o senso de humor está presente de forma bem contida, mas a performance de Rogen deixa bem claro que o sujeito parece borbulhar por dentro, mas não o faz em consideração a seu amigo. “Estou cansado de ser o Ringo, quando claramente sou o John”, confronta Woz, em uma divertida analogia aos Beatles.

Daniels traz mais intensidade à mesa, na pele de John Sculley, especialmente em uma calorosa discussão com seu antigo colega. É revelador analisar também como Sculley claramente se arrepende do “término” dos dois, mostrando que ali residia uma boa amizade. Por fim, Stuhlbarg revela uma importância inesperada de seu engenheiro Andy (qual deles? Hertzfeld) no último ato, enfim justificando sua quase-onipresência ao longo da projeção.

Steve Jobs é um ótimo filme, e traz um dos roteiros mais refinados que o cinema americano já viu nos últimos anos. Por esse motivo, é um tanto frustrante que a odisseia de Aaron Sorkin chegue tão perto de tocar o céu, ficando perto de tornar-se uma obra-prima.

Afogo-me em lágrimas ao imaginar como seria a realidade alternativa utópica em que David Fincher imaginou ao assumir, em determinado ponto, a direção do projeto.

Steve Jobs (Steve Jobs, EUA – 2015)

Direção: Danny Boyle
Roteiro: Aaron Sorkin
Elenco: Michael Fassbender, Kate Winslet, Jeff Daniels, Seth Rogen, Katherine Waterston, Michael Stuhlbarg, Sarah Snook, John Ortiz, Perla Haney-Jardine.
Duração: 118 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.