Crítica | Steve Jobs (Trilha Sonora Original)

estrelas 4

Todos aqui devem recordar do meu maravilhamento sem precendentes com o trabalho de Daniel Pemberton na trilha sonora de O Agente da U.N.C.L.E., um dos mais originais trabalhos do gênero que ouvira nos últimos anos. Tendo essa descoberta incrível, foi com grande interesse que segui o nome do ascendente jovem inglês, e para a alegria de todos, ele foi contratado para se unir a Danny Boyle e Aaron Sorkin em um dos projetos mais aguardados do ano passado: Steve Jobs.

É um projeto que requeria algo radicalmente para Pemberton. Se a comédia de espionagem de Guy Ritchie o fez buscar inspiração no estilo de Ennio Morricone para criar algo novo e fresco, a nova biografia do fundador da Apple o faria recorrer ao território de Trent Reznor e Atticus Ross; que definiram um tom revolucionário para histórias de “gênios da computação” com A Rede Social (curiosamente, outro longa roteirizado por Sorkin). Portanto, Reznor é a principal inspiração de Pemberton, mas não a única.

A divisão do longa em três atos distintos não é refletida apenas no impecável trabalho de direção de fotografia de Alwin H. Küchler, mas também na trilha. Cada ato ganha um estilo completamente de trilha. Nas palavras de Pemberton, a divisão ocorre em: Analógico, Orquestral e Digital. Tudo isso condiz com o roteiro do longa, especialmente quando Jobs se entitula como o “maestro” de uma grande orquestra sinfônica.

It’s Not Working é a primeira peça musical que ouvimos no início da projeção. Uma composição eletrônica que lembra bastante a crescente tensão do tema principal de Tubarão, já estabelecendo um clima de pavor e inconstância nos segundos iniciais, quando Jobs e seus analistas lutam para consertar uma falha de seu produto prestes a ser anunciado. De maneira similar, Jack it Up traz uma batida eletrônica constante (esta, bem inspirada no estilo de Trent Reznor), mas com um pedaço de orquestra bem sutil ao fundo, com instrumentos de sopro que ajudam a manter um ritmo de sofisticação; quase como o embate de funcionalidade e estilo, uma decisão certeira para a cena em questão, na qual Jobs e Steve Wozniack discutem sobre a função de um dos sistemas preliminares.

Além da tensão, as composições eletrônicas são igualmente capazes de provocar alegria e empolgação. O primeiro exemplo é Change the World, exibida momentos antes de Steve e sua equipe lançarem o Macintosh. Como a cena é ambientada em 1984, a faixa traz fortes influências do Vangelis de Blade Runner (apropriado, sendo que o diálogo em questão menciona Ridley Scott e o clássico comercial que este dirigiu para a Apple).

A seção mais voltada para a orquestra é magnífica, e Pemberton faz questão de não deixar a influência digital de lado. Em Circus of the Machines, temos toda a grandiloquência e divindade que Steve Jobs tanto evoca durante suas caminhadas e monólogos, servindo como uma boa introdução para o ato em que apresenta o NeXT. A composição abraça instrumentos de corda elegantes e sofisticados, trazendo até mesmo um coral angelical que ajuda a nos colocar na mente do criador da Apple.

Porém, a dramaticidade revela-se danosa em certo ponto. Na fatídica cena em que Jobs tem uma feroz discussão com seu ex-CEO John Sculley, temos um triste excesso na direção de Danny Boyle. E infelizmente, a trilha de Pemberton é uma das culpadas por prejudicar uma cena tão bem escrita, já que sua The Argument é uma composição excessivamente dramática e sombria, apostando novamente em orquestra – mas com instrumentos de cordas mais pesados.

É mais um passo empolgante na carreira do cada vez mais interessante Daniel Pemberton. Mal posso esperar para ver o que fará a seguir.

Steve Jobs (Original Motion Picture Soundtrack)
Composto por:
Daniel Pemberton
Gravadora: Back Lot Music
Ano: 2015
Estilo: Trilha Sonora

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.