Crítica | Stigmata

Entre os filmes que flertavam com as inseguranças acerca da virada do milênio, Stigmata é o mais substancial. Com A Filha da Luz o público quase se assustou diante das promessas macabras para a “nova era” e no divertido Fim dos Dias, os elementos psicológicos que geralmente garantem uma boa incursão no gênero foram trocados por cenas de ação frenéticas que deixaria qualquer bobagem da franquia Velozes e Furiosos intimidada. Em Dominação, também lançado no mesmo período, a possessão tinha boas intenções, mas a narrativa não empolgou quase ninguém. Ficou para Stigmata a tarefa de ser mais interessante e ocupar o primeiro lugar neste ranking demoníaco.

Mesmo diante do equívoco geográfico abominável para a época de seu lançamento, algo que trataremos mais adiante, a trama possui uma atmosfera adequada para o tema. Com direção de Rupert Wainwright e roteiro da dupla formada por Rick Ramages e Tom Lazarus, Stigmata garante amplas reflexões ao nos apresentar a seguinte história: numa fictícia cidade do Brasil, os moradores se preparam para receber a visita do padre Kierman (Gabriel Byrne), um homem solicitado pelos poderosos do Vaticano, tendo em mira investigar uma situação inusitada.

Há relatos de uma estátua que verte lágrimas de sangue desde o dia da morte de um padre local. Enquanto o padre Kierman registra as imagens para a investigação, um garoto tipicamente brasileiro, segundo a ótica estereotipada hollywoodiana, furta um rosário que estava como adorno do velório do falecido e o vende para uma mulher que passeia pelas ruas locais, exercendo o bom e velho turismo.

Após adquirir o produto, a mulher envia a peça religiosa para a sua filha em Pittsburgh, a jovem Paige (Patricia Arquette), uma cabeleireira que sequer acredita em Deus, tampouco em qualquer manifestação de religiosidade. No entanto, após o recebimento do presente, a moça começa a desenvolver chagas similares ao que se convencionou apontar como as marcas de Cristo, isto é, as feridas nos pés e pulsos, além das marcas na cabeça.

Para investigar o problema, padre Kierman é novamente encaminhado, numa missão nada generosa, haja vista a principal dúvida que paira no ar: por que a moça apresenta os estigmas se apenas as pessoas religiosas podem ser marcadas? Experiente por conta do seu trabalho de investigação acerca dos supostos milagres ao redor do mundo, numa busca incessante se há manifestações científicas ou religiosas em cada caso, o padre que faz parte da Congregação para as causas dos Santos, divisão da Igreja Católica, se encontrará num dilema profundo.

Enquanto analisa pormenorizadamente o conflito que se estabelece, padre Kierman observa que o caso de Paige é algo nunca antes apresentado na história do catolicismo. Ele tenta resolver de todas as formas, mas o seu superior, o cardeal Daniel Houseman (Jonathan Pryce), atrapalha cada passo da pesquisa e demonstra interesse em encobrir o caso. Para aumentar a nebulosidade da atmosfera de mistérios, o padre morto no Brasil levou consigo um segredo secular. O que fazer?

Paige desfalece a cada minuto, despedindo-se do seu corpo, a dar passagem para a entidade maligna manifestada. Em transe, ela escreve algumas expressões em aramaico, num desempenho que não fica devendo nada ao assustador trabalho de maquiagem em Linda Blair, a eterna menina de O Exorcista. Ao longo de seus 109 minutos, a composição musical de Elia Amiral e Billy Corgan colabora com a “climatização” do filme, bem sucedido em diversos aspectos audiovisuais.

Dinâmico e eficiente enquanto drama e terror, a produção peca apenas na pesquisa, um fator grave para roteiristas na era da internet e da democratização de determinadas informações. Não é preciso ser professor de História ou Geografia, tampouco jornalista bem informado, para saber que no Brasil, as pessoas falam português. Há uma cena bem ligeira no filme com um diálogo de pano de fundo, realizado por pessoas que falam espanhol. Um absurdo para uma narrativa realizada em 1999. Fora este “pecado”, o filme segue contemplando bem os arquétipos do subgênero possessão e similares.

Quando o final se aproxima, padre Kierman descobre que um evangelho proibido estava em processo de tradução pelo padre brasileiro, com revelações que aparentemente trariam a ruína para a já enfraquecida Igreja Católica do novo milênio. Interpretado curiosamente por um ator que em outro filme do mesmo estilo e época (Fim dos Dias), deu vida ao diabo em carne e osso, o protagonista de Stigmata luta diante de “um mensageiro que precisa ser silenciado”, além de driblar constantemente as dúvidas inerentes ao eterno embate entre o lado científico e religioso de terminados temas da sociedade.

Stigmata — EUA, 1999
Direção: Rupert Wainwright
Roteiro: Tom Lazarus, Rick Ramage
Elenco: Patricia Arquette, Gabriel Byrne, Jonathan Pryce, Nia Long, Thomas Kopache, Rade Serbedzija, Enrico Colantoni, Dick Latessa, Portia de Rossi, Patrick Muldoon
Duração: 104 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.