Crítica | “Stone Temple Pilots (2018)” – Stone Temple Pilots

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Senhoras e senhores, que rufem os tambores: é a volta do Stone Temple Pilots! Enquanto a lendária banda se prepara para comemorar seus nada mais nada menos do que 30 anos de carreira (2019), digamos que seus membros não atravessam o momento mais…festivo de suas vidas, por assim dizer. São tempos estranhos. De verdade. Os talentosíssimos irmãos Robert DeLeo (baixo) e Dean DeLeo (guitarra) — junto ao ótimo baterista Erick Carr –, se preparam para estrear uma espécie de “terceira encarnação” da banda, coroada com a chegada de seu novo vocalista, Jeff Gutt.

  • Jeff

O estreante embarcou na banda no final de 2017, após vencer um concurso de talentos promovido pelos próprios, todo online. Ele é americano e tocava na banda de new metal Dry Cell (obrigado, Wikipedia!). Ele também já havia se tornado uma espécie de sensação da nova geração de talentos lançada pelos poderosos reality shows americanos – mais especificamente, o X-Factor.

Consta que o rapaz ficou em segundo lugar na temporada de 2013, mas que desde sua participação anterior, na segunda temporada, já bombava na Internet por causa da versão matadora que fizera de Hallelujah, de Leonardo Cohen, na ocasião. Foi aplaudido de pé e em êxtase por todos os presentes (os jurados inclusos). Jeff chega, então, com a estratosférica responsabilidade de substituir ninguém menos do que a lenda Scott Weiland, vocalista original da banda, presente desde 1989.

  • Scott

Engano: Scott não esteve presente na banda desde 89. Ninguém ali esteve. Eles já haviam se separado uma vez, em 2002, após vários anos de abusos e inconstâncias da parte do vocalista – em mais um caso clássico da interferência negativa das drogas na carreira de mentes brilhantes do rock.

A oportunidade levou os irmãos DeLeo a formar o Army of Anyone, e Scott a se juntar ao Velvet Revolver, junto ao guitarrista Slash e outros remanescentes do Guns N’ Roses. Mas em algum momento do ano 2008, após uma ligação feita por Mary, esposa de Scott na época, a banda conseguiu deixar as rusgas para trás e se unir novamente. À época, Scott chegou a declarar que ficara extremamente satisfeito com a reunião, visto que, segundo o próprio, seus colegas do STP eram os melhores instrumentistas com quem já tocara em toda sua vida. Quem é Slash na fila do pão, hein?

Mas, mesmo com todos os gracejos e entusiasmos, a coisa acabou “azedando” de novo e, após o lançamento do álbum, com a volta das turnês, voltaram também os problemas com Scott. Esses problemas culminaram em sua demissão definitiva que, por sua vez, culminou em mais m* no ventilador: até disputas legais pelo nome da banda acabaram rolando na Justiça. Os irmãos DeLeo acabaram ganhando os direitos e seguiram em frente com a banda. Alguns anos, depois, ocorreu então a “segunda encarnação” — dessa vez com Chester Bennington nos vocais.

  • Chester

Chester é o eterno vocalista da banda de new metal Linkin Park, e teve a chance de ficar no STP entre 2013 e 2015. Fizeram alguns shows e chegaram a lançar o EP Stone Temple Pilots, sob a estranha alcunha de Stone Temple Pilots with Chester Bennington. Escolha certamente contestada por boa parte da base de fãs da banda (e por aquele que vos escreve), e que, felizmente ou infelizmente, não durou muito tempo.

Por mais feliz e honrado que Chester estivesse coma oportunidade — ele mesmo já havia alegado em entrevistas anteriores que era um “sonho de menino” poder tocar com a banda – ele teve de deixá-los. Nada de diferenças pessoais ou criativas: ele simplesmente não podia ficar. Chester não podia, àquela altura, “abandonar” seus irmãos no Linkin Park, banda que ajudou a levantar, pra ficar vivendo ali o seu fetiche adolescente. A responsabilidade chama.

Chester e a banda, sadiamente, se mantiveram em bons termos e criaram amizade – amizade esta que, infelizmente, foi interrompida como falecimento do vocalista, ao cometer suicídio, em sua casa, no início de 2017.

  • O Disco

Após o luto pela perda do amigo, e dispostos a reescrever sua história novamente, o STP volta, agora, com Jeff a postos. Mais uma prova de fogo. Mais uma nova era – a terceira. A banda acaba de lançar (2018) seu álbum Stone Temple Pilots (de novo) e as expectativas e curiosidades quanto à nova sonoridade do STP não poderiam ser outras que não as maiores possíveis.

O disco começa animado, até agitado, com a tradicional “assinatura” da banda: guitarras incisivas, trabalhadas junto às tradicionais harmonias vocais do grupo. Em Middle of Nowhere, Guilty e Meadow, somos brindados com o competente rock com sabor noventista do grupo. Que saudade eles deixaram! E são músicas boas, energéticas! As comparações com Scott, obviamente, são tornam inevitáveis aqui e vêm à tona em quase todos os momentos. A voz de Jeff é, sim, bem similar. A textura, o estilo de cantar, tudo soa bem próximo de Scott, sem dúvidas.

Em Six Eight, por exemplo, é como se você conseguisse “ver” Scott novamente, repetindo as frases de And it all stays the same (“e tudo continua a mesma coisa”), com seu inseparável megafone, no refrão. Em algumas músicas, como na linda e folk Thought She’d Be Mine, a banda cede no peso. Agora eles apresentam a primeira “balada” da nova fase – o que se torna terreno propício pra Jeff mostrar a que veio. E ele mostra: se apresenta mais sozinho, com sua voz bonita e afinada — sem medo e sem precisar se apoiar nos vocais de Robert DeLeo, que são espetaculares e, claro, sempre ajudam.

No petardo Roll me Under o peso volta com tudo e a banda nos surpreende com essa que, talvez, seja uma das músicas mais pesadas de todo seu catálogo. As harmonias vocais seguem e funcionam muito bem. Lembra muito a época do disco Nº4, de 1999. De novo: como é boa a sensação de poder ouvir o rock psicodélico desses caras novamente! É como se você pudesse pegar um “túnel do tempo” diretamente para os anos 90 e a experiência se torna inesquecível.

Mas o destaque do álbum não poderia ser outro, se não a performance emocionante e espetacular de The Finest Hour (ironicamente, A Melhor Hora, em tradução livre). Logo após brilhar mais uma vez com a balada de The Art of Letting Go, cantando a plenos pulmões, Jeff agora toma uma postura mais… humilde. Já nas primeiras palavras, do primeiro verso, uma sensação estranha vem à tona, que aos poucos vai se tornando uma certeza e aí vem o susto: caramba, é Scott!

Ou seja: aqui Jeff não se empenha simplesmente em “imitar” o mestre – mas, sim, com todo cuidado e respeito, emulá-lo, incorporá-lo de vez. Ele quis – a banda quis – trazer Scott à vida novamente. Ele estava ali. Afinal, é uma música pra Scott. Pra quem mais seria? Lá, eles cantam:

“You never said goodbye
It left a void that’s like no other
I know because it’s true”

(Você nunca disse adeus / Isso deixou um vazio como nenhum outro / Eu sei, porque é verdade)

No meio:

“And now
I know the pressure you were under
Behind your eyes there lied a war”

(E agora, eu entendo a pressão que você enfrentava / Por trás dos seus olhos, havia uma guerra).

E por fim:

“I’ll hold our precious time
Up to the sky, I’ll miss you brother
I hope you know it’s true”

(Vou brindar, aos céus, nosso precioso tempo juntos/ / Eu vou sentir sua falta, irmão/ Espero que você saiba que é verdade)

A banda se desculpa. A banda se redime com o espírito de Scott. É um momento realmente emocionante. Fãs mais fervorosos certamente não vão resistir e desabarão em lágrimas, de vez.

  • De Volta à Vida

A manjada dinâmica do “altos e baixos” é um clichê bastante comum à trajetória de qualquer banda de rock (ou mesmo qualquer outro estilo, qualquer outro ser humano, enfim…). Mas se tem uma banda que foi do céu ao inferno, se tem uma banda que sorveu o sonho rock’n’roll até sua última gota, essa, meus amigos, foi o Stone Temple Pilots. Poder ter a chance de ver nossos heróis à ativa novamente, e numa época em que o rock passa por momentos tão pouco inspirados, acaba se configurando numa verdadeira honra, num verdadeiro alívio musical! Acreditem!

O Stone Temple Pilots quer viver. A marca precisa continuar viva, fazendo clipes, fazendo shows, vendendo camisas. No fim do dia, são todos pais de família, com responsabilidades a cumprir, contas a pagar, vidas a zelar. Nada mais justo do que (ao menos tentar) continuar com o império que eles mesmos ajudaram a construir.

Com o advento e popularização da Internet – e, naturalmente, com a derrocada das grandes gravadoras na virada do milênio -, os cheques dos royalties estão chegando cada vez mais magrinhos. “Direitos autorais” se tornou um conceito bem mais relativo e os shows acabaram se tornando a principal fonte de receita para artistas de todo o tipo.

Sorte nossa, porém, que o Stone Temple Pilots não precisou se render apenas às manjadas “turnês comemorativas” de seu catálogo para se manter na ativa. Felizmente, decidiram combater as dificuldades e se mantiveram criativos – apostando até o fim com Scott, arriscando sem medo com Chester e, agora, se propondo a manter o legado com Jeff. Apenas ter a oportunidade de ouvir os irmãos DeLeo novamente, com seu incomparável rock psicodélico, é uma experiência que já vale toda atenção do mundo! Por isso: sucesso a Jeff Gutt e vida longa ao Stone Temple Pilots!

Aumenta!: The Finest Hour
Diminui!: Never Enough

Stone Temple Pilots
Artista: Stone Temple Pilots
Lançamento: 16 de março de 2018
País: Estados Unidos
Gravadora: Rhino
Estilo: Rock

VELHO CHATO . . . Tiozão do role. Fé eterna no rock. 90’s kid. Alternativasso. Birra de gente. Já foi nerd antes de ser modinha. Indie raiz. A 11 daquele disco do Radiohead. Guns’n’Roses é o caralho. MTV já foi bom. Se “Clapton é Deus”, David Gilmour é o quê?