Crítica | Straight Outta Compton – A História do N.W.A.

estrelas 4

Para conseguir imergir nesse filme é preciso entender a origem do rap e o seu significado. Se não, vai parecer apenas mais uma biografia qualquer sobre um grupo que nem todo mundo conhece nos dias de hoje. O que é engraçado, pois deve ao menos ter ouvido falar em Dr. Dre e Ice Cube.

O rap como o conhecemos hoje é mais do que uma pessoa falando palavrões aleatórios apenas porque soam bem ou cantando tão rápido que você mal consegue entender a letra. Não. Esse rap, normalmente associado com o movimento hip hop dos anos 60, mas que atingiu seu ápice de conhecimento do público nos anos 80 e 90, veio do gueto afro-americano como forma de protesto contra uma série de problemas sociais, em especial o tratamento policial americano contra os negros, ganhando o nome de gangsta rap. É nisso que se baseia grande parte das músicas do N.W.A. (Niggaz Witt Attitudes) grupo da década de 80 do qual surgiram astros como os mencionados acima.

Cansados de serem vistos apenas como “mais um negro” dentre tantos e, querendo fugir da violência de Compton, na Califórnia, decidem colocar para fora toda a frustração por não poder de fato lutar contra a injustiça e despejam tudo isso em letras de canções viscerais e extremamente realistas. Entretanto, sair da cidade não quer necessariamente dizer que ela vá sair de você.

Com a ajuda de Jerry, as músicas de Eazy E, Cube, Dre e dos outros integrantes caem fácil no gosto do público o que lhes garante shows lotados por onde passam. Mas, óbvio que cantando o que eles cantavam, a polícia não ficaria satisfeita e por várias vezes são avisados para parar ou proibidos de cantar músicas famosas que se relacionam com a força policial, causando confrontos diretos. Infelizmente o sucesso veio e foi rápido para o grupo que não aguentou picuinhas internas, problemas com dinheiro e gerenciamento e acabou se separando, e, assim, o filme passa a contar com três linhas narrativas diferentes, galgando o caminho desses três amigos que decidiram revolucionar a música rap apenas cantando sobre seu cotidiano.

Straight Outta Compton não seria nada sem a trilha sonora incrível composta por 46 canções de sucesso e que certamente já foram ouvidas vez ou outra. Isso implica no surgimento de nomes famosos como Snoop Dog e Tupac, por exemplo, que trabalharam e foram descobertos pelo próprio Dr. Dre, tal qual Eminem. Vemos também a ascensão de Ice Cube ao passar para o Public Enemy, estourar como rapper, depois ator e roteirista e, assim, ambos passam a ter carreiras bem solidificadas. Porém, o agora não importa tanto quanto o durante e o filme trabalha muito bem isso, mostrando quem são na verdade essas duas figuras tão populares, mas que de certa forma conseguiram deixar o passado cair no esquecimento.

Não há floreios para nenhum dos lados e todos os personagens têm o passado sujo jogado na mesa sem qualquer problema e esse talvez seja o trunfo do filme que, por alguns momentos, pode parecer cansativo.

É mais do que um discurso motivacional de “viemos de baixo e hoje em dia somos bem sucedidos”. Não aqui. Não com essas pessoas. Eles fizeram sucesso? Sim, bastante. Mas, a custo do quê? Mortes na família. Incontáveis prisões. Ameaças de processo atrás de processo. Perda de muito dinheiro. Ter o FBI na sua cola. Será que tudo isso valia a pena pela fama? Não. Também não.

E é quando percebe-se que Straight Outta Compton é um pouco mais do que um filme biográfico. Não fala apenas de fama ou dinheiro ou sobre ter todos os carros que quiser. É sobre ser quem você é e permanecer fiel aos seus princípios. Ter uma voz quando o mundo precisa. Ainda que esse mundo tenha começado na pequena cidade de Compton. Isso é o rap.

Straight Outta Compton – A História do N.W.A (Straight Outta Compton – USA 2015)
Direção: F. Gary Gray
Roteiro: Jonathan Herman, Andrea Berlof
Elenco: O’Shea Jackson Jr., Corey Hawkins, Jason Mitchell, Neil Brown Jr.,  Aldis Hodge, Marlon Yates Jr., R. Marcos Taylor, Carra Patterson, Paul Giamatti, Elena Goode, Keith Powers, Joshua Brockington, Sheldon A. Smith, Keith Stanfield
Duração: 147 min.

MELISSA ANDRADE . . . Uma pessoa curiosa que possui incontáveis pequenos conhecimentos desde literatura a filmes a reality shows a futebol alemão e está sempre disposta a aprender muito mais. Por isso sou Jornalista por experiência e vocação. Fotógrafa Profissional com muita paixão e um olhar apurado e Roteirista frustrada e uma Crítica de Cinema em ascensão.