Crítica | Stranger Things – 1ª Temporada

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estrelas 3,5

Nostalgia é um dos tantos sentimentos que assolam com frequência o ser humano. Assim sendo, esperto é quem busca, não somente, reviver tempos passados, mas evocar tais lembranças no outro, numa espécie de simbiose que, se bem executada, acarreta satisfação para as duas partes envolvidas.

Não raro o cinema busca essa simbiose com o público. Por vezes, de modo mais original do que com um simples remake ou semelhantes, propondo-se a um roteiro original que evoque o tempo no qual se inspira. No âmbito da ficção científica, ponto de interesse desta crítica, teve-se, como exemplo recente, o longa Super 8, no qual J.J. Abrams presta uma homenagem, pelo menos, competente ao cinema de Spielberg da década de 80.

Essa é, mais ou menos, a proposta da nova série da Netflix, Stranger Things, com os oito episódios de sua primeira temporada já disponíveis. Embora seu foco principal esteja, também, na ficção científica da época, busca uma homenagem um pouco mais ampla à cultura popular daquele período norte-americano. A trama, que se passa em uma típica cidade pequena e começa com o misterioso desaparecimento do pequeno Will Byers (Noah Schnapp), enquanto voltava para casa após um jogo, em tabuleiro, de RPG com os três amigos: o líder da turma, Mike (Finn Wolfhard), o desconfiado Lucas (Caleb McLaughlin) e o atrapalhado e banguela Dustin (Gaten Matarazzo). O trio, então, resolve encontrar o companheiro, mas, assim como a mãe de Will, Joyce (Winona Ryder), descobrem que o mistério gira em torno de eventos de aspecto sobrenatural, de uma instalação para experimentos militares e de uma garotinha muito estranha, conhecida, somente, como Onze (Millie Brown). Parece familiar?

De fato, Stranger Things tinha tudo para ser uma grande série, já em sua primeira temporada — a segunda já foi anunciada. Como é de praxe em produções originais Netflix, a série é, tecnicamente, muito competente. Possui boa ambientação e referências mil à cultura pop da década de 80, e é fácil, realmente, sentir-se revivendo ou visitando, pela primeira vez, aquele tempo. A trilha sonora também funciona muito bem, com a ideia já um tanto clichê, mas bem executada, de uma composição de faixas voltada ao eletrônico, no caso da série, sempre agindo de modo discreto e nos momentos apropriados — além de, claro, apresentar temas musicais clássicos.

O elenco, igualmente, só vem a somar. Destaque para os amigos de Will que, fica claro, possuem a força para retratar uma amizade tão forte quanto as de obras clássicas de Stephen King. Winona Ryder também encarna a mãe de Will com toda a sua força enquanto atriz, assim conferindo grande verossimilhança à situação emocional da personagem com o desaparecimento do filho.

O problema é que, em termos de roteiro, a série apenas chega perto de ser tão boa quanto poderia. Não que o mistério em torno do desaparecimento não seja desenvolvido de um jeito redondo, mas, exceto pelo maior fôlego no episódio piloto e pelo familiar acelerar de ritmo nos dois episódios finais, tudo, no mais, demora muito para acontecer. É mais uma produção que, mesmo com apenas oito episódios, poderia ter desenvolvido tudo o que apresenta, satisfatoriamente, talvez na metade do tempo. A amizade das crianças, por exemplo, é retratada com intensidade no princípio da trama, mas mesmo o carisma do elenco mirim é prejudicado, ao longo dos episódios seguintes, por um texto que relaxa em abordar essa cumplicidade, ao mesmo tempo que se detém, em demasia, em arcos de história paralelos e bem menos interessantes, como na vida amorosa da irmã adolescente de Mike. Não que tal arco, por si só, seja ruim, de modo algum, o problema é que o mesmo não consegue se inserir de modo orgânico dentro da trama como um todo, desviando a atenção do espectador por tempo demais acerca do conflito que tende a interessar de verdade.

Com um final de temporada que, embora resolva seu arco principal, deixe possíveis pontos de exploração para a temporada seguinte, o resultado é uma homenagem, no máximo, divertida à magia do cinema e da cultura pop americana dos anos 1980, com uma trama final (quase) redonda, a partir da qual apresenta todo o seu referencial nostálgico. Se, todavia, aproveitasse melhor seu roteiro no sentido de humanizar com mais esmero os seus personagens em prol da mesma proposta, a produção se converteria em uma grande obra, em vez de, tão somente, em um produto pouco mais que ‘regular’.

Stranger Things – 1ª Temporada (Idem), EUA – 2016
Showrunners: Matt Duffer, Ross Duffer
Direção: Matt Duffer, Ross Duffer, Shawn Levy
Roteiro: Matt Duffer, Ross Duffer, Paul Dichter, Justin Doble, Jessica Mecklenburg, Jessie Nickson-Lopez
Elenco: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Matthew Modine, Noah Schnapp
Duração: 480 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.