Crítica | “Stranger Things 2” – Kyle Dixon & Michael Stein

Em 2017 um verdadeiro fenômeno surgia na Netflix. Stranger Things pegou de surpresa a todos, conquistando uma popularidade enorme através de seu apelo nostálgico, mistério interessante e personagens carismáticos. Deixando a análise da série em si a parte, não medi elogios à fantástica trilha sonora da série composta pela dupla Kyle Dixon e Michael Stein (saída do grupo texano de música eletrônica S U R V I V E) e lançada em dois volumes. Um ano se passou e ambos os compositores agora retornam para a trilha da segunda temporada da série. O que mudou de lá pra cá? Foram de desconhecidos músicos independentes divulgando seus trabalhos no bandcamp a aclamadas revelações da ambient music.

Por baixo dos synths oitentistas (parte de um emergente movimento chamado synthwave) incorporados pela dupla texana encontram-se texturas sonoras de possibilidades infinitas. Aqui deparamos com uma construção musical minunciosa, bem estruturada e rica em detalhes elaborando paisagens de medo, nostalgia e contemplação. Perceba como faixas introdutórias como Walking in Hawkins e Eulogy já ditam o clima de mistério da trama, bem como toda a inocência da infância e bela amizade do grupo de crianças da série. Embora não exista nenhuma reinvenção da roda, ou não chegue perto do primor das composições do Volume 1, temos aqui uma densa e bela ambientação sonora, que ainda aproveita para prestar tributo a trilhas oitentistas e compositores como John Carpenter e Vangelis.

Somos apresentados a um extenso painel de sentimentos através dos mais diversos synths. O mistério ingênuo e brincalhão de In The Woods, o drama aventuresco de Soldiers, os synths mágicos e lisérgicos de Run, a epifania em meio à solidão em She Want Me To Find Her, o feixe de esperança em The Return, a adrenalina quase dançante e posteriormente apocalíptica da excelente We Go Out Tonight, o medo do desconhecido em The Hub… Há espaço até mesmo para a dupla flertar com o que chamaria de sua própria versão do clássico BAAAUMMM popularizado por Hans Zimmer, em Descent Into The Rift. Em um cenário cinematográfico de trilhas monopolizado por Hans Zimmer e Michael Giacchino, é impossível não ficar feliz com o reconhecimento de compositores independentes como Dixon e Stein, que, espero eu, possam migrar logo para o cinema.

No entanto, ainda falta coragem para os Duffer Brothers na hora de utilizar o trabalho de Dixon e Stein na série. A trilha segue muitas vezes mixada como algo a parte, algo colocado ali pois a estrutura manda, mas como se valesse menos do que o visual. Falta culhão pra aumentar o volume e dar o destaque que muitas vezes ela merece. Na série, o trabalho sonoro muitas vezes acaba passando despercebido por utilizar de uma mixagem inferior ou baixa demais, enquanto ouvir o álbum de composições te imergirá em toda uma atmosfera soturna e melancólica bem característica. Kyle Dixon e Michael Stein se provaram mais uma vez através de uma obra que empurra a ambient music pra frente, mesmo que para isso precise olhar no retrovisor fazendo uso de synths retrôs. Já está na hora de Hollywood passar a dar o devido valor a compositores alternativos assim.

Aumenta!: The Hub
Diminui!:

Stranger Things 2 (A Netflix Original Series Soundtrack)
Artista: Kyle Dixon, Michael Stein
País: Estados Unidos
Lançamento: 21 de outubro de 2017
Estilo: SynthwaveAmbient, Trilha Sonora

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.