Crítica | Stranger Things – 2ª Temporada

  • Leia, aqui, a crítica da 1ª temporada.

Nenhum dos envolvidos na produção de Stranger Things, sejam os executivos do Netflix ou os Irmãos Duffer, poderia imaginar o diamante bruto que tinham em mãos quando a primeira temporada foi lançada em julho de 2016. Bebendo sem pudor de fontes oitentistas para formar uma irresistível amálgama nostálgica que evoca a época que homenageia para, a partir daí, construir um suspense sci-fi tendo crianças e adolescentes como pontos focais, a série amealhou fãs de todas as idades instantaneamente, em um fenômeno visto com cada vez menos frequência hoje em dia.

E, pouco mais de um ano depois, a mais do que aguardada segunda temporada é lançada pela mesma equipe criativa e trazendo de volta todo o elenco infantil, juvenil e adulto, com as bem-vidas adições dos veteranos Sean Astin como Bob, namorado de Joyce Byers (Winona Ryder) e Paul Reiser, como o Dr. Sam Owens, papel com alguma equivalência ao que Matthew Modine ocupara. Mesmo com a produção apressada em razão do sucesso inesperado, o resultado é maduro, bem-acabado e lógico dentro da estrutura proposta inicialmente.

No entanto, os Irmãos Duffer escolheram trilhar o caminho mais familiar, provavelmente para evitar erros e ajudar a consolidar de vez a série no imaginário popular. Com isso, a segunda temporada é, quase que em sua integralidade, uma versão expandida em escopo da primeira, com episódios e sequências dentro dos episódios que emulam quase que completamente a temporada inaugural. Em vários momentos, a sensação de déjà vu é forte, o que reduz o impacto da narrativa, elimina surpresas e, por vezes, desacelera a cadência dos episódios.

Claro que a simples volta de todo o elenco, especialmente da garotada que, aliás, ganha mais um componente, a ruiva californiana rebelde, gamer e skatista Max (Sadie Sink), que é bem trabalhada como um entrave duplo para a amizade de Mike (Finn Wolfhard), Lucas (Caleb McLaughlin) e Dustin (Gaten Matarazzo, agora com dentes, grrrrrr…), já é razão mais do que suficiente para sentar no sofá para longas sessões seguidas de Stranger Things 2. Todavia, se espremermos de verdade a essência da nova temporada, veremos que ela não é muito mais do que uma repetição, com mais orçamento, da primeira, com alguns comentários sociais relevantes salpicados aqui e ali quase que de última hora, como a didática abordagem do bullying.

Com isso, a demora típica da primeira temporada em efetivamente engrenar é repetida aqui, com episódios iniciais de uma temporada relativamente curta (nove, um a mais que na primeira) sendo desperdiçados com narrativas paralelas que se mantêm por muito tempo como pneu na lama, rodando no mesmo lugar. Foi um aspecto negativo originalmente e continua sendo aqui, com o agravante de que a novidade se foi e tudo aquilo que é aparentemente novo, como a revelação, logo nos segundos iniciais, de que existe uma outra garota com poderes como Eleven, se perde em desenvolvimentos tardios ou que simplesmente estão em descompasso com o restante da história.

Para manter o tom parecido, os Irmãos Duffer decidiram avançar quase um ano no tempo, para 1984, sob a premissa de que tudo o que aconteceu na primeira temporada foi acobertado pelo governo, com seus participantes tendo que assinar acordos de confidencialidade. Com isso, nada muda na superfície, com os meninos na escola, Nancy (Natalia Dyer) namorando Steve (Joe Keery), que encarna de vez o papel de good boy e Eleven (Millie Bobby Brown) vivendo secretamente com o xerife Jim Hopper (David Harbour), como os segundos finais da temporada anterior deixaram entrever.

Três situações, porém, catalisam separadamente as ações paralelas que eventualmente convergem: as visões de Will (Noah Schnapp) do Mundo Invertido, que estão sendo estudadas pelo Dr. Owens, se intensificam; as plantações de abóbora de Hawkins misteriosamente apodrecem, com os fazendeiros acionando o xerife para investigar possível envenenamento e os pais da falecida Barb decidem vender a casa para contratar um detetive particular para descobrir o paradeiro da filha (eles não sabem nada do que ocorreu), o que leva Nancy a tentar encontrar maneiras de circunavegar a papelada que assinou proibindo-a de revelar a verdade. Com isso, os núcleos pré-determinados entram vagarosamente em movimento em uma história em escala maior, mas que segue exatamente a cartilha antes estabelecida.

Em separado, vemos Eleven tentando descobrir quem verdadeiramente é, com os roteiros de episódio em episódio fazendo malabarismos para mantê-la separada dos demais personagens, até que, em The Lost Sister, o sétimo, ela parte em uma aventura de auto-descoberta que tem como único propósito mudar seu visual (que ficou ótimo, aliás), pois, em termos narrativos, é um desastre completo. Como mencionei mais acima, a escolha do caminho mais viajado pelos Irmãos Duffer se deu também para evitar erros, pois ficou evidente que, quando eles tentam coisas realmente novas (ou menos batidas, vamos chamar assim), eles erram feio, introduzindo personagens e histórias que são completamente descoladas da estrutura da temporada como um todo, além de completamente quebrar a atmosfera de cidadezinha do interior que a série até agora vem cultivando, sem que tenham um propósito orgânico na temporada. Sorte que esse desvio não dura muito e tudo volta aos trilhos mais para o final deste episódio.

Winona Ryder, que vivia basicamente gritando na temporada anterior, ganhou uma versão mais centrada de sua personagem (afinal, desta vez seu filho não desaparece, ainda que sofra bastante, coitado do Will…) e, com isso, a atriz consegue se desvencilhar das amarras do histrionismo e entregar uma performance muito convincente e cuidadosa, transitando bem entre mãe amorosa e mulher que faz o que tiver que ser feito para salvar o filho. Harbour, o futuro Hellboy, também tem uma atuação confiante, com seu simpático, mas sofrido xerife ganhando novamente bom destaque na temporada e servindo de elo de ligação entre a narrativa principal e Eleven, que permanece separada do eixo central por um bom pedaço da temporada.

Se, anteriormente, os Irmãos Duffer sorveram inspirações bem variadas dos anos 80 para montar seu preciso quebra-cabeças nostálgico, nesta segunda temporada algumas fontes são bem mais presentes e marcantes que outras. A primeira que ele usa fortemente, inclusive com a trilha fazendo referência sonora, é Gremlins, aqui representado pelo arco de Dustin e o misterioso bichinho simpático D’Artagnan, ou Dart para os íntimos, que ele acha em sua lixeira. Outra grande fonte, e a própria presença de Paul Reiser no elenco a reforça, é Aliens, o Resgate, já mais para a segunda metade da história, com direito à uma quase reedição da sequência inicial do filme com os marines espaciais em LV-426. Mas há também menções indiretas a O Exorcista (tecnicamente não é oitentista, mas vocês entenderam), E.T. – O Extraterrestre e, pela presença de Sean Astin, um leve vibe de O Senhor dos Aneis aqui e ali. E nem vou entrar aqui nas citações diretas, claro, pois elas são constantes e variadas, a começar por Os Caça-Fantasmas.

Como já salientei, a qualidade da produção foi amplificada com um orçamento mais generoso empregado em efeitos especiais muito bons e que os showrunners souberam usar de maneira inteligente, sem que eles roubassem o show. O foco ainda é em seus personagens e espero que continue assim. A fotografia noturna da série é outro elemento técnico que merece grande destaque, por jamais pecar por excessos, funcionando exclusivamente para impulsionar a narrativa criando o necessário suspense sem esconder sequências ou confundir o espectador. E isso sem que os truques reflexivos tradicionais, como chão molhado para amplificar a iluminação, sejam usados de maneira evidente pela equipe.

A segunda temporada de Stranger Things pode repetir a estrutura da primeira e errar aqui e ali quando  tenta inovar de forma equivocada, mas a grande verdade é que o prazer em assisti-la foi tão grande quanto anteriormente pela presença do carismático elenco e suas ótimas adições. Quem diria que teríamos uma reedição dos anos 80 em plena segunda década dos anos 2000, não é mesmo?

Stranger Things – 2ª Temporada (Idem, EUA – 27 de outubro de 2017)
Showrunners: Matt Duffer, Ross Duffer (Irmãos Duffer)
Direção: Matt Duffer, Ross Duffer, Shawn Levy, Andrew Stanton, Rebecca Thomas
Roteiro: Matt Duffer, Ross Duffer, Justin Doble, Paul Dichter, Jessie Nickson-Lopez, Kate Trefry
Elenco: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Noah Schnapp, Joe Keery, Sadie Sink, Dacre Montgomery, Sean Astin, Paul Reiser, Linnea Berthelsen, Brett Gelman, Will Chase, Matthew Modine
Duração: 480 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.