Crítica | “Stranger Things, Vol. 1” – Kyle Dixon & Michael Stein

estrelas 5,0

Uma das novas empreitadas da Netflix nesse ano, Stranger Things, se mostrou uma surpresa enorme de hit ao alcançar, em tão pouco tempo, um nível de popularidade já comparado a Game Of Thrones. E há uma série de possíveis razões para isso, entre elas a nostalgia, o carisma dos personagens e um storytelling que incentiva a curiosidade. Por baixo disso tudo temos a trilha sonora composta pela dupla Kyle Dixon e Michael Stein, um pano de fundo imprescindível que vai chamando a atenção do telespectador aos poucos, de maneira bastante cuidadosa. O trabalho realizado pelos dois merece ser escutado atenciosamente para absorver cada detalhe presente nos momentos extraordinários que seus sintetizadores nos trazem.

A dupla – original de Austin, no Texas – era uma figura um tanto anônima até um tempo atrás. Artistas pouco conhecidos, apenas membros de uma banda independente chamada S U R V I V E que disponibilizava trabalhos no bandcamp. É um mistério até para eles mesmos como os Duffer Brothers, produtores da série, descobriram sua música e os contataram. Tal olhar direcionado a estes compositores desconhecidos foi certeiro: assim que a série explodiu no serviço de streaming, parte do público já pedia lançamento da trilha. E a Netflix atendeu aos pedidos, dividindo em dois volumes, lançados respectivamente em 12 e 19 de agosto, agendando ainda lançamento de mídia física para setembro.

O que vemos nesse volume 1 da trilha é um cuidado enorme de Dixon e Stein, que entregam uma verdadeira aula de como criar um atmosfera sonora minunciosa, tensa e nostálgica. A faixa homônima que acompanha a fantástica abertura é o primeiro sinal disso. Através de um clima progressivo de mistério nos sintetizadores – efeitos que lembram o tema do Daft Punk para Tron – O Legado – é ditado o suspense aventuresco que acompanha toda a série. O trabalho da dupla neste álbum remete a um pequeno “movimento” que vem surgindo nos últimos anos de compositores que utilizam synths oitentistas, assim como chiptune e ambient music. Um bom exemplo é o trabalho de Disasterpeace (compositor elogiado pela trilha de Corrente do Mal) para o jogo FEZ, uma atmosfera única, sutil e cheia de personalidade, criada utilizando efeitos retrôs, algo muito similar ao primor realizado aqui em Stranger Thing.

A dupla sabe extrair dos sintetizadores as notas necessárias para a conexão de áudio perfeita com o visual da série da Netflix. Faixas como Eleven e Friendship incorporam a inocência e delicadeza nos personagens mirins e suas angústias. Já Castle Byers aposta na progressão de ruídos se encontrando a notas melancólicas, excelente representação do famoso “mundo do avesso” que as crianças buscam encontrar. Na ideia de sonorizar esse “mundo” presente no plot da série, talvez só não seja mais eficiente que The Upside Down ou Cops Are Good At Finding e suas belíssimas construções de mistério, suspense e dúvida, repletas de minúncias que apenas verdadeiros talentos da arte da composição saberiam criar.

Vale dizer que não é apenas uma trilha sonora, mas um lançamento brilhante da ambient music que necessita ser (e vem sendo, felizmente) discutido pela mídia musical. A dupla se mostra primorosa em desenvolver progressão, seja o susto explosivo dos sintetizadores no fim de No Weapons, ou Hawkins Lab com sua atmosfera sombria, sinistra, fortalecida através das iniciais notas graves que, em seguida, nos lançam em uma chuva de synths enérgicos que deixam a tensão em um aspecto crescente de forma sensacional.

O que os compositores construíram aqui vale ouro, acredite. Através de uma grande obra que precisa ser estudada por músicos e cineastas, Kyle Dixon & Michael Stein entram para o panteão de novos compositores que merecem ser observados com olhares curiosos. Se trata de uma obra que precisa ser ouvida em meio ao silêncio, sem interrupções e de maneira analítica, perceptível aos detalhes de cada nota, seja soturna ou vibrante.

Aumenta!: Hawkins Lab
Diminui!:

Stranger Things, Vol. 1
Artista: Kyle Dixon & Michael Stein
País: Estados Unidos
Lançamento: 12 de agosto de 2016
Estilo: Ambient Music, Trilha Sonora

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.