Crítica | Street Fighter Alpha (1 e 2)

estrelas 2,5

Street Fighter é uma das maiores franquias de games de luta e uma das séries de jogos mais aproveitadas em outras mídias. Existem – além de dezenas de jogos – vários filmes, animes, séries e mangás. O desempenho no ramo do cinema é o que todos já sabem: dois filmes bem fracos: Street Fighter – A Batalha Final e Street Fighter – A Lenda de Chun Li. Também foi feito um anime e alguns longas em animação que, em geral, são muito regulares, com exceção do sensacional Street Fighter II – The Animated Movie, a melhor adaptação de um game para outra mídia, na opinião desse que vos escreve. A verdade é que a série de luta da capcom não consegue se inserir tão bem em outras mídias, apesar de algumas adaptações provarem que é possível (está aí a websérie Street Fighter – Assassin’s Fist que não me deixa mentir). Esse ano (e fim do ano passado) foi lançado no Brasil o mangá Street Fighter Alpha, pela editora New Pop, dividido em duas edições, roteirizado e desenhado por Masahiko Nakahira. A história se baseia na série de jogos de mesmo nome, uma espécie de prelúdio que mostra o primeiro embate de Ryu e sua turma contra a Shadaloo, a empresa vilã liderada por Bison. As duas edições possuem qualidades distintas, mas o resultado final é bastante regular. O mangá só serve pra confirmar a afirmação acima: entre mais erros que acertos, o mangá é outra mídia que não consegue adaptar de maneira correta essa franquia de games.

Masahiko Nakahira acerta em cheio nas ilustrações, com certeza o maior destaque da série. O autor consegue ser bem fiel às características e personalidades dos personagens, além de conseguir transmitirstreetfighter muito bem as lutas dos games: os embates são as verdadeiras pedras preciosas do mangá – seja Ryu contra Ken ou Chun Li contra Sodom – Nakahira não economiza em mostrar as forças de cada ataque. Algumas cenas chegam até a ocupar páginas inteiras, destaque para as finalizações de Ryu. Quanto a arte, quase não há problemas, mas quanto ao roteiro…

A qualidade da primeira edição é bem maior que da segunda. A primeira consegue ter um resultado até que satisfatório. Somos apresentados aos principais personagens (Ryu, Ken, Chun Li), algumas aparições importantes (Rose, Guy) e outras bem coadjuvantes (Birdie, por exemplo). A primeira parte da história foca bastante em Ryu e sua interna força oculta chamada Satsui No Hadou, um poder assassino que o protagonista tenta controlar e conhecer melhor. Apesar do início um pouco apressado, o mangá consegue se manter bem, segue uma linha de narração até que eficiente. Primeiro somos apresentados a uma situação de luta entre Ryu, Chun Li e Birdie, o que proporciona ao protagonista demonstrar o poder da Satsui No Hadou, fato que é essencial para todo o desenvolvimento da história. Logo surgem outros lutadores da franquia, o problema é que – com exceção dos protagonistas – nenhum tem um verdadeiro desenvolvimento. Simples aparições são muito bem vindas, mas o que acontece é um excesso de importância colocado em alguns personagens, o que complica um pouco o roteiro. Apesar de fechar com um saldo positivo, a primeira edição se mostra pouco estável, o medo do roteiro despencar é iminente, principalmente devido ao que foi dito sobre excesso de personagens.

Eis que a segunda edição chega, e tudo que se teme é confirmado. Nakahira chuta o balde quanto ao roteiro, tudo é muito apressado (principalmente mais perto do fim), a sensação é que se o autor tivesse mais uma edição, o resultado poderia ser  diferente. Aliás, fica essa observação: se você564918-nakahira1 não conhece a história e os personagens dos games, talvez fique bastante perdido, com certeza a leitura não valerá a pena.  Essa edição apresenta pelo menos três vilões e não consegue desenvolver nenhum deles: Adon possui motivações muito fracas, Vega não acrescenta nada a trama, e Bison – o maior vilão da série – é apresentado aos 45 do segundo tempo. Você quer mais problemas? Akuma – um dos mais importantes personagens dos games – é totalmente dispensável na segunda edição e constitui uma quebra na narrativa, um excessso de importância é dado a Guy, enquanto Charlie Nash – que talvez seja o coadjuvante de maior potencial na série Alpha – está quase  inexistente durante todo o mangá. Além de tudo isso, o desfecho da segunda edição  deixa bastante a desejar (apesar da luta de Ryu com Bison ser sensacional), não responde a algumas perguntas e deixa dúvidas sobre alguns personagens.

Apesar dos problemas, Street Fighter Alpha é um mangá que alguns fãs devem conferir. Existem algumas qualidades, a arte é a principal delas, mas o roteiro não é muito diferente de um fraco “blockbuster” americano. A editora New Pop também merece parabéns pelo cuidado, as duas edições possuem ótimas capas e um sensacional acabamento, destaque para o da segunda edição que tem Bison em uma capa toda vermelha. Se você não se importar com os erros de narrativa e se for fã dos games, provavelmente você pode gostar dessa série em mangá. Entretanto, é mais válida uma partida de Ultra Street Fighter IV ou de outro jogo dessa ótima franquia de luta. Fica a dica.

Street Fighter Alpha
Roteiro: Masahiko Nakahira
Arte: Masahiko Nakahira
Lançamento no Brasil: dezembro de 2013 e abril de 2014
Editora: New Pop
Edições: 2

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.