Crítica | Street Fighter: Assassin’s Fist / Punho Assassino

estrelas 4

Já é lugar comum lamentar das terríveis adaptações que os games sofrem no cinema. Das mais recentes, como Hitman: Agente 47, até os mais longínquos, como a que envolve o bigodudo italiano da Nintendo – bateu um enjoo aqui – personagens queridos nas mãos de diretores e atores é sinônimo de distorção. Uma fagulha de esperança, porém, apareceu em 2010, com excelentes três minutos que Joey Ansah, ator de O Ultimato Bourne, dirigiu e postou no youtube com o nome de Street Fighter Legacy. Tratando uma simples luta entre Ryu e Ken com extremo cuidado, do jeito que um verdadeiro fã toma com seus objetos queridos, a expectativa para uma continuação do projeto com a contribuição de outros fãs foi crescendo e se concretizou com, sem dúvida, uma das melhores obras sobre Street Fighter fora da mídia dos games: Assassin’s Fist é puro deleite para qualquer gamer.

Acompanhando o treinamento de Ken (Christian Howard) e Ryu (Mike Moh) com seu mestre Gouken (Akira Koieyama), Joey Ansah, que também interpreta Akuma, traz a origem de dois personagens queridíssimos com precisão em caracterização, ambientação e roteiro. Lançado no ano de 2014 em diversos pequenos episódios pelo Machinima, a obra, vista como um todo continuo, pode sofrer um pouco com o ritmo, mas nada que tire o mérito da produção em transpor com suavidade a jornada do domínio da técnica Hado nas montanhas do Japão.

O diretor não se furta em usar tanto o inglês quanto o japonês, dando uma veracidade básica para o espectador comprar a amizade dos lutadores. Mais do que isso, a personalidade de cada um é bem definida, havendo clara separação entre um Ken extrovertido e um Ryu dedicadíssimo ao seu treinamento. As atuações em si, principalmente a de Christian Howard, que também é roteirista, falha, por vezes, em alguns momentos mais introspectivos. Mas por nenhum segundo sequer se duvida de que Ken e Ryu estão ali. O figurino é de encher os olhos, desde os tradicionais quimonos branco e vermelho até o cabelo loiro comprido de Ken e da faixa branca que Ryu carrega consigo, ambos típicos dos primeiros passos dos personagens na cronologia que os games Alpha estabeleceram.

O que realmente diferencia essa obra das outras é o ótimo uso dos golpes dos games. Além dos tradicionais Hadouken e Shoryuken, bem orquestrados e utilizados com o máximo de efeitos especiais possíveis dentro do que o pequeno orçamento pode oferecer, é possível ver, logo na primeira luta, técnicas dos games. Falo de meros socos, chutes, defesas, passos simples, posições de combate, focus attacks, agarramentos, arremessos. Não se tratam de cenas de ação genéricas. Longe disso! O ensaio é fidelíssimo ao que podemos fazer com os mesmos personagens em fliperamas e videogames.

Não se trata, todavia, de uma simples minissérie sobre luta e de ação frenética o tempo inteiro. Da mesma forma, quem não está familiarizado com a dupla principal também terá com o que se divertir. A opção mais intimista em focar no passado de Gouken traz o peso dramático necessário, sem falta nem exagero. Nesse núcleo, a escolha de Togo Igawa (Memórias de uma Gueixa, O Último Samurai) como Gotetsu foi precisa. A série vai realmente na raíz dos problemas que a aprendizagem do Hado causa para trazer, então no presente, o grande conflito que passa com personagens mais conhecidos. Dentro do que uma história de um jogo de luta pode trazer, os episódios souberam trazer um bom entretenimento para quem não é jogador da série. Para quem já o é, é evidente que cada segundo será muito melhor aproveitado.

Nesse mesmo sentido, é impossível não se emocionar com a trilha sonora pontualmente colocada nos duelos e nos treinamentos. Street Fighter II é famoso por ter uma das melhores trilhas originais dos games, composta por Yoshihiro Sakaguchi, Yoko Shimomura, Tetsuya Nishimura. Ouvir as primeiras notas dos temas de ambos os lutadores tradicionais, remixadas, traz automaticamente lembranças de velhos tempos e um senso de paz por ver, finalmente, uma obra querida traduzida para outra mídia do devido modo.

Street Fighter sofreu – e muito – com adaptações. Desde Van Damme como Guile – admito que amava esse filme quando pequeno e ainda consigo dar risada com Raul Julia como Bison – até a precária Legend Of Chun-Li, que contava com participações de Michael Clarke Duncan e Taboo, do Black Eyed Peas – o que dizer… – só foi possível aproveitar algo da série nos filmes animados que passavam em longínquos sábados de manhã. Joey Ansah conseguiu algo inédito para seus lutadores favoritos, enchendo Assassin’s fist de easter eggs que só verdadeiros gamers notarão, aprofundando a história do mestre pouco famoso dos guerreiros que tanto gostamos e fazendo, enfim, um Street Fighter live-action ressurgir das cinzas. Tanto é que a principal concorrente logo utilizou do subtítulo Legacy, do curta que chegou ao youtube primeiro, para lançar duas boas temporadas contando histórias de Scorpion, Sub-Zero e companhia. O presente filme, entretanto, soube dosar com muita calma a participação de personagens icônicos, dando um gostinho de quero mais que era inimaginável, anteriormente, para qualquer obra que tivesse os nomes de Ryu e Ken envolvidos. Sorte que a sequencia já foi confirmada pela Capcom e tem até nome: Street Fighter World Warrior.

Street Fighter: Assassin’s Fist (EUA, 2014)
Criação: Joey Ansah
Direção: Joey Ansah
Roteiro: Christian Howard e Joey Ansah
Elenco: Mike Moh, Christian Howard, Akira Koieyama, Togo Igawa, Shogen, Gaku Space, Joey Ansah, Hyunri, Hal Yamanouchi e Mark Killen
Duração: 21 minutos por episódio (13 episódios no total)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.