Crítica | Subida ao Céu

Em 1952, Luis Buñuel estava em seu longo exílio no México, onde dirigiu vários filmes, desde clássicos imortais, até fitas descartáveis, mas todos eles com uma pitada de sua verve surrealista ainda que, em linhas gerais, bem calcados no realismo. Subida ao Céu (que, de forma descritiva, foi batizado, em inglês, de Mexican Bus Ride) é um filme curto, de 75 minutos, dessa sua “fase mexicana” .

A história começa em uma cidadezinha perdida no litoral mexicano, tão pequena que nem igreja tem. Para se casar, basta que o casal tenha a benção dos pais da noiva e passem uma noite em uma ilha próxima, mais nada. Um jovem casal acaba de se casar mas, no caminho da ilha, são surpreendidos pelo irmão do noivo, em um barco, dizendo que a mãe deles está morrendo. Com a lua-de-mel interrompida, o casal parte para ver a mãe do noivo, uma aparentemente rica dona de propriedades (apesar de a aparência do lugar ser terrível). Lá chegando, a mãe pede ao seu filho que acabou de casar – Olivério (Esteban Márquez) – que chame um advogado de uma cidade distante para fazer o testamento dela, já que ela quer ter certeza que seu neto Chuchito (ainda criança, filho da irmã de Olivério, que morreu no parto) será o proprietário de sua casa, de forma que ele possa ter dinheiro suficiente para pagar uma boa educação. Sem alternativas, e vendo seus dois outros irmãos já sedentos pela herança, Olivério parte na tal Mexican bus ride do título em inglês.
São dois dias de viagem em que Olivério fica desesperado para chegar na cidade onde mora o advogado e é nessa jornada que Buñuel foca o filme. A cada segundo, começando com um pneu furado, os passageiros do ônibus, encontram problemas. Buñuel trabalha muito bem a angústia do rapaz e as figuras que povoam o ônibus: o motorista que pára para dormir sem mais nem menos e obriga todos os passageiros a comemorar o aniversário de sua mãe querida; o político que só pensa em angariar votos e correr atrás de um rabo de saia; a moça (belíssima, aliás) que é apaixonada por Olivério e não descansa enquanto não o abate; o pai sem dinheiro levando sua filha para passear na cidade grande; donos de bodes; um sofisticado vendedor de galinhas e uma família indo enterrar a filha morta (com o caixão, claro).
Em suma, a viagem é, na verdade, um microcosmo do México da época (e arrisco dizer, de muitos outros países semelhantes, incluindo o Brasil), além de ser, também, uma espécie de encapsulamento das situações surreais com que Buñuel recheou suas obras seminais Um Cão Andaluz e A Idade do Ouro. Olivério, tem que fazer de tudo para alcançar o advogado e voltar antes que sua mãe venha a falecer e seus irmãos acabem com o patrimônio de seu sobrinho. Os obstáculos estão lá de maneira que, mesmo de longe, lembram os obstáculos que os comensais têm para sair do jantar em O Anjo Exterminador.
É muito interessante (e emblemático, eu diria, conforme explicarei abaixo) o uso de miniaturas que Buñuel faz. Na cena em que o ônibus, dirigido apenas por Olivério e Raquel (Lilia Prado, em roupas provocantes) está subindo o morro chamado Subida al Cielo, fica claro que se trata de um carrinho Matchbox em cenário altamente artificial. A transição é feita sem disfarces, mas, de toda maneira, consegue ser razoavelmente eficiente. As situações, como um todo, são muito cômicas e caricatas e Buñuel, claro, não deixa de mostrar um pouquinho a que veio em uma cena em que Olivério sonha com Raquel em seus braços. O filme basicamente se passa dentro do ônibus, uma espécie de road movie, e cumpre sua proposta de mostrar um pouquinho do México e muito do mestre do surrealismo.
Estebán Marquez, que atuou como Olivério (Esteban Marquez) somente conseguiu o papel depois que mentiu sobre sua experiência com atuação. Lilia Prado foi uma das grandes atrizes mexicanas, continuando ativa até seu último filme em 1991, vindo a falecer somente em 2006.

Essa produção, conta a lenda, foi uma das mais atribuladas de Buñuel, com problemas com greves, montagem de sets e tudo mais. Isso parece ter se refletido na obra, já que a película sofre de cortes abruptos e cenas muito pobres em termos de decoração. Fica até difícil entender se Buñuel efetivamente queria o final que assisti, já que o filme acaba de repente, sem resolução satisfatória da trama.

Mesmo assim, com todos os seus problemas, Subida ao Céu é um curioso esforço cinematográfico do diretor talvez tentando voltar às suas raízes surrealistas. Assim, mesmo sendo uma obra menor do aragonês, ela merece ser conferida, ainda que esteja longe de ser algo verdadeiramente memorável.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.