Crítica | Sublime Obsessão (1954)

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estrelas 4

No mesmo ano em que lançou o fraquíssimo western Herança Sagrada, Douglas Sirk surpreendeu o público com um notável melodrama, Sublime Obsessão (1954), obra que marcaria o início de um novo olhar para sua filmografia, especialmente dentro de um gênero que lhe era bastante caro, um gênero que vinha lapidando desde a A Garota do Pântano (1935), sua primeira experiência melodramática.

Baseado no romance homônimo do escritor estadunidense Lloyd C. Douglas, Sublime Obsessão teve outra versão cinematográfica antes de Douglas Sirk, dirigida por John M. Stahl, em 1935, e com Irene Dunne e Robert Taylor no elenco. Quase duas décadas depois, já em cores e com uma elegância que chega a ser irritante, o mundo conheceria a versão sirkiana, que é um verdadeiro deleite visual embalado em um roteiro que quase se auto-boicota no final.

A história do playboy que é salvo da morte no mesmo dia em que morre um amado cirurgião de uma cidade; ironicamente, por falta do ressuscitador que ajudou o tal playboy, é abordada por Sirk com muito cuidado, explorando com delicadeza os sentimentos dos personagens e dando-lhes dimensões que se alteram grandemente no decorrer da projeção.

O início do filme tem um ritmo bastante dinâmico, com temas musicais breves e vivazes, planos curtos e muitas panorâmicas pelo belíssimo cenário onde acontece o acidente de Bob Merrick (Rock Hudson, em ótima atuação). Aos poucos, a montagem recua, os planos se estendem e a câmera só se movimenta quando muito necessário. Percebemos outro tempo dramático ser construído e, junto à forma rítmica, também crescem as paixões do casal formado por Hudson e pela atriz Jane Wyman, que merecidamente recebeu indicação ao Oscar de melhor atriz por seu papel como Helen Phillips.

Da felicidade à dor, do desprezo à conformação e então à paixão, vemos não só os protagonistas mas também os coadjuvantes trilharem um caminho de crescimento, adaptação, aceitação e perdão no decorrer da história. O tema da caridade (de caráter disfarçadamente cristão) é abordado na obra e, no início, mostra-se um pequeno mistério que ajuda a impulsionar os eventos com bastante simpatia e leve intriga. Infelizmente o tema retorna ao final em forma errada, servindo para quase estragar o desfecho semiaberto e um pouco desalentado. O filme não chega a se perder, mas aquele “instante” após o reencontro de Bob e Helen não pedia o desvio para o ponto onde a máxima da “sublime obsessão” tivesse lugar.

A estonteante fotografia de Russell Metty (Herança Sagrada, A Marca da Maldade, Spartacus) é um dos grandes destaques técnicos do filme, área da qual o espectador não terá nada para reclamar. Já foi dito que o cuidado visual com a obra chega a ser irritante, e não é brincadeira. Enquanto ouvimos as explosões dramáticas da música de Frank Skinner (Sabotador, Imitação da Vida), nossos olhos acompanham o elenco desfilar sob a luz de uma fotografia aconchegante – mesmo em cenas noturnas ou lugares com pouca luz – e em belos figurinos. Os cenários raramente são “limpos”, mas o excesso de objetos, mesmo no caso mais caótico (a casa de um dos antigos amigos do cirurgião Phillips), tem um sentido de ser e nos encanta porque, mesmo nesse âmbito, parece ter uma ordem natural e secreta. Esse cenário de sonho, belas cores, estampas, fineza, riqueza e paixões arrasadoras se tornou basicamente o molde para os grandes melodramas de Sirk a partir daqui e até a sua volta para a Alemanha, no início dos anos 60.

Na beleza visual e nos percalços da vida, Douglas Sirk passou a construir um cinema cada vez mais meticuloso (não podemos nos esquecer de que essa marca veio crescendo com o diretor desde os anos 30) e com roteiros que mostravam, basicamente, o conflito entre o bem e o mal. Sublime Obsessão é a película que marca em definitivo o pulo para o auge deste momento em sua carreira, e o faz, à exceção do desvio final do roteiro, de uma maneira que seu título esteja na lista dos melodramas mais interessantes em temática e composição estética já feitos. E o melhor ainda: era só o marco inicial de uma grande fase.

Sublime Obsessão (Magnificent Obsession) – EUA, 1954
Direção: Douglas Sirk
Roteiro: Robert Blees, Wells Root, Sarah Y. Mason, Victor Heerman (baseado na obra de Lloyd C. Douglas)
Elenco: Jane Wyman, Rock Hudson, Agnes Moorehead, Otto Kruger, Barbara Rush, Gregg Palmer, Paul Cavanagh, Sara Shane, Richard H. Cutting, Judy Nugent, Helen Kleeb
Duração: 108 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.