Crítica | Sucker Punch

estrelas 1,5

Você sabe o que é um “sucker punch”? É um golpe banalizado pelo boxe e amplamente utilizado em lutas de rua. Trata-se de um soco oportuno na face do adversário que, geralmente, o agressor tira as forças de suas vísceras para acabar com a luta com o golpe fatal. Este é o típico final blow. Já o filme, é o final blow de sua paciência.

Baby Doll é uma recém-órfã que teve diversos problemas com seu padrasto. Isso resultou na sua passagem só de ida para o sanatório Lennox House onde sofrerá uma lobotomia. Lá ela descobre que é possível escapar de seu trágico destino com a imaginação e a fantasia – muito profundo, não? Em sua cabeça, o manicômio torna-se um cabaré onde todos ficam hipnotizados com sua “dança”. E enquanto dança, ela distorce a realidade e dá vida a um mundo cheio de perigos que oferece os instrumentos para sua fuga: um mapa, o fogo, chave, faca e um mistério…

O roteiro de Zack Snyder e Steve Shibuya seria, realmente, um ótimo game de ação, mas nunca um excelente filme. Infelizmente, ele escolheu a opção cinematográfica e assinou o óbito de sua obra insana. A trama é praticamente inexistente, apenas serve de desculpa para inserir seus universos fantásticos mirabolantes onde as protagonistas explodem zumbis nazistas, dragões, orcs, samurais steampunk e robôs. Ou seja, o lado “real” da película é mal desenhado, desinteressante e vazio (embora o lado fantasioso também seja) seguindo apenas uma passagem de transição para outra cena megalomaníaca e acéfala de ação – as coreografias se repetem.

Entretanto, isso não seria nem relevante de escrever se o filme se contentasse em ser apenas uma idiotice despretensiosa, coisa que ele revela não ser graças a sua cena final que proclama um Wake up call para a audiência – vergonha alheia. Toda besteirada apresentada durante os cansativos 110 minutos de projeção é desconstruída por causa da psicologia barata a lá Pokémon/Naruto/Rocky Balboa proferida por Sweet Pea – por favor, não me venham com a história que tudo, na verdade, ocorre na cabeça desta pequena maluquinha. O filme continua fraco mesmo com essa guinada ao mindfuck.

Além destes orgasmos mentais de Snyder, por mais incrível que pareça, sua história contém bonequinhas de ação – mais conhecidos como personagens. Baby Doll, Amber, Rocket, Blondie e Sweet Pea protagonizam sua história e acompanham a qualidade ruim do roteiro. Todas carecem de carisma, complexidade, enfim, são caricaturas de uma mente masturbatória viciada em tags do Pornhub. Pior é o trabalho insosso de Snyder para nem permitir que o espectador fique aflito com o destino de cada uma graças à invulnerabilidade no mundo fantástico, visto que praticamente nenhuma criatura oferece um perigo real para as jovens.

O enredo de sua história é bem previsível sendo possível matar seu final logo na metade do filme. Ele conta também com uma reviravolta clichê que não surte o impacto esperado na plateia por causa da falta de empatia da mesma com os personagens. E os diálogos, abissais. O melhor exemplo disto é a introdução de cada “missão” que as garotas encaram – uma bela variação da mesmice crônica. Elas sempre são apresentadas ao objetivo por meio de um “sábio” (o melhor personagem que se assemelha muito ao cargo de Charlie em As Panteras) que vocifera os piores provérbios motivacionais que já vi – até Rhonda Byrne ou Deepak Chopra são melhores. Por exemplo: “Se você não lutar por nada, cairá por qualquer coisa!

No entanto, nem tudo é um horror no roteiro de Snyder. A proposta de casar a imaginação com a ideia de liberdade é bem interessante, porém batida. Também comporta as escapadas para o imaginário como fases de games com objetivos muito bem definidos, porém isto se torna repetitivo – o visual salva, em tese. Algumas coisas conseguem até beirar a sagacidade, como a identificação dos personagens e dos itens em suas versões fantásticas e originais. Por exemplo, o porteiro do hospício com um isqueiro qualquer para a figura canastrona do prefeito com o ornamentado isqueiro dourado. Tudo isso surpreende somente uma vez e depois, a repetição infinita de elementos ultrapassados acaba por se tornar enfadonha.

O elenco é predominantemente feminino: É “300 de calcinhas”. Contando com as sinuosas beldades Emily Browning – péssima, Abbie Cornish – única que realmente se sobressai, Jena Malone, Vanessa Hudgens – completamente perdida, Jamie Chung e Carla Gugino, conseguem ser sensual ao exxxtremo, mas não chegam nem perto de entregar uma atuação de qualidade.

Emily Browning é a protagonista de bochechas rosadas, mas não faz jus à importância de sua hierarquia. Sempre com sua cara patética, convence no início, mas quando sua figura tem a obrigação de tornar-se fantástica, poderosa, ela está lá com a mesma cara de pôquer do início da fita.

Vanessa Hudgens, Jena Malone e Jamie Chung são estereótipos de taras sexuais masculinas (loira, morena, asiática) e entregam o que foi pedido sem esforço e também sem atrativos, a não ser o sexual. Abbie Cornish é a única que se esforça e consegue surpreender bastante com sua personagem. Diversas vezes deu para sentir que ela realmente queria interpretar ao contrário de suas colegas automáticas. Carla Gugino comparece sem destaques, apenas com um sotaque russo medonho.

O elenco masculino exacerba a canastrice com a caricatura de seus personagens – esse longa é o cúmulo do maniqueísmo imbecil. Cada um com uma participação pior que a outra sendo que o líder do ranking é Oscar Isaac encarnando o canalha mor. Seus momentos variam e de vez em quando se sai bem, afinal nada consegue ser ruim por completo. Scott Glenn pega o melhor personagem e se diverte com o papel, aliás, qual homem não teria um grande sorriso no rosto contracenando com menininhas em trajes reveladores? Entretanto, é uma pena que seja seu personagem o profeta das piores falas do elenco inteiro.

Larry Fong repete a dose fotográfica em outro filme de Snyder. Depois das belas imagens e cores de 300 e Watchmen, surpreende mais uma vez. Entretanto, realizou tudo com uma grandiloquência tanto exagerada – coisa que não acontecia nos outros filmes.

As cores de Sucker Punch são mortas e acinzentadas com um tom tempestuoso, muitas vezes, frio e pálido. Ela é escura até no mundo fantástico assumindo poucos contrastes e saturações tanto enjoativas. Fong e Snyder estapeiam a plateia com um plano mais belo que o outro, mas fazem isso incessantemente. Imagine comer seu doce favorito. Agora imagine comer seu doce favorito durante 110 minutos. Sem água! Já deu para sentir o drama.

O bombardeio visual é tão intenso e desregulado que enjoa e não deixa o espectador de queixo caído após acostumar com a beleza estonteante. Consequentemente ele não fica ávido por mais – a chave mestra do Show Business. A moderação é o segredo de qualquer coisa e o exagero é o protagonista de Fong desmerecendo seu magnifico trabalho. Esta característica é perceptível durante o filme inteiro, porém durante a cena do trem tudo é multiplicado por mil. A câmera, que já era inquieta, acha ângulos impossíveis enquanto rotaciona em 360º com intermitências de bullet time – o efeito consagrado por Matrix.

De vez em quando, Fong se atrapalha para bater o tom das cores em outro ângulo – ou é tudo culpa do colorista! Estamos de olho, viu?! Diversas vezes pude observar uma variação considerável no tom acinzentado da película, uma coisa que a pós-produção poderia ter corrigido sem o menor esforço. Essas falhas fotográficas geralmente ocorrem nas cenas de interiores do cabaré, principalmente no interior esverdeado onde Madame Gorski treina suas meninas.

Os efeitos visuais eram ótimos para a época e se sustentam até hoje. Todos os belos cenários do mundo imaginário são composições dos animadores competentes. Até mesmo quando é necessário modelar as beldades adolescentes, conseguem fazer tudo de forma orgânica e verossímil. Fora o feito histórico da realização do dragão, melhor trabalhado das últimas gerações depois de Smaug.

A direção de arte também acompanha a qualidade técnica impecável do filme compondo os cenários do cabaré e do sanatório com todo aspecto e charme dos anos 60 misturado com a sujeira crua e envelhecida do reboco detonado da parede manchada com espelhos enferrujados. O figurino marca pela provocante caracterização fetichista, sexualizada, de cada personagem.

A música conseguiu desvalorizar ainda mais a fotografia de Fong, porém o culpado é Snyder que não soube dosá-la muito bem durante o longa. Ela tem um papel muito importante no roteiro – Madame Gorski aperta o play do toca fitas para a pancadaria fantasiosa começar. Infelizmente isso conferiu uma cara de videoclipe para todas as sequencias de ação, o que não é bom, afinal, filme é uma coisa e videoclipe é outra. A trilha original é composta de mixagens e de reinterpretações de algumas músicas, entre elas Where’s My Mind, Asleep, Army of Me, Love Is The Drug e Sweet Dreams (esta conta com o melhor videoclipe). No entanto, a mixagem de I Want it All do Queen é fraquíssima.

Novamente marcada pelo excesso, as excelentes músicas não empolgam, servindo apenas para preencher as pancadarias femininas decorrentes e repetitivas. Os ótimos efeitos sonoros aguçam a audição pela barulheira das explosões e gritinhos, mas mais uma vez o exagero das doses cavalares de imagens fantásticas, acompanhadas por músicas incessantes com efeitos sonoros onipotentes, quase fazem o espectador ter um AVC durante a sessão.

Após realizar feitos inestimáveis na carreira que dariam inveja a qualquer diretor, entre eles os já citados 300Watchmen e Madrugada dos Mortos, Snyder resolve colocar sua imaginação no papel quando, na verdade, deveria ter ficado em sua cabeça. Muitos sabem que Mr. Snyder é uma concepção visual do século XXI. É fácil identificar um filme seu graças à fotografia marcante de Fong, seus enquadramentos sensacionais, além dos  famigerados slow motions. Aqui o efeito também aparece em excesso, a ponto de ser inserido até quando um balde cheio de batatas se espatifa no chão. É bem preocupante um diretor dar tanto destaque com o visual (aqui se inclui as interessantes lutas coreografadas) a ponto de esquecer os seres que está filmando, vide o caso de Vanessa Hudgens.

Ele pesa a mão durante o filme inteiro – Snyder é tão sutil quanto o Terremoto de Dwayne Johson. O diretor frisa o assassinato, estupro e violência doméstica. Porém este tom fúnebre/mórbido não acompanha a jornada para o fantástico. Outra característica é a brutalidade muitas vezes acompanhada de mutilações sangrentas, mas sua opção de abaixar a censura da fita pode ter comprometido um pouco a diversão. Aqui, o sangue dá lugar à poeira, luz, engrenagens e ao vapor. A maturidade de Watchmen também vai embora e deixa Snyder criar seu paraíso jovem e estúpido, recheado de referências atuais de animes, RPGs, games e universos paralelos que muitos adorarão e alguns odiarão.

Sucker Punch é um filme/videoclipe cansativo, extremamente repetitivo, uma overdose de “atualidade”, exagerado e instável, apesar de ser tecnicamente impecável. Ao tentar fugir do que ele é, põe em cheque toda composição do filme. Ele pode ser um prato cheio para amantes do gênero e do mundo abordado que você pode conferir no trailer. Apenas lembre-se de desligar o cérebro, uma coisa que eu me esqueci de fazer e, que com toda a certeza prejudicou, e muito, a hipnose da dança de Baby Doll.

BÔNUS: Nota com Lobotomia
estrelas 5,0

Sucker Punch: Mundo Surreal (Sucker Punch, EUA, 2011)
Direção: Zack Snyder
Roteiro: Zack Snyder, Steve Shibuya
Elenco: Abbie Cornish, Emmily Browning, Carla Gugino, Vanessa Hudgens, Oscar Isaac, Scott Glenn, Jamie Chung, Jena Malone
Duração: 110 minutos.

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.