Crítica | Sucker Punch: Mundo Surreal

Um dos motivos pelos quais o diretor norte americano Zack Snyder é tão escrachado, principalmente pelos auto denominados cinéfilos — e que, na verdade, deveria ser um motivo de mérito –, é a assinatura particular de seus filmes, considerados muito infantis, em cujos lançamentos já se espera comentários engraçadinhos do tipo “será que Snyder já saiu dos 8 anos de idade?”. E o que geralmente se vê como infantil nos filmes do diretor também pode ser visto como uma criatividade infinita, inocente, porém infinita. Pois o mundo dele não tem os idiotas limites demarcados pela oligarquia cinematográfica internacional. Sucker Punch, sua primeira história original, prova esse ponto e mostra um artista tentando fazer algo diferente.

Há todos os tipos de fantasia ali dentro. Muitas críticas pode se fazer em relação aos conteúdos pesados misturados com toda a inventividade, por parecer estar sendo explorado algum tipo de fetichismo absurdo — algo que, aliás, se fosse feito por qualquer diretor europeu cult viraria motivo para lindos comentários sobre a eternidade da obra. Mas nada no longa em relação à violência tem a ver com fetichismo, ao contrário, é uma exposição de um mundo perturbado por ela. Não é uma mente que se aproveita dela, é uma mente tentando fugir o tempo todo de sua avassaladora destruição, que está por toda parte.

De fato, há um Zack Snyder criança ali dentro — como também há uma criança Jacques Tati em todos os filmes do francês, como também há uma criança Vertov, uma criança Godard, uma Cronenberg… não é necessário falar mais. Essa criança presente no filme é a criança que há em todos nós, quando tentamos fugir da realidade por meio de nossa infinita imaginação. É um filme sobre fuga, sobre a fuga de um hospital psiquiátrico, a fuga de uma escabrosa casa de dança com suas dançarinas escravas, fuga da violência (às vezes até sexual). Nessa fuga Snyder mora em sua protagonista, cuja mente vai a mundos dignos de videogames épicos – todos eles, todas essas terras, sofrem com guerras em escalas de destruição total, guerras apenas grandes o suficiente para comportar toda a ansiedade vivida pela personagem: são mundos conflituosos porque sua cabeça está sempre em conflito, ela vive a violência todo dia, o dia todo, e é o conflito que mora nela que vemos nesses espaços fantasiosos.

O que acontece com toda essa fantasia é a continuidade nos planos das prisioneiras. E depois… bem, depois não há muito o que achar. A finalização lembra, no sentido da conversa com o expectador (literalmente nos dois casos), O Procurado de Timur Bekmambetov – outro diretor cuja inventividade é impressionante para o nível do cinema. Porém, no caso do segundo, a proposta é tal, não precisando nem da cena última para deixar entendido, enquanto em Sucker Punch não parece o caso. A mensagem de luta, claro, está presente na história, mas por todas as suas escolhas da metade para o final, incluindo a mudança de protagonismo, parece na verdade mostrar uma extrema falta de confiança. Como se para Snyder, apesar de toda a luta, não há o que fazer – há apenas o vazio. O filme por fim, parece sem saber muito o que dizer ao seu público, depois da incrível exploração da inventividade humana. E, após a luta, após todas as músicas – escolhidas de forma tão pessoal pelo diretor, que nos prende de cara –, após uma exposição cinematográfica brilhante o quanto quis, não sobra espaço para chegar a um final que tenha algo a dizer com tudo isso. Deixando-nos apenas no desejo. E os cinéfilos na felicidade de sair da sala do cinema para falar mal de Zack Snyder mais uma vez, viva.

Sucker Punch – Mundo Surreal (Sucker Punch) – EUA, Canadá, 2011
Direção: Zack Snyder
Roteiro: Zack Snyder, Steve Shibuya
Elenco: Emily Browning, Abbie Cornish, Jena Malone, Vanessa Hudgens, Jamie Chung, Carla Gugino, Oscar Isaac, Jon Hamm, Scott Glenn, Richard Cetrone, Gerard Plunkett
Duração: 110 min.

GABRIEL FERREIRA VIEIRA . . . Vivi em Recife por um longo tempo... até que eu fiz uma viagem para a Inglaterra dos anos 1990. Passei tanto tempo lá, ouvindo Radiohead em um apartamento melancólico, que nem lembro mais quanto foi. Depois voltei mais duas décadas no tempo e fui para o condado de Enfield (descobri que a casa lá era mal-assombrada mesmo). Quando já não dava mais de tanta depressão eu fui pra a Itália torcer para o Juventus e aproveitar o verão. Com essa turnê pelo mundo eu me senti preparado para começar a escrever...