Crítica | Supercrooks: O Assalto

A fórmula Mark Millar tem rendido diversas histórias em quadrinhos, gostando ou não, o britânico é um dos roteiristas mais famosos dos últimos anos e trabalhar com ele significa sucesso garantido, tanto para os artistas quanto para as editoras. Entretanto não é sempre que essa fórmula é bem-sucedida, o jeito Millar de escrever quadrinhos é muito sensível, suas histórias sempre ficam na linha tênue da banalidade ou da diversão. Seus diálogos, que em alguns quadrinhos são certeiros, em muitas obras, como Kingsman e Wanted, ganham uma agressividade desnecessária.

Supercrooks é um bom exemplo de como Mark Millar consegue ser assertivo em seu modelo de histórias. Aqui o roteirista não possui grandes pretensões para a sua narrativa, fica claro desde o começo que Millar deseja entregar apenas uma grande aventura, no estilo dos filmes de grande assalto. O leitor já é inserido na trama com essa expectativa, que no final é muito bem atendida.

A história começa apresentando tudo o que precisamos saber, vemos que estamos em um universo onde existem heróis e vilões, os antagonistas aqui sempre perdem, mas de cara já nota-se que Millar quer dar atenção aos criminosos e não aos mocinhos. Também conhecemos Carmine, um vilão que já foi mentor de diversos outros e que é viciado em jogos. Logo na primeira edição ele faz uma grande dívida com jogos e então vai atrás de um dos seus antigos aprendizes.

Johnny é o protagonista de nossa história, no primeiro arco ele é preso, Millar não faz questão de mostrá-lo na prisão e então faz um salto temporal, pulando para o momento que Carmine pede ajuda ao menino. Dessa forma somos apresentados ao plano do protagonista: como nos Estado Unidos está cada vez mais difícil ser um criminoso, por que não assaltar em outro país? Essa é a ideia inicial, o vilão deseja ir à Espanha para realizar seus atos de crueldade.

Na segunda edição a dupla recruta toda a sua equipe, essa é uma das partes mais interessantes de todo o quadrinho, aqui fica muito evidente o quão Millar é criativo e consegue escrever bem seus diálogos. Em uma edição o roteirista nos apresenta todos os integrantes do grupo e o plano de Johnny, que não entrarei em detalhes para evitar spoilers.

Supercrooks é um dos roteiros menos inventivos e clichês de Mark Millar, tudo que o escritor nos apresenta aqui não é novo, os poderes, o plano e até os personagens. Entretanto a forma como ele apresenta toda essa história é muito competente, sua trama é ritmada de forma que o leitor é inserido em uma trama que só acelera, chegando ao seu auge quando deve chegar. Existem sim alguns erros de narrativa, conveniências de roteiro se fazem presentes em toda a trama, mas cabe ao leitor aceitá-los ou não, a suspensão de descrença está aí e eu acredito que vale a pena abraçá-la para ter maior aproveitamento da trama.

A arte foi uma missão dada a Leinil Yu, desenhista que já teve outra parceria com Millar em Superior. Yu é um quadrinista muito competente, além de ter um traço excelente, fino, sua narrativa gráfica na obra é bem competente. Aqui vemos vários artifícios sendo muito bem utilizados, os cenários desaparecem quando o foco é apenas as atitudes dos personagens, as calhas mais grossas somem durante a ação e os quadros ganham um dinamismo muito interessante durante os diálogos.

Leinil também é muito competente quando retrata a agressividade, essa que é tão querida por Mark Millar. Em muitos quadrinhos os momentos de lutas são muito mal representados, a violência não é real, as posições dos personagens não são naturais e o sangue é muito mal utilizado. Isso não acontece em Supercrooks, Leinil Yu representa muito bem a ação colocada por Millar, suas cores são críveis e ao invés de grandes planos de ação somos apresentados a closes que limitam a visão do leitor, deixando tudo ainda mais tenso.

Supercrooks é uma HQ descompromissada, que não exige muito do seu leitor e que não exigiu muito dos seus envolvidos. Leinil Yu e  Mark Millar entregam aquilo que seria perfeito para um filme de ação e, considerando que a Netflix comprou a Millarworld, é muito provável que isso um dia venha a acontecer. A fórmula de fazer quadrinhos do britânico é uma linha tênue, acredito que Millar mais acerta do que erra em suas narrativas e Supercrooks é um acerto divertido e muito competente.

Supercrooks: O Assalto (Supercrooks)  — EUA, 2012
Roteiro: Mark Millar
Arte: Leinil Yu
Cores: Sunny Gho
Editora original: Marvel Comics
Datas originais de publicação: março a agosto de 2012
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: janeiro de 2017
Páginas: 132 Páginas

PEDRO CUNHA . . . Com corpo e alma de Hobbit, sou um eterno Padawan e aprendiz. Amigo dos ursos, dos elfos e das águias. Nativo de Krypton e apreciador da sétima, nona e de TODAS as artes. Quando tentado sempre rebato; "sou um Jedi, como meu pai antes de mim".