Crítica | Supergirl – 1X11: Strange Visitor From Another Planet

estrelas 3

Obs: Há spoilers. Leiam nossas críticas dos episódios da 1ª temporada de Supergirl, aqui.

Apesar dos problemas do episódio, que tratarei mais adiante, devo confessar que o coração bondoso, inocente e simplista (no bom sentido) desta série começa de verdade a ganhar espaço em meu próprio coração. Kara, vivida à perfeição por Melissa Benoist, é o mais completo estereótipo da alma bondosa, altruísta, que faz tudo por todos sempre e sabe como resolver os mais complexos problemas sentimentais sem que a personagem mesmo tenha muita experiência própria.

É como assistir a antítese da televisão atual em que tudo tem que ser sombrio, pesado e complexo para ser aceito. Supergirl é marcada por leveza mesmo quando aborda assuntos pesados como é o caso aqui do genocídio da raça de J’on J’onzz, um Marciano Verde, nas mãos dos Marcianos Brancos, que vemos em dolorosos flashbacks repletos de efeitos especiais que se esforçam, mas, em última análise, fracassam em sua tentativa de ser mais do que desenhos animados beirando o amadorismo, algo aceitável na televisão aberta ainda que haja exemplos muito melhores por aí. De toda forma, a computação gráfica básica não importa, pois o drama humano raso sem ser bobo agrada e cria uma conexão mais forte com o Caçador de Marte, melhor justificando sua existência na série.

Essa unidimensionalidade na protagonista, em circunstâncias normais, seria uma falha grave, pois isso retarda e até mesmo impede sua evolução narrativa – reparem como Kara é basicamente a mesma pessoa, episódio atrás de episódio -, além de tornar maniqueísta e tacanho o roteiro. No entanto, talvez por tentar emular uma era dos quadrinhos que não é “aceita”, notadamente a chamada Era de Ouro dos super-heróis, Supergirl consiga preencher uma lacuna que faz falta em meio a tantas outras séries do subgênero. Em outras palavras, os showrunners, ao simplificarem, parecem tentar encontrar um caminho próprio para a heroína e seus coadjuvantes, sem copiar em demasia a fórmula das suas séries irmãs. E, em sua modéstia e com muita graça e charme, a série vai realmente aos poucos aninhando-se em seu modesto lugar.

A narrativa principal de Strange Visitor From Another Planet gira em torno da chegada de um Marciano Branco que quer matar o último sobrevivente de Marte em meio ao comício da Senadora Miranda Crane (Tawny Cypress), que tem viés anti-alienígenas. A pegada política do episódio é para lá de desajeitada, com um roteiro pesado em metáforas tão óbvias que não vale nem a pena maiores comentários. A sub-trama que corre paralela à história principal lida com a chegada à cidade de Adam (Blake Jenner), filho de Cat Grant, em resposta à uma carta enviada por Kara em nome da chefe, mas sem que ela soubesse. Fica evidente que, tanto do lado fantástico quanto do lado humano, o mote narrativo é a família ou, mais exatamente, a perda da família, a separação. Novamente, o roteiro não se furta em martelar a mesma ideia a cada dez segundos ao longo de todo o episódio, algo que pode afugentar (com razão) os mais ressabiados.

Como se as duas tramas paralelas não fossem suficientes, Adam, de quebra, passa a ser interesse romântico de Kara, aumentando o triângulo amoroso já existente para um quadrilátero. Um pouco exagerado e corrido demais, demonstrando novamente uma necessidade quase doentia de abordar romance em todo o episódio, nem que para isso ele tenha que ser marretado na narrativa.

Supergirl tem uma vantagem além da “inocência e pureza”, vantagem essa que mencionei em crítica anterior: os showrunners têm sabido fugir da estrutura rasteira de “vilão da semana”, disfarçando-a sob pretextos diferentes, como é o caso aqui com o Marciano Branco. Ainda que tenhamos que aceitar uma péssima lógica interna em que uma agência especializada em extra-terrestres cai duas vezes no exato mesmo truque do vilão (ele por duas vezes se transforma em Miranda Crane e por duas vezes os agentes manés caem na esparrela) e narrativa corrida, o roteiro sabe introduzir a ameaça como uma decorrência natural da história maior, disfarçando o “vilão da semana” no processo. Está funcionando. Pelo menos por enquanto.

No entanto, toda essa boa-mocice, toda essa timidez e toda essa incerteza sobre que estrutura adotar tem impedido que a temporada alce voos mais ambiciosos. Muitos argumentarão que é injusto esperar “algo mais complexo de uma série como essa”, mas minha tendência pessoal é sempre esperar o melhor, sempre querer o melhor. E o potencial em Supergirl está lá sim, escondido debaixo de um monte de sucata sentimentaloide e personagens unidimensionais que poderiam ser explorados de maneira fascinante se os showrunners arriscassem um pouquinho mais.

É uma pena que a alta audiência de um público que está satisfeito simplesmente em ver seu super-herói favorito na telinha, seja da forma que for, provavelmente impedirá que Supergirl alcance seu potencial. Espero estar errado, porém, já que me afeiçoei à série.

Supergirl 1X11: Strange Visitor From Another Planet (EUA, 2016)
Showrunner: 
Andrew Kreisberg, Greg Berlanti, Ali Adler
Direção: Glen Winter
Roteiro: Michael Grassi, Caitlin Parrish
Elenco: Melissa Benoist, Mehcad Brooks, Chyler Leigh, Jeremy Jordan, David Harewood, Calista Flockhart, Peter Facinelli, Laura Benanti, Jena Dewan Tatum, Chris Vance, Peter Mackenzie, Malina Weissman, Eric Steinberg, Aaron Lustig, René Ashton, Henry Czerny, Blake Jenner, Tawny Cypress
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.