Crítica | Supergirl – 1X13: For the Girl Who Has Everything

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estrelas 4

Obs: Há spoilers. Leiam nossas críticas dos episódios da 1ª temporada de Supergirl, aqui.

Não posso ainda afirmar com todas as letras que o episódio anterior, Bizarro, foi um ponto fora da curva e que Supergirl começou a mostrar sinais de amadurecimento, pois a história em que For the Girl Who Has Everything foi baseada é uma das mais famosas, celebradas e melhores de Superman, escrita por ninguém menos do que Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons, a dupla que, nem bem um ano depois de lançar Para o Homem Que Tem Tudo, chocaria o mundo dos quadrinhos com Watchmen. No entanto, a mera coragem – ou seria melhor qualificar como “audácia”? – dos showrunners em trazer essa história, trocando de protagonista e, ainda por cima, muito cedo na série, já fez por merecer meu respeito.

E o melhor é que, sem ser escravo do material fonte, Ted Sullivan e Derek Simon, com base em tratamento escrito por Andew Kreisberg, criaram um roteiro que consegue ser ao mesmo tempo reverente e suficientemente dentro da mitologia estabelecida para Supergirl até agora que chega a parecer algo realmente criado para a série. O resultado? Bem, o resultado talvez seja o melhor episódio até agora, quiçá o melhor de toda a temporada.

Como foi visto no epílogo de Bizarro, Kara é atacada em seu apartamento por uma estranhíssima “planta” (Black Mercy ou, em português, Clemência Negra) que acabara de sair de um casulo. Quando For the Girl Who Has Everything começa, nós vemos a heroína acordando em Krypton, confusa, com um robô enfermeiro flutuando próximo a ela, aparentemente depois de se recuperar da febre Argo, conforme Allura, sua mãe, lhe conta em seguida. A dúvida que se estabelece é o que é sonho/alucinação: Krypton ou os 12 anos de Kara na Terra?

Mas o roteiro não perde tempo mantendo esse suspense bobo – assim como Alan Moore também não nos deixa em dúvida por mais de uma página -, e foca na luta inicial de Kara para tentar manter a Terra em sua memória, já que, na medida em que seu transe progride, mais ela efetivamente “entra” na história fictícia, e também na luta de Alex para salvar sua irmã, fazendo o que for necessário no processo, inclusive ouvindo conselhos de Astra e arregimentando a ajuda de Maxwell Lord.

O que é particularmente interessante nesta adaptação é que Sullivan e Simon não perdem o humor que marca a série e os dois criam uma terceira sub-trama que lida com Cat Grant, ranzinza e intolerante com Kara depois que ela deu um fora em seu filho Adam, ameaçando demitir a sumida moça caso ela não volte ao trabalho imediatamente. Isso força Hank Henshaw/J’onn J’onzz a usar seus poderes para transformar-se na versão civil de Kara, tendo que lidar diretamente com Cat. Se a interação da “Kara normal” com “Cat metida” já era mais do que interessante, a interação da “Kara marciana” com “Cat vingativa” é hilária e quebrou, no bom sentido, a gravidade das demais tramas. Uma pena que não houve mais tempo hábil para focar nesses momentos que, tenho certeza, o Caçador de Marte jamais esquecerá.

A inteligência do roteiro se mostra presente ao usar aquilo que Alan Moore não pode usar em sua história: o fato de Kara lembrar-se de Krypton, algo que seu primo Kal-El obviamente não poderia fazer. Com isso, a narrativa dos quadrinhos, que ganha um “mundo perfeito” muito bom, mas em última análise estranho para o leitor, abre espaço para um roteiro que se utiliza de tudo o que já foi exposto aos espectadores sobre Krypton ao longo dos 12 episódios anteriores, incluindo Alura, Astra, Zor-El (Robert Grant vivendo o pai de Kara) e, claro, o jovem Kal-El (Daniel DiMaggio) que faz uma ponta fan service sem maiores consequências (ainda bem!), o que aumenta o grau de perda da personagem quando ela finalmente consegue desvencilhar-se dos tentáculos tentadores da Clemência Negra.

Outro ponto positivo do capítulo é a convergência completa dos personagens. Ao retirar Supergirl da equação, todos os coadjuvantes migram para a narrativa de maneira orgânica e fluida, sem maiores esforços ou artifícios desconexos. Todos têm sua função clara e bem estabelecida (ok, Jimmy Olsen continua não servindo para muita coisa e Winn dando um banho nos especialistas do DEO ao descobrir o plano de Non é um pouco demais, mas tudo bem…) e trabalham em uníssono em uma direção apenas, sem que seja necessária a construção de bobagens românticas ou dramalhões exacerbados.

No meio disso tudo, Melissa Benoist brilha vivendo duas versões inéditas de seu personagem: Kara Zor-El em Krypton e Kara Marciana civil na Terra. A atriz, que sem dúvida é o grande destaque da série (que, a bem da verdade, mas sem desmerecer a moça, não tem tantos destaques assim), definitivamente mostra a que veio convencendo a cada segundo em que aparece em tela encarnando variações de Kara, com especial destaque para a super-desengonçada e formal versão marciana na CatCo. A latitude da jovem atriz, claro, está restrita ao seu papel que raramente ganha roteiros acima da média, mas, nas poucas vezes em que isso acontece – e For the Girl Who Has Everything é o exemplo máximo até agora – ela sabe aproveitar completamente, indo além do que lhe é exigido. Sua Kara kryptoniana perdendo primeiro suas ligações com a Terra e, depois, tendo que abrir mão novamente de suas ligações com Krypton emociona genuinamente, mostrando que, por trás do rostinho bonito e do enorme escudo colorido no peito, há uma atriz em discreta ascensão.

Mas, nesse mundo perfeito criado pela Clemência Negra, nem tudo são flores. Há correria demais no episódio, com uma história que poderia – deveria! – ter sido dividida em duas partes para que fosse possível desenvolver melhor os conceitos ali presentes, além de dar mais espaço para Benoist e também para Chyler Leigh, também ótima como uma desesperada Alex. Com o exagero na ação, alguns momentos acabam artificiais demais, como a velocidade com que Alex perde as estribeiras e começa a descumprir regra atrás de regra em prol de sua irmã adotiva e toda a trama forçada envolvendo Non e o irritantemente secreto plano Myriad. Nem mesmo há tempo para uma luta decente e catártica entre ele e Kara. No entanto, o ponto mais baixo é mesmo a pancadaria krypto-marciana entre J’onn J’onzz e Astra ser interrompida pelo “sabre de luz ninja” que Alex tira do nada e transpassa a tia de Kara. Pareceu-me bobo, exagerado, totalmente fora da personagem de Alex, além de trazer informação demais (o marciano assumindo a culpa, a raiva de Non…) para o encerramento de um já repleto episódio. Mesmo que ela venha a ser revivida de alguma forma – afinal, ninguém morre nos quadrinhos e em séries de super-heróis -, o momento quase põe o episódio a perder (está bem, confesso que estou exagerando…).

For the Girl Who Has Everything é o tipo de episódio que deveria ser o padrão em uma série como essa. Oferece mais do que meras bobagens e mostra que não há só chimpanzés datilografando máquinas de escrever nos bastidores. Mesmo considerando que o material fonte é de um dos maiores nomes dos quadrinhos, o que, na verdade, e uma faca de dois gumes, o episódio tem identidade própria e faz quase perfeito uso da mitologia da série, ainda que ele tivesse se beneficiado de muito mais calma e tranquilidade na execução.

Supergirl 1X13: For the Girl Who Has Everything (EUA, 2016)
Showrunner: 
Andrew Kreisberg, Greg Berlanti, Ali Adler
Direção: Dermott Downs
Roteiro: Ted Sullivan, Derek Simon (baseado em história de Andrew Kreisberg)
Elenco: Melissa Benoist, Mehcad Brooks, Chyler Leigh, Jeremy Jordan, David Harewood, Calista Flockhart, Peter Facinelli, Laura Benanti, Jena Dewan Tatum, Chris Vance, Peter Mackenzie, Malina Weissman, Eric Steinberg, Aaron Lustig, René Ashton, Henry Czerny, Blake Jenner, Tawny Cypress
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.