Crítica | Supergirl – 1X20: Better Angels

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estrelas 1

Obs: Há spoilers. Leiam nossas críticas dos episódios da 1ª temporada de Supergirl, aqui.

Não consigo aceitar que os showrunners de Supergirl conceberam um arco macro, cobrindo toda a temporada e envolvendo os kryptonianos de Fort Rozz e o secretíssimo plano Myriad somente para resolvê-lo com uma mais do que piegas mensagem de esperança transmitida a todos os habitantes de National City pela heroína e seus amigos em menos de 10 minutos no começo do episódio de encerramento. Chega a ser uma brincadeira de mau gosto com os espectadores, que foram tratados como criancinhas inocentes em uma narrativa que não tem qualquer credibilidade, suspense ou mesmo um mínimo traço de dramaticidade.

Foram 20 episódios – vejam bem: 20! – de vilões da semana com figurinos que nem cosplayers de primeira viagem fariam, romances de revirar os olhos, efeitos especiais de fundo de quintal e infinitas menções ao Superman para que a resolução final tenha sido essa bobagem que não daria estofo nem para histórias da Era de Ouro de Superman e Supergirl. Seria bem mais honesto se a série tivesse abraçado o formato “vilão da semana” de vez, sem que houvesse um plano maquiavélico maior por trás para prender o espectador. Seria também mais honesto descambar para o romance Barrados no Baile de uma vez, sem criar uma tentativa patética de uma história unificada com vilões misteriosos como Astra e Non. A conclusão a que chego é que ou os showrunners começaram a temporada sem fazer ideia como iriam acabá-la ou eles são só apenas péssimos showrunners mesmo…

Afinal, mesmo que pudéssemos perdoar o desfecho do “arco Myriad” em 10 minutos, não dá para aceitar o que vem depois, com Non, influenciado por Indigo (sou só eu ou aquele figurino dela é constrangedor de ruim?), resolvendo simplesmente matar todos os humanos do mundo, ferindo de morte a lógica do plano original de Astra, que ele, poucos minutos antes, desejava homenagear indo até o fim com a hipnose geral. Isso mostra o quão Non é um vilão inoperante e completamente deslocado da narrativa, um literal zero à esquerda que nunca mostrou a que veio, novamente cortesia de showrunners que só esporadicamente acertaram de verdade, como foi o caso em For the Girl Who Has Everything, Falling e Manhunter.

E, com a trama mais urgente e literalmente mais mortal colocada em funcionamento imediatamente após o encerramento do arco maior, o episódio estranhamente pisa nos freios e faz Kara voltar normalmente ao seu trabalho diário como assistente de Cat Grant, como se nada tivesse acontecido. Aliás, como se nada tivesse acontecido não, pois o roteiro faz a ótima Melissa Benoist passar por momentos absolutamente constrangedores ao retratar Kara, depois que Maxwell Lord lhe diz o óbvio, ou seja, que ela tem poucas chances de sobreviver, despedindo-se de cada um de seus amigos em sucessão, em um dos mais patéticos artifícios para se estender um episódio que já testemunhei em todos esses anos de indústria vital. Revirar os olhos foi pouco. A vontade que deu – quase incontrolável – foi de clicar no fast foward para minimizar a tortura, a vergonha alheia.

Mas o roteiro esburacado vai muito além de momentos como esse. Robert Rovner e Jessica Queller nos pedem para que aceitemos que Superman é carta fora do baralho (custava inventar uma desculpar melhor qualquer?); que o Caçador de Marte fica ferido e deixa de ficar ferido de uma sequência para outra, de acordo com a conveniência da história; que Indigo, um ser que pode se transformar em bits e bytes morre ao ser rasgada ao meio; que o General Lane está satisfeito ao deixar J’onn J’onzz apenas algemado em uma sala comum; que agora a mitologia do Superman/Supergirl não permite que os kryptonianos voem no vácuo por faltar oxigênio e empuxo; que Alex, de repente, não é mais fora da lei e que Supergirl consegue derrotar Non em uma competição de “quem pisca primeiro”… Bem, acho que vocês entenderam, não é mesmo? O roteiro é uma colcha de retalhos mal remendada que não se sustenta nem depois do mais pueril e simplista escrutínio. É como se o objetivo, aqui, fosse mostrar à CBS, de uma vez por todas, que a série não merece ser renovada.

Se o leitor estiver achando que minha avaliação é muito severa, deixe-me então analisar duas breves linhas de diálogo:

Maxwell Lord (explicando o plano B de Non): É como usar uma Uzi em um mosquito.
Alex: E nós somos o mosquito.

Não, Alex, nós somos a Uzi… Repararam na infantilidade da coisa? Não só a comparação que Maxwell Lord faz depois de uma longa e detalhada explicação é absolutamente desnecessária e redundante, como o didatismo do “nós somos o mosquito” de Alex é a prova cabal que os showrunners acham seus espectadores ignorantes o suficiente – ou com uma idade não superior a sete anos – para ter que explicar a eles que, nessa bela e original metáfora, os humanos se equiparam ao mosquito e não à famosa submetralhadora israelense. Haja paciência, não é mesmo?

Mas chega de demolir o episódio. Afinal, tem coisa que preste nele, não? Humm, talvez… Procurando bem lá no fundo, pode ser.

Há sim, na verdade. Os efeitos especiais, aqui, foram bem superiores a tudo o que veio antes. Desde a luta entre Supergirl e Alex (se, claro, aceitarmos o providencial exoesqueleto que a faz ficar tão forte quanto a irmã e que tem kryptonita que – pasmem – liga e desliga!) passando pela luta final envolvendo a heroína, o Caçador de Marte, Indigo e Non, até Supergirl levantando Fort Rozz, tudo pareceu funcionar bem para uma série de TV, demonstrando, talvez, que a produtora tenha feito economia antes nesse quesito apenas para poder gastar um pouco mais no encerramento.

Falando em encerramento, o que foi aquele cliffhanger? Completamente desnecessário em primeiro lugar, mas, principalmente, tão externo à trama que pareceu algo imaginado no último segundo por roteiristas que se esqueceram que os showrunners haviam encomendado um final aberto. Justamente por parecer aleatório que ele não cria suspense e não levanta sobrancelhas de curiosidade. Ele apenas está lá gratuitamente, sem conexão aparente ao que veio antes para dar impressão de outra trama maior ainda. Só falta pular o Krypto lá de dentro…

Better Angels, infelizmente, encerrou a primeira temporada de Supergirl, uma série que prometia muito, de forma amadora e completamente desinteressante, anticlimática mesmo. Mesmo com todo o charme e capacidade de atuar de Benoist, não há quem aguente tanta bobagem em um lugar só.

Supergirl 1X20: Better Angels (EUA, 18 de abril de 2016)
Showrunner: Andrew Kreisberg, Greg Berlanti, Ali Adler
Direção: Larry Teng
Roteiro: Robert Rovner, Jessica Queller (baseado em história de Andrew Kreisberg e Ali Adler)
Elenco: Melissa Benoist, Mehcad Brooks, Chyler Leigh, Jeremy Jordan, David Harewood, Calista Flockhart, Peter Facinelli, Laura Benanti, Jena Dewan Tatum, Chris Vance, Peter Mackenzie, Malina Weissman, Eric Steinberg, Aaron Lustig, René Ashton, Henry Czerny, Blake Jenner, Tawny Cypress
Duração: 42 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.