Crítica | Superman – Entre a Foice e o Martelo

Não canso de repetir que, normalmente, os mais fascinantes exemplares de quadrinhos mainstream são aqueles que se passam em realidades alternativas, em cenários hipotéticos de “o que aconteceria se…”, permitindo grande latitude a seus criadores. Na DC Comics, essa verdade é particularmente mais saliente, com diversas grandes obras que marcaram a trajetória da editora e dos quadrinhos em geral caindo exatamente nesse contexto, bastando, para isso, lembrarmos de Batman – O Cavaleiro das Trevas, de 1986, Reino do Amanhã, de 1996 e Liga da Justiça – O Prego, de 1998, somente para citar alguns. Superman – Entre a Foice e o Martelo (Red Son no original, título intraduzível sem que se perca seus riquíssimos significados) é mais um dessa categoria e um dos mais fascinantes exemplos de como trabalhar esse tipo de narrativa.

Criada pelo escocês Mark Millar, a história parte de um conceito muito simples, mas com incríveis possibilidades: e se o foguete com Kal-El ainda bebê não caísse na zonal rural do Kansas, nos EUA, em 1938, mas sim em uma fazenda coletiva na Ucrânia, então debaixo do regime comunista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas? O desenvolvimento dessa premissa coloca Superman, que revela sua existência ao seu país adotivo na década de 50, como a grande arma da URSS durante a Guerra Fria, em uma premissa semelhante ao que o Dr. Manhattan significa para os EUA, em Watchmen. O herói, nesse início, mostra-se muito semelhante ao Superman clássico que conhecemos, mas defendendo, claro, os ideais soviéticos sob a tutela direta de Josef Stalin, o “homem de aço” da vida real.

Na medida em que a narrativa se desenvolve, com uma excelente mistura de fatos reais e ficção, como é o caso da morte de Stalin, o papel do Superman no contexto mundial vai sendo amplificado, com a expansão a passos largos do Pacto de Varsóvia que coloca os EUA como um dos últimos bastiões do capitalismo. A reversão da lógica atual é o grande charme desse cenário hipotético de Millar, assim como a introdução de outros heróis do panteão da DC, como a Mulher-Maravilha, Batman e, mais para a frente, o Lanterna Verde. Mas a grande oposição ao Superman fica mesmo com Lex Luthor, claro, aqui casado com Lois Lane.

Assim como vemos com Superman, Luthor ganha um desenvolvimento desde quando é um jovem adulto até sua idade avançada, sempre em constante embate de mentes. Se Superman deixa sua chegada ao poder subir-lhe à cabeça, com sua obsessão por transformar a Terra em um paraíso igualitário, Luthor é pragmático e tem apenas um objetivo: derrotar seu oponente. E não por qualquer razão altruísta ou humanitária, mas sim para sua própria satisfação, por negar-se a ser repetidamente derrotado pelo ser super-poderoso na sempre em expansão Cortina de Ferro. Essa rivalidade funciona para permitir conflitos físicos bem inseridos com a galeria clássica de vilões do Superman, começando por Bizarro, mas todos fabricados, de uma maneira ou de outra, por Luthor como uma reedição da Guerra Fria, substituindo o armamento nuclear por super-seres. É a entrada de Brainiac na narrativa que estabelece um ponto de virada que é explorado em detalhes no clímax da história, seguido de um epílogo fascinante em que vemos o que acontece depois da vitória de um dos lados.

Mas o roteiro de Millar não é perfeito e talvez não necessariamente por culpa dele. O tamanho da minissérie, composta de apenas três números, pode ter sido imposição da DC Comics, o que de certa forma obrigou o autor a fazer uso de atalhos. O primeiro e mais evidente deles é o uso de significativos pulos temporais entre um capítulo e outro, a ponto de uma edição lidar rapidamente com uma versão da origem do Batman soviético, com o futuro herói ainda criança, e outra já nos apresentar à sua versão adulta, uniformizada, invencível e, claro, anti-Superman. Millar faz o máximo para preencher as lacunas que esses saltos criam e, na maioria das vezes, ele acerta. No entanto, temos que aceitar algumas conveniências lógicas que permitem a hegemonia soviética sobre o mundo sem que Superman use de violência, como ele por diversas vezes afirma.

Um pouco da belíssima arte da minissérie.

Se já é muito complicado fecharmos os olhos para um Superman – no começo de sua carreira como herói do proletariado – que aceita o genocida Stalin no poder, inclusive, mais para frente, pontuando didaticamente que ele não é um assassino como seu antecessor, fica quase impossível acreditar que esse mesmo Superman, mesmo mais maduro, empregue aparelhos de lavagem cerebral implantados em dissidentes para manter o mundo em “paz”. A passagem de tempo impede que compreendamos completamente a lógica estabelecida por Millar que se esforça em demonstrar que esse Superman não é muito diferente do Superman cuja nave caiu no Kansas, ao mesmo tempo em que ele perpetua – de sua própria maneira – as barbaridades cometidas pelo ditador soviético.

Luthor, por outro lado, por ter uma construção muito simples, tem seu desenvolvimento lógico muito bem encaixado. Ele é apenas um super-gênio que deseja derrotar o Superman. Não há mudanças significativas em seu comportamento e suas demonstrações de superioridade – mesmo na derrota – funcionam organicamente até mesmo, por diversas vezes, como alívio cômico, mesmo que tenhamos que rir de Luthor matando jogadores de xadrez que perdem para ele na base da cadeira elétrica.

Os personagens coadjuvantes, em meio a esse embate de décadas, perdem também boa parte de seu desenvolvimento. Talvez fazendo referência à gênese do herói, em que Lois Lane era sempre a dama em perigo, sua versão da Terra-30 (essa é a designação oficial desse universo) é alguém que, por mais que pareça independente, não consegue desvencilhar-se de seu casamento com Luthor de um lado e de sua paixão secreta por Superman de outro, definindo-se pelos homens que a cercam e não por ela mesma. E a Mulher-Maravilha não é muito diferente, já que ela não é muito mais do que um peão, uma sidekick de Superman em suas missões de salvamento e no seu enfrentamento de Batman, personagem que acaba subaproveitado na trama.

Se o roteiro de Millar tem esses problemas, o mesmo não pode ser dito da excepcional arte de Dave Johnson e Kilian Plunkett no lápis, com arte-final de Andrew Johnson e Walden Wong e cores de John Higgins. A equipe artística, nessa minissérie, é irretocável e cada quadro, cada painel, cada página é uma pequena obra de arte daquelas que dá vontade de enquadrar e pendurar na parede.

Bebendo do inconfundível estilo da primeira animação do Superman pelos Estúdios Fleischer, Johnson e Plunkett reimaginam os ícones do universo DC como personagens ao mesmo tempo modernos e reminiscentes da Era de Ouro, com uma fusão de traços que traz à vida talvez o mais icônico Superman depois do personagem mais envelhecido que vemos em Reino do Amanhã. Como a história atravessa décadas, os artistas se dedicaram a espelhá-las não só em cada super-herói e coadjuvante que eles desenham – é particularmente fascinante ver a evolução de Lex Luthor -, como também na arquitetura e na tecnologia que abordam, mantendo um lado retrô muito bem vindo que se mistura de leve com detalhes steampunk. E, completando esse quadro, há as cores de Higgins que quebram o colorido dos uniformes clássicos, adaptando-os não só à temperatura de Moscou, como também ao clima geopolítico e as cores dos uniformes do exército stalinista. Somos convencidos de que o que estamos lendo é o Superman que existiria se os pais de Joe Shuster tivessem imigrado da Holanda para Stalingrado (por exemplo) e os de Jerry Siegel tivessem permanecido no que hoje é a Lituânia.

Entre a Foice e o Martelo é um belíssimo Elseworlds que merece figurar orgulhosamente na estante de qualquer leitor de quadrinhos. Uma obra que, longe de ser maniqueísta e mais longe ainda de ser simples, apresenta-nos à fascinantes possibilidades que, se não são executadas à perfeição, chegam bem próximas disso.

Superman – Entre a Foice e o Martelo (Superman: Red Son, EUA – 2003)
Contendo: Superman: Red Son #1 a 3
Autor: Mark Millar
Arte: Dave Johnson, Kilian Plunkett
Arte-final: Andrew Robinson, Walden Wong
Cores: John Higgins
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: junho a agosto de 2003
Editora no Brasil: Panini Comics
Datas de publicação no Brasil: abril a junho de 2004 (minissérie em três partes), junho de 2006 (encadernado), setembro de 2017 (encadernado de luxo)
Páginas: 172 (encadernado de luxo da Panini)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.