Crítica | Superman: Identidade Secreta

estrelas 5,0

Todos sabemos o quão difícil é escrever uma boa história do Superman. Estamos lidando com o primeiro (e maior) herói de todos os tempos, ele é super poderoso, e muitos roteiristas se perdem em todo esse poder. Kurt Busiek porém, faz mais que uma história, ele escreve uma grande homenagem ao mito que o personagem é na nossa cultura. Não nos é proposto algo baseado no Cânone do Herói, o que o roteirista apresenta pode ser considerado como um questionamento: como seria se o Superman fosse real?

Superman: Identidade Secreta tem uma premissa um tanto quanto diferente. Quando se vê o nome do Azulão estampado na capa do quadrinho, é natural a associação do herói com Clark, e de Clark com Kal-El. Todavia, é ai que as coisas começam a mudar, Identidade Secreta é um quadrinho sobre Clark e Superman, mas não é uma história sobre Kal-El.

Logo nas primeiras páginas somos apresentados a Clark Kent, um menino que mora em uma fazenda no Kansas e, pasmem, ele não veio para a terra em um foguete. Muito pelo contrário, o adolescente é muito normal, a sua única semelhança com o nosso já conhecido herói é apenas seu nome.

O quadrinho explica que os pais do menino eram fãs do Escoteiro e por isso decidiram por batizá-lo assim. Para Clark isso foi a pior escolha já feita por seus pais, o nome cai como uma maldição para a criança, todos seus “amigos” o irritam por causa disso, e quanto mais velho o garoto fica, mais raiva ele tem do Herói. Mas as semelhanças entre Kent e Kal não param por aí. Em uma noite, o menino acorda e está voando! E é ai que vemos uma história que não possuía muito brilho, passa a brilhar como o sol vermelho de Krypton.

Clark tem os poderes de Superman, ele é super forte, pode voar, tem visão de calor e todos os outros poderes que o Azulão possui. Quando pegamos todo esse poder e colocamos nas mãos de um adolescente, que está na idade cujo seu maior (e único) objetivo é obter atenção, é normal pensar “isso não vai dar certo!“. Mas ao contrário do que se pensa, o menino que odiava o Herói, agora vai se espelhar em um mito para agir com sabedoria na vida real.

Toda essa história se passa apenas na primeira edição do quadrinho, acompanhamos nas outras 3, fases diferentes da vida do menino. Vemos na segunda a puberdade, quando o nosso herói real escolhe uma profissão, e é óbvio que ele vai ser um escritor. É importante citar que ele se encontra, por causa de uma brincadeira de amigos, com Lois. Os dois se apaixonam, mas assim como na ficção, ter poderes atrai muita atenção de pessoas que não querem o bem, então Clark começa a se questionar sobre suas ações, e decide por agir no anonimato.

Kent ainda usa a roupa clássica do Superman, a “desculpa” que o roteiro usa é muito crível: quando ele salva uma pessoa, ela simplesmente fala a verdade. Fui salva pelo Superman! Isso é tão fora do normal que ninguém acredita nos relatos, e tudo é deixado de lado.

Nas edições seguintes vemos a fase adulta e a velhice do nosso amigo. Escrevo amigo pois, apesar de termos grandes saltos de tempo, é impressionante como Busiek nos coloca em uma posição de amigo do protagonista. Toda a história é narrada por Clark, então é fácil ser levado por toda a trama e, no final se sentir um grande amigo do Herói.

Se o roteiro é excelente, a arte e as cores de Stuart Immonen não ficam devendo, é apresentado algo diferente do que vimos nas atuais HQs, a arte é quase que fotográfica, não em seus traços, mas em sua cor e posição. Isso é algo muito interessante, se a intenção da dupla é passar a sensação de algo real, essa missão foi muito bem executada. Em todas as quatro edições vemos uma arte maravilhosa, que não erra na expressão e nem na ação.

A ação também é algo de destaque no quadrinho, não pelo excesso, mas sim pela falta dela. Isso está longe de ser uma crítica, a HQ nos leva à uma boa reflexão sobre as atuais publicações do ramo. Com a ambição de ser GRANDE, vemos roteiristas mirando em batalhas dantescas e sem propósito e esquecendo de desenvolver o enredo, afim de atrair a atenção e fazer o quadrinho vender cada vez mais. Porém Kurt Busiek nos mostra que, para ter uma bom arco, é preciso desenvolver, e isso não acontece dando socos na cara de alguém.

A HQ deixa de entregar muitas respostas no final, fica a dúvida de como Clark ganhou seus poderes. Espero que essas dúvidas não sejam tiradas à limpo, o mais legal de um conto é pensar sobre ele no final. Mesmo não se tratando de Kal-El, o quadrinho mostra exatamente como um fã do herói quer vê-lo. Kent é bom porque ele escolheu ser, ele não precisou ter um pai, mãe ou tio morto para fazer o bem. Clark, assim como Kal, é bom porque o mundo precisa que ele seja.

No final, Identidade Secreta se mostrou um dos quadrinhos mais reflexivos que já li, sempre disse que gosto do Superman porque ele é um herói que me faz refletir muito. Então, percebi ao terminar o quadrinho que eu, assim como todos os fãs do herói, sou como Clark, uma pessoa que está vivendo a vida real e que, busca sabedoria olhando para um Mito que é bom por natureza. O Superman é muito forte, mas nós não o admiramos por esse motivo, ele é admirado porque, mesmo sendo quem é, ele nunca deixou de ser Clark. E que nós nunca deixemos de ser Clark também.

Superma: Identidade Secreta (Superman: Secret Identity) — EUA, 2004
Roteiro: Kurt Busiek
Arte: Stuart Immonen
Cores: Stuart Immonen
Letras: Marcos Valério da Silva
Editora original: DC Comics
Datas originais de publicação: 2004
Editora no Brasil: Superman: Identidade Secreta (Panini Comis, Janeiro de 2005 )
Páginas: 196 (aprox.)

PEDRO CUNHA . . . Com corpo e alma de Hobbit, sou um eterno Padawan e aprendiz. Amigo dos ursos, dos elfos e das águias. Nativo de Krypton e apreciador da sétima, nona e de TODAS as artes. Quando tentado sempre rebato; "sou um Jedi, como meu pai antes de mim".