Crítica | Superman II – A Aventura Continua

estrelas 3

Superman II (não tenho a menor intenção de usar o ridículo subtítulo nacional) foi filmado em conjunto com o primeiro filme, mas a produção como um todo famosamente passou por diversos percalços, o mais importante deles sendo a briga de Richard Donner, o diretor, com os Salkind, produtores da obra, levando à interrupção das filmagens de sequências que seriam usadas na continuação e a demissão de Donner. Enquanto o longa original não sofreu com os problemas graças ao primoroso trabalho de Donner, Tom Mankiewicz (que refez o roteiro) e, claro, de Christopher Reeve, sua segunda parte acabou sendo afetada.

Com Donner defenestrado, Mankiewicz se recusou à voltar para a continuação (apesar de ter mantido seu crédito de “consultor criativo”) e Stuart Baird, o montador original, também pediu demissão. Até mesmo Gene Hackman, que há havia filmado grande parte das cenas que seriam usadas, recusou-se a continuar trablhando, sendo substituído por um dublê de corpo (vejam com calma e perceberão quando não é Hackman diante das câmeras). E, como se isso não bastasse, Marlon Brando que tinha participação na bilheteria dos dois filmes, ajuizou uma ação contra os Salkind por ter recebido a menos pelo primeiro filme, levando os produtores a cortá-lo completamente da continuação (apesar de as sequências todas com ele terem sido filmadas), substituindo-o por Susannah York no papel de Lara, mãe de Kal-El. Em outras palavras, um pandemônio total, apesar do enorme sucesso do original em 1978.

Mesmo com essa enorme confusão, o resultado final é bom, enquanto podia ter sido muito bom, talvez até mesmo excelente. Partindo do preâmbulo de Superman – O Filme, em que vemos Jor-El (Brando) banindo os vilões General Zod (Terence Stamp), Ursa (Sarah Douglas) e Non (Jack O’Halloran) para a Zona Fantasma, Superman II começa com sua libertação em razão da explosão no espaço do elevador da Torre Eiffel cheio de explosivos que Superman arremessa longe. Não demora e os três kriptonianos, percebendo os poderes que recebem em razão dos efeitos do sol amarelo sobre sua fisiologia, partem para dominar a Terra, algo que conseguem sem muito esforço. Superman, por sua vez, depois que Lois Lane (Margot Kidder) descobre sua identidade durante uma investigação jornalísticas nas Cataratas do Niágara, abdica de seus poderes usando um aparelho de sua Fortaleza da Solidão, somente para retornar à civilização e descobrir tudo dominado por Zod.

A premissa da história é excelente e a presença maquiavélica de Zod, com a ajuda (exageradamente) cômica de Lex Luthor (Gene Hackman), que escapa da penitenciária, funciona bem se desculparmos os exageros histriônicos de Stamp e Hackman. A direção de Richard Lester, contratado às pressas no lugar de Donner, claramente altera o tom da história para algo mais leve, mais pastelão até, algo presente no roteiro original de Mario Puzo que Mankiewicz mexeu fortemente. Como ele foi obrigado a refilmar diversas sequências para poder receber créditos totais de direção conforme as regras do Sindicato dos Diretores (75% do filme já havia sido filmado por Donner), a mudança tonal é sentida tanto nas sequências em Niágara, quanto durante o embate e no encerramento da fita. Lester toma liberdades enormes com a mitologia do personagem, criando o infame “celofane da morte” no clímax e o conveniente “beijo do esquecimento” para fazer Lois reverter ao status quo anterior à descoberta do grande segredo do herói. São momentos que doem no coração, de tão mal pensados e estruturados, literalmente inserido às pressas para suprir faltas que poderiam ter sido melhor trabalhadas no roteiro sem invencionices sem sentido.

Mas os problemas de Superman II não se limitam aos que apontei acima, longe disso. O original foi um marco no uso de efeitos visuais em uma era pré-digital, ao ponto de levar um merecido Oscar especial nessa categoria. O avanço tecnológico realmente foi extraordinário, como tive oportunidade de abordar na crítica anterior, mas, claro, limitado à capacidade da época.  A premissa de Superman II – o combate entre o herói e três seres tão poderosos quanto ele – acaba deixando mais evidente essas limitações e enfraquece sobremaneira o miolo da projeção. Ainda é muito interessante ver até que ponto vai a criatividade da equipe técnica para tentar nos convencer não só que um homem pode voar, mas que pode também lutar voando. Se mesmo hoje em dia, com toda a evolução do CGI, fazer um filme live action dependente de voos de humanos não é uma tarefa simples, com vários exemplos tenebrosos por aí, imagine vocês em 1979, quando a produção recomeçou? A beleza singela dos voos de Christopher Reeve torna-se um problema quando há interação aérea entre ele e seus inimigos. A sobreposição de imagens fica mais evidente, o trabalho de cabos torna-se mais aparente e menos eficiente (Stamp, Douglas e O’Halloran não conseguem se aproximar do finesse de Reeve “voando”) e o resultado final mostra a idade do filme muito claramente.

Apesar de todos os problemas, Superman II está longe de ser um filme ruim. Muito ao contrário, na verdade, é bom, ainda que desaponte em comparação com seu sucessor (mas aí é covardia, não é mesmo?). O conflito interno do personagem entre a humanidade e a figura do messias é fortemente ampliada aqui e Reeve consegue criar uma terceira persona. Se ele já havia sido perfeito como o bobalhão Clark Kent e o heroico Superman, aqui ele cria o “Superman sem o super”, um misto extremamente convincente entre os dois personagens anteriores. Mesmo sem curvar as costas, depois de abrir mão de seus poderes e colocar um litro de gel no cabelo, vemos em seu magnífico semblante partes iguais dos dois lados da mesma moeda, em mais uma demonstração de como o saudoso autor é e sempre será o Superman definitivo.

Do lado dos super-vilões, a forma como o roteiro consegue criar um movimento circular em relação ao que vemos no início do primeiro filme é de se aplaudir. Jor-El expulsa de seu planeta a maior ameaça a seu próprio filho, que precisa tornar-se finalmente o pai para resolver o problema. É, de certa forma, a continuação da Jornada do Herói do primeiro filme, com o atingimento da maturidade super-heroística de Superman ao enfrentar seus medos e ao humanizar-se completamente.

Superman II poderia ter sido muito mais do que foi (e acabou sendo, mas não tanto, na versão de Richard Donner, mas isso fica para outra história), mas mesmo assim não desaponta completamente e acaba sendo uma agradável e eficiente aventura do mais famoso super-herói de todos os tempos. É um filme cujo potencial podemos entrever escondido atrás dos problemas da produção e que ficará na mente de quem o assistir com o espírito correto.

Superman II – A Aventura Continua (Superman II, EUA/Reino Unido – 1980)
Direção: Richard Lester
Roteiro: Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman
Elenco: Christopher Reeve, Gene Hackman, Terence Stamp, Margot Kidder, Ned Beatty, Jackie Cooper, Sarah Douglas, Jack O’Halloran, Valerie Perrine, Susannah York, Clifton James, Marc McClure, E.G. Marshall
Duração: 127 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.