Crítica | Superman II – O Corte de Richard Donner (2006)

estrelas 3,5

Assistir o corte de Richard Donner de Superman II é um privilégio cinematográfico. Não necessariamente por sua qualidade, vejam bem, mas sim pela raridade do que essa versão representa. Raras vezes um filme foi tão transformado depois da saída de seu primeiro diretor quanto este e mais raras vezes ainda foi possível resgatar o conceito original e, ainda por cima, sob os auspícios do próprio diretor original. O mais próximo disso que consigo lembrar foi com o Assembly Cut de Alien 3, mas, mesmo assim, lá não houve a bênção de David Fincher.

A briga de Richard Donner com os Salkind durante as filmagens de Superman – O Filme e Superman II foi famosa e dilacerante para a continuação. Fiz comentários detalhados sobre o ocorrido nas críticas respectivas, cuja leitura convido-os a fazer e não os repetirei aqui para evitar tornar o texto muito longo. Fato é, porém, que a saída de Donner fez ruir quase que integralmente a produção do segundo filme, que foi paralisada até a contratação de Richard Lester como diretor e a necessidade de se refilmar várias sequências (por questões do Sindicado dos Diretores) e a mais do que sentida saída do consultor criativo Tom Manciewicz, que acompanhou Donner.

E as diferenças do que acabou sendo e o que poderia ter sido são gritantes. São tantas que o “Corte de Richard Donner” é praticamente outro filme, tanto que elegi escrever uma crítica separada de forma a melhor abordá-las.

Essa experiência cinematográfica peculiar – que recomendo a todos os cinéfilos de plantão – começou no ano 2000, com a restauração do negativo do filme original para lançamento em DVD, por Michael Thau. Ele esboçou interesse em remontar Superman II de forma a torná-lo mais próximo da visão de Donner. No entanto, o projeto acabou engavetado pelas dificuldades intrínsecas, pelo razoável desinteresse sobre o Superman à época, que passara por diversos projetos cinematográficos que não haviam decolado e, principalmente, pela perda das sequências com Marlon Brando filmadas para Superman II e cortadas integralmente pelos Salkind em razão de uma ação judicial movida pelo ator sobre seu milionário cachê.

Eis que, milagrosamente, durante o processo de projeto do que viria a ser Superman – O Retorno, as filmagens perdidas foram encontradas, permitindo que Bryan Singer as usasse parcialmente em seu reboot light, reacendendo o interesse de Thau e fazendo com que Richard Donner e Tom Manciewicz, ainda que hesitantemente (eles negaram o primeiro pedido) voltassem à sua obra para fazer jus ao trabalho da década de 70. Havia problemas legais, já que, tecnicamente, as cenas encontradas eram de propriedade dos Salkind e havia, obviamente, a questão da utilização da interpretação de Brando, essencial à visão do diretor, mas todos foram ultrapassados com o tempo.

O resultado do trabalho é absolutamente magnífico. E não, novamente não estou falando da qualidade em si do filme resultante (já chego lá), mas sim do quão diferente são as duas obras. A versão de Donner deixa muito claro que é uma continuação orgânica e direta de Superman – O Filme, ao mesmo tempo que distancia o Superman II de Lester desse posto. O primeiro e mais chamativo elemento que justifica minha afirmação vem da suavização do tom pastelão que Lester trouxe ao seu filme. Na versão de Donner, ele praticamente fica confinado à fuga de Lex Luthor da prisão, que foi mantida quase em sua integralidade, por ter sido filmada assim mesmo (ou substancialmente assim) pelo próprio Donner antes da briga. Com isso, o drama de Clark Kent/Superman entre humanidade e super-humanidade fica mais saliente, mais grave, mas redondo.

E isso se deve, também, pela presença divina (no sentido literal) de Jor-El, nas tais sequências perdidas com Marlon Brando. A projeção astral (ou holograma) de Lara na Fortaleza da Solidão é completamente eliminada e o pai de Kal-El ganha intensíssimo foco após a descoberta, por Lois Lane (Margot Kidder em sequência muito mais eficiente e forte de descoberta do que na versão de Lester), do segredo do herói. Sua conversa com o pai, a forma como ele faz a escolha e, depois, a reversão da decisão com o pagamento de um alto preço, literalmente fazem dessa versão a melhor das duas, mesmo que esqueçamos todo o resto. Christopher Reeve tem seu grande momento aqui (e logo em seguida, mortal, tem novamente outra grande sequência no restaurante) e mostra como ele realmente é e sempre será o melhor Superman do cinema.

Outros dois aspectos importantes na versão de Donner é a criação de uma ponte perfeita entre os atos do pai e do filho. Jor-El condenou Zod (Terence Stamp), Ursa (Sarah Douglas) e Non (Jack O’Halloran) à prisão na Zona Fantasma ao começo de Superman – O Filme e, na versão de cinema de Superman II, o herói acaba sendo responsável pela libertação dos três, mas por evento completamente desconectado do primeiro filme (um ataque terrorista na Torre Eiffel). Na versão de Donner, a explosão nuclear do míssil que Superman desvia de New Jersey durante o primeiro filme é o causador da libertação da trinca kriptoniana, criando uma circularidade excelente ao roteiro se pensarmos nos dois filmes como dois capítulos de uma mesma história. Outro aspecto essencial à organicidade dessa versão do filme é a manutenção, logo no começo da projeção, da dúvida ensaiada de Lois Lane sobre Clark Kent ser Superman. Ela transforma uma foto de jornal do herói em Clark usando uma caneta e não tem mais dúvidas, jogando-se da janela para provar o fato. Assim, a sequência nas Cataratas do Niágara, não muito tempo depois, ganha mais corpo e relevância.

A reconstrução da visão de Donner exigiu a filmagem de sequências novas e a inserção de alguns efeitos especiais que foram trabalhados de maneira a se fundir com os efeitos da época e, também, o uso de sequências de testes de filmagem com Reeve que, claro, não pode novamente encarnar o herói (e sim, há lágrimas nos meus olhos no momento em que escrevo isso). Apesar de todos os esforços feitos para limpar as imagens, fica claro que elas estão visivelmente deslocadas em termos de qualidade. Mas, novamente, isso faz parte desse magnífico processo que foi a reconstrução de Superman II.

A ação principal – o embate entre Superman e os três criminosos kriptonianos – não muda em quase nada e o problema dos efeitos especiais que detectei na crítica anterior permanecem. Não havia mesmo muito a fazer, já que essas sequências foram originalmente filmadas por Donner e carregam as limitações técnicas da época.

Se a visão de Donner (e de Manciewicz) tivesse parado no momento em que os vilões são derrotados na Fortaleza da Solidão (sem “celofane da morte”, aleluia!) e em que Superman destrói a fortaleza e leva Lois de volta para casa, forçando-se a separar-se dela para sempre e levando-a a prometer jamais revelar sua identidade (sem “beijo do esquecimento”, aleluia duas vezes!), o corte do diretor certamente ganharia uma avaliação melhor, talvez quatro estrelas. No entanto, Donner volta à ideia original de Manciewicz  que fazia os vilões destruírem a Terra e Superman voltar no tempo para reverter os efeitos e acaba de forma idêntica a Superman – O Filme: o herói volta no tempo e apaga tudo o que aconteceu.  Foi, definitivamente, uma péssima escolha, pois esse já é o final do primeiro filme e Donner talvez pudesse ter podado seus impulsos e permitido que sua versão do segundo filme se tornasse, talvez, a verdadeira continuação. Do jeito que ficou, não dá para, dramaticamente, para levarmos em consideração a mesma solução duas vezes. Caso contrário, toda a trama com Superman poderá então ser resolvida com esse expediente, algo que só realmente funciona no filme original pela dor que Superman sente e a impotência diante de mais uma morte (a primeira foi a de seu pai adotivo, claro).

Superman II – O Corte de Richard Donner é filme obrigatório para todo cinéfilo que quiser entender mais sobre os meandros de uma produção cinematográfica. É como um tesouro a ser guardado com carinho pelo que ele efetivamente representa para a Sétima Arte como objeto de estudo. E, de quebra, ainda consegue ser um bom filme!

Superman II – O Corte de Richard Donner (Superman II – Richard Donner Cut, EUA/Reino Unido – 1980)
Direção: Richard Donner
Roteiro: Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman, Tom Manciewicz
Elenco: Christopher Reeve, Marlon Brando, Gene Hackman, Terence Stamp, Margot Kidder, Ned Beatty, Jackie Cooper, Sarah Douglas, Jack O’Halloran, Valerie Perrine, Clifton James, Marc McClure, E.G. Marshall
Duração: 116 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.