Crítica | Superman III

estrelas 2,5

Depois do sucesso dos dois primeiros filmes, era óbvio que uma outra continuação de Superman – O Filme, não demoraria a chegar. No entanto, o resultado é no máximo bipolar, realmente estranho em tonalidade e completamente fora da mitologia já estabelecida do personagem.

Richard Lester volta à direção, depois de entrar à bordo de Superman II em fase adiantada, e, com o roteiro de David e Leslie Newman, escrito depois de um tratamento de Ilya Salkind que foi rejeitado pela Warner Bros., faz aquilo que ele e também Mario Puzo queriam fazer anteriormente: uma comédia pastelão com o Superman. E a cereja nesse duvidoso bolo é a mais do que improvável contratação do comediante Richard Pryor não como um personagem menor, subsidiário, mas sim como alguém que praticamente divide o tempo de tela com Christopher Reeve, em uma daquelas decisões de produções cinematográficas que desafiam explicações.

Com isso, o tom da película já é estabelecida no tenebroso prólogo em que vemos uma sucessão de gags pretensamente engraçadas acontecendo em Metrópolis que funcionam para introduzir o desempregado Gus Gorman (Pryor) e reapresentar Clark Kent, Superman (Reeve) e, claro, Perry White (Perry White), Lois Lane (Margot Kidder) e Jimmy Olsen (Marc McClure), somente para não muito depois, eliminá-los quase que completamente da narrativa. O foco fica, então, dividido entre as trapalhadas de Gus, que consegue o emprego em uma empresa de computação e revela-se como um gênio na área, sendo manipulado por Ross Webster (Robert Vaughn tentando canalizar Gene Hackman como Luthor, mas fracassando), e a volta de Clark Kent para Smallville e seu semi-romance idílico com Lana Lang (a bela Annette O’Toole).

Mais problemático até do que o tom pastelão gratuito do filme, é o roteiro dos Newman que não sabe para onde vai. Só para se ter uma ideia, a fita fica em um marasmo inaceitável ao longo de pouco mais da metade do tempo, quando então, finalmente, os caminhos de Gus, Ross Webster e Superman se cruzam. Essa lerdeza na progressão narrativa, então, desnecessariamente alonga a duração do filme, arrastando as histórias em diversos momentos e deixando à mostra o vazio narrativo que a produção sofre.

No entanto, deixando as escâncaras a bipolaridade que mencionei, de repente tudo muda e o espectador é brindado com uma mudança drástica de tom, quando Superman é exposto aos efeitos da kriptonita vermelha, ou, na verdade, da kriptonita verde artificial com um pouco de alcatrão, que substitui o elemento desconhecido na formação da substância que enfraquece o herói. Com isso, vemos Christopher Reeve, mais uma vez, reinventando seu personagem (é a quarta versão de Clark Kent/Superman que ele faz, com as três primeiras sendo, claro, Clark Kent, Superman e o Superman sem poderes de Superman II) e criando a versão má de Superman. Bem, tecnicamente, ele não é exatamente mau, mas sim, humano, com todas as nossa fraquezas. Reeve mais uma vez merece aplausos nesses 20 minutos em que o foco é só nele e nesse “novo” herói que desentorta a Torre de Pisa, causa um derramamento de petróleo no meio do Atlântico, usa amêndoas como balas, bebe e transa com uma loira voluptuosa.

É absolutamente divertido ver essa performance e, muito sinceramente, ela vale ter que assistir Superman III em sua integralidade. E o melhor é que o roteiro não encontra uma solução mágica para o problema e faz com que as duas facetas de Superman lutem entre si em um épico embate psicológico em um ferro velho. Além disso, a fotografia ganha cores emudecidas e o uniforme do  Superman perde as cores, ficando em tonalidades mais sombrias que  combinam à perfeição com seu estado de espírito (e que, curiosamente, seriam usadas em Superman – O Retorno e O Homem de Aço sem função narrativa alguma). Se eu fosse julgar Superman III apenas pela fase má do herói, o filme provavelmente levaria avaliação máxima.

No entanto, infelizmente não é assim que a banda toca e, apesar do roteiro, depois que Superman se recupera da kriptonita adulterada nunca mais voltar ao tom bobalhão de assola a primeira metade, ele não chega a empolgar de verdade, além de usar expedientes cheios de clichê para gerar a luta final entre Ross, com ajuda de seu supercomputador criado por Gus e Superman. Se os Newman tivessem se esforçado nesses 30 minutos finais, o começo pastelão até poderia ser amenizado, mas não é isso que acontece.

Os efeitos especiais são bem trabalhados na produção, que, não tendo que lidar com combates aéreos como em Superman II, sabe equilibrar sobreposições de imagem com efeitos práticos bastante convincentes para a época. Vale especial destaque as sequências de voo simples e a transformação da irmã de Ross em robô.

Superman III tem boas ideias, mas elas acabam ficando soterradas pela tentativa de ridicularizar o Superman com um tom de comédia que nunca chega realmente a funcionar. Considerando a rica mitologia do personagem, muito admira que nada dela seja usada aqui e que o resultado seja desapontador.

Superman III (Idem, EUA/Reino Unido – 1983)
Direção: Richard Lester
Roteiro: David Newman, Leslie Newman
Elenco: Christopher Reeve, Richard Pryor, Jackie Cooper, Margot Kidder, Marc McClure,  Annette O’Toole, Annie Ross, Pamela Stephenson, Robert Vaughn, Gavan O’Herlihy
Duração: 125 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.