Crítica | Superman IV – Em Busca da Paz

estrelas 0,5

Quando comecei a empreitada de rever toda a trajetória de Superman, desde seu estágio embrionário no longínquo ano de 1933, tinha plena consciência que teria que passar novamente pelo suplício de assistir Superman IV – Em Busca da Paz, a última vez que Christopher Reeve vestiria o manto do personagem cuja versão cinematográfica definitiva ele ajudou a criar. Mesmo ainda adolescente, quando assisti à produção no cinema, minha percepção havia sido a pior possível e só mesmo meu senso de dever me fez sentar e tentar extrair alguma coisa boa da primeira produção do herói sem a participação dos Salkind, que passaram o manto para a finada Cannon Films dos míticos Menahem Golan e Yoram Globus.

E eu tentei. E tentei novamente. E depois mais uma vez. Confesso que saí frustrado da experiência, pois ela foi tão patética, tão abissal, tão ridícula que não consegui nem achar graça de momentos que poderiam ser involuntariamente engraçados ou mesmo vergonha alheia do pastiche a que o saudoso Reeve, que contribuiu com a “história” do filme, foi submetido.

Em resumo, Superman IV – Em Busca da Paz compete bravamente pelo posto de pior filme de super-heróis de todos os tempos com o tenebroso Batman & Robin, escapando por um triz de ficar no fundo do poço. E só porque eu, pessoalmente, sempre gostei muito de Christopher Reeve e qualquer filme com o ator merece pelo menos meia estrela no meu livrinho de anotações.

O roteiro, regurgitado por Lawrence Konner e Mark Rosenthal, que, por incrível que pareça, não têm só lixos tóxicos em seu currículo, ainda que nada acima do medíocre, é o equivalente cinematográfico à proverbial sala cheia de símios e máquinas de escrever: alguma hora alguma coisa minimante coerente sai. Toda a história pode ser resumida ao seguinte: “em meio à Guerra Fria que é resolvida por um Superman politicamente engajado, vilão cria clone nuclear do herói para enchê-lo de arranhões”. Pronto, é isso, mais nada.

A intenção de se encaixar a narrativa do Superman com a Guerra Fria (que não demoraria a acabar, vale notar) é até nobre, mas o roteiro é tão emburrecedor, tão idiotizante, que simplesmente induz ou ao sono ou à sucessivas reviradas de olhos e cliques no fast forward. É a versão “para gente muito burra” do conflito que manteve o mundo em impasse por décadas a fio a partir dos anos 50. Talvez fosse mais provável os símios da sala que mencionei criarem algo mais complexo do que a bobagem que Sidney J. Furie coloca na tela.

Falando em Furie, esse diretor que, de melhor em sua filmografia tem Águia de Aço, mostra toda sua incompetência em Superman IV. Na verdade, confesso que estou sendo maldoso. Não é exatamente incompetência, apenas mediocridade, com tomadas preguiçosas de câmera parada em planos gerais que não exigem nada do espectador e nem da equipe técnica. Mas vejam, Furie trabalhava com o “roteiro símio” de Konner e Rosenthal, além do orçamento padrão da Cannon Films, ou seja, algo como 10 dólares por dia de filmagem (com a expectativa de troco ao final de cada dia), já que a produtora nunca foi conhecida por esbanjar dinheiro. Confinado a essa situação kafkiana, poucos diretores seriam capazes de surpreender e Furie definitivamente não é um deles.

A presença do Homem Nuclear, criado por Lex Luthor (Gene Hackman, que provavelmente assinou o contrato sem ler o roteiro), é de chorar já em sua concepção. Afinal, com base no DNA de Superman, um clone loiro topetudo nasce depois de ser lançado ao sol (não tentem entender, pois não vale a pena) já adulto, vestido com uniforme com capa e uma letra N no peito, além de “unhas extensíveis”, com raiva do Superman e obediente a Luthor… Esqueceram de contratar um ator para o papel, pois Mark Pillow é uma vergonha à profissão e não pode ser caracterizado como tal, e o resultado, claro, é um dos vilões mais patéticos que singrou as telonas, concorrendo seriamente com Terl (John Travolta) de A Reconquista pelo posto máximo dessa categoria.

Mas nem tudo é uma porcaria, não é mesmo? Pelo menos os efeitos especiais, que tiveram a vantagem da frenética evolução técnica de cinco anos desde Superman III, são bons, obviamente. Não, não são mesmo. São ruins. Péssimos na verdade. Tão mal feitos que eles representam uma involução de algo como 30 anos, tudo diante do orçamento de ridículos 17 milhões de dólares que a produção teve à sua disposição. O uso do chroma key é um dos piores em grandes lançamentos, deixando à vista as “bordas” nos personagens. Nem mesmo a técnica de cabos para fazer com que Reeve voasse e que foi levada à perfeição já em Superman – O Filme, está presente aqui. Se a produção original nos fez acreditar que o homem pode voar, Superman IV nos faz ter certeza de que o homem não deveria nem mesmo tentar tirar os pés do chão. É doloroso ver Reeve suspenso de qualquer jeito em cabos semi-aparentes que em nenhum momento convencem minimamente que seja.

E, claro, nem entrarei em aspectos como, no vácuo do espaço, as capas do herói e vilão balançam ou o som de vozes são propagados ou como Lacy Warfield (Mariel Hemingway vivendo personagem nova que, no momento, tenho preguiça de explicar quem é) consegue respirar normalmente em órbita da Terra. Custava no mínimo tentar sem cientificamente aceitável para crianças de Jardim de Infância? Precisa mesmo, como a cereja no bolo, errar até mesmo nisso?

Superman IV é um filme que não deveria ter sido feito. Superman e sobretudo Christopher Reeve mereciam mais, muito mais. É um acinte cinematográfico que deveria ter sido punido com trabalhos forçados para Golan, Globus e os manda-chuvas da Warner na época.

Superman IV – Em Busca da Paz (Superman IV – The Quest for Peace, EUA/Reino Unido – 1987)
Direção: Sidney J. Furie
Roteiro: Lawrence Konner, Mark Rosenthal (baseado em história de Christopher Reeve, Lawrence Konner e Mark Rosenthal)
Elenco: Christopher Reeve, Gene Hackman, Jackie Cooper, Marc McClure, Jon Cryer, Sam Wanamaker, Mark Pillow, Mariel Hemingway, Margot Kidder
Duração: 90 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.