Crítica | Superman – O Filme (Versão da TV de 3 Horas)

Superman – O Filme foi a produção mais cara da história até então e, também, um retumbante sucesso comercial e iconográfico que marcou gerações, tornando-se o primeiro grande filme de super-heróis da Sétima Arte e, sem dúvida, até hoje um dos melhores. Apesar de um conturbadíssimo processo de produção que resultou na completa alteração do roteiro original de Mario Puzo e no desligamento de Richard Donner da cadeira de diretor da continuação, que havia sido filmada simultaneamente, dentre outros problemas, é uma surpresa que um filme desta qualidade tenha conseguido chegar às telonas.

No ano 2000, o filme ganhou uma versão estendida, que aumentava sua duração original em sete minutos. Não propriamente uma versão do diretor, pois Donner não participou diretamente, apenas supervisionou os resultados, esta versão famosamente reinsere a revelação de que a garotinha que vê o adolescente Clark Kent correndo em super-velocidade para casa em Smallville era Lois Lane e, mais para a frente, amplia a sequência em que Superman invade o quartel-general subterrâneo de Lex Luthor, com diversas armadilhas para o herói. Há outras alterações aqui e ali, mas, em essência, o filme original manteve sua integridade.

Analisei ambas as versões mencionadas acima em minha crítica do filme, aqui, pelo que o objeto da presente crítica é tão somente a quase mítica versão de três horas – na verdade MAIS de três horas! – que somente viu a luz do dia em home video com seu lançamento em 2017 pela Warner. Mas que versão é essa? – alguns de vocês podem perguntar.

Para isso, precisamos voltar um pouco no tempo e entender a composição do contrato entre Ilya e Alexander Salkind, detentores dos direitos cinematográficos sobre o Superman, e a Warner. De acordo com a versão original, os Salkind bancariam financeiramente um bom pedaço da ambiciosa e caríssima produção, com o estúdio garantindo sua distribuição nos cinemas americanos e do resto do mundo. No entanto, na medida em que a produção encontrava tropeços e encarecia, os Salkind eram obrigados a abrir mão de mais um “pedaço” de seus direitos amplos sobre o Superman e sua mitologia para a Warner que, com isso, começava a participar mais no processo criativo. Quando Richard Donner finalmente entrou na história, com a pré-produção já adiantada, ele negociou uma cláusula poderosa em relação ao corte cinematográfico final da obra, algo que, de certa forma, foi o estopim para a crise que se instalou posteriormente, levando à saída de Donner de Superman II (leiam, aqui, a crítica da versão do diretor da continuação).

Com a palavra final sobre a versão do cinema com Donner e, via de consequência, com a Warner, os Salkind trataram de se apegar ao futuro lançamento televisivo da produção que, com o sucesso na bilheteria, seria literalmente um evento em uma época em que havia uma espera muito maior entre uma janela e outra, com a produção tornando-se indisponível entre elas. Uma das cláusulas costuradas para a televisão aberta era de que os royalties da licença pagas pelo canal aos produtores seriam computados por minuto, o que tornaria atraente a licena do mais longo filme possível. Assim, em 1981, quando os direitos para a televisão reverteram aos Salkind, eles não se fizeram de rogados e, usando os quilômetros de celuloide que haviam sido cortados da versão cinematográfica, eles remontaram o filme e criaram uma versão de nada menos do que 188 minutos, 45 minutos mais longa daquela que chegara aos cinemas três anos antes.

A partir de 1981, então, diversas versões extremamente longas de Superman – O Filme chegaram às telinhas, primeiro pela ABC (que escolheu usar uma versão de 182 minutos em um evento televisivo de duas noites), depois pela CBS e, em seguida, por vários outros canais ao longo dos anos. O corte dos Salkind, de 188 minutos, é conhecida no meio como Salkind International Television Cut e é ele que é objeto do lançamento em Blu-Ray pela Warner 35 anos depois de ser criado e vendido. É importantíssimo ressaltar, porém, que o referido corte é criação da cabeça dos Salkind apenas, não tendo nenhuma relação com Richard Donner, algo que é inclusive avisado no começo da projeção.

E é assistindo à esta versão que um leigo pode mais facilmente começar a entender exatamente a importância de um bom diretor. Afinal, além de imprimir sua visão à obra, algo que Donner definitivamente fez ao trazer Tom Mankiewicz para basicamente reescrever o roteiro em tom camp cômico de Mario Puzo. Mas, muito além disso, um diretor tem em sua cabeça a composição e a sequência de todos os seus planos ou, no linguajar do meio, a decupagem, que nada mais é do que o detalhado planejamento da filmagem.

É a boa decupagem que estabelece quanto tempo cada cena ou plano terá, como uma cena ou plano será sucedido por outro, em que momento a montagem não linear entra para mostrar, por exemplo, um flashback e assim por diante. Sem um bom trabalho de planejamento, o resultado de um filme pode perder seu significado ou por exigir pulo de lógica do espectador ou por apresentar furos que não são conciliáveis com sua estrutura.

Portanto, a versão de três horas sob comento serve para demonstrar com clareza que, aquilo que Richard Donner decidiu cortar, ele decidiu em razão de um trabalho árduo de preparação e cometimento. O que ficou no chão da sala de edição, no final das contas, é tão importante quanto o que foi mantido na projeção. É também naqueles quilômetros de filme “perdidos” que percebemos o papel de alguém que sabe exatamente como transmitir uma mensagem, algo que exige o conhecimento exato do “tempo” de um filme, do quanto cada segundo a mais ou a menos impacta uma cena e cria o sentimento necessário no público para levá-lo ao próximo acontecimento.

Ao reintroduzir 45 minutos de filme em Superman – O Filme, os Salkind só pensaram no dinheiro que fariam e não na arte de Donner. É o “quanto mais melhor” hollywoodiano tão presente naquela época quanto hoje. Além das duas cenas mencionadas mais acima – a revelação de que a menina era Lois Lane e as armadilhas de Luthor – o restante do tempo existe única e exclusivamente para estender sequências pre-existentes. Na grande maioria das vezes, o resultado é a quebra do ritmo narrativo ou a introdução de comentários e linhas de diálogo que não ganham desenvolvimento algum mais para a frente, sendo, portanto, supérfluos. Vejam, por exemplo, a sequência em que vemos Clark adolescente arrumando a aparelhagem de futebol americano de seus colegas. Na versão original, a economia do que vemos na tela estabelece o jovem visualmente como alguém que precisa se manter às margens do que seria um relacionamento escolar normal em razão de suas habilidades. Seu contato com Lana Lang é discreto, rápido e esclarecedor. Na versão de três horas, o diálogo com a jovem é estendido por um longo momento antes do valentão chegar para resgatá-la, tornando o posterior chute de Clark um momento deslocado nessa nova composição.

E, extrapolando a partir deste exemplo, há vários outros. Vemos os detalhes da perseguição dos dois policiais a Otis, na esperança de encontrar o esconderijo de Luthor, vemos uma introdução interminável de Clark no Clarim Diário, vemos diversos outros momentos de exploração dos poderes do Superman por Metrópolis, vemos por mais tempo os mísseis nucleares voando em direção a seus alvos e o Superman voando atrás, vemos mais consequências do cataclismo criado por Luthor e assim por diante. É um exercício em paciência que cansa o espectador e torna fácil a detecção do exagero, daquilo que está ali, mas que não deveria estar.

Além disso, o lado mais leve do roteiro original de Puzo que sobreviveu às alterações de Mankiewicz também se fazem mais salientes. Não que a versão cinematográfica de Superman – O Filme não seja cômica, mas, com os 45 minutos extras, esse tom torna-se mais forçado, menos encaixado com a estrutura narrativa geral.

Mesmo assim, os cifrões nos olhos dos Salkind que os fizeram criar essa versão super-longa da obra original não consegue destruir o filme. Sua qualidade diminui, sem dúvida, mas a direção de Donner continua lá, assim como a atuação incomparável de Christopher Reeve como o personagem-título. E, claro, aos cinéfilos de plantão e fãs de Superman – O Filme, há o valor sentimental de ver mais daquilo que gosta, algo que, mesmo com seus problemas, é inestimável. E isso sem contar com a aula reversa de cinema que assistir à versão longa acaba sendo. Ou seja, os Salkind até tentaram, mas não conseguiram quebrar a magia do filme que nos fez acreditar que um homem pode voar.

Superman – O Filme (Superman – The Movie, EUA – 1978)
Direção: Richard Donner
Roteiro: Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman, Robert Benton, Tom Mankiewicz
Elenco: Marlon Brando, Gene Hackman, Christopher Reeve, Ned Beatty, Jackie Cooper, Glenn Ford, Margot Kidder, Phyllis Thaxter, Marc McClure, Valerie Perrine, Maria Schell, Terence Stamp, Jack O’Halloran, Jeff East, Sarah Douglas, Diane Sherry Case
Duração: 188 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.