Crítica | Superman – O Retorno

estrelas 4

Superman – O Retorno é, definitivamente, um filme incompreendido. E, como tudo que não é compreendido, ele é desprezado, jogado para escanteio por ser considerado o “patinho feio” cinematográfico na mitologia do herói. No entanto, essa atitude em relação à obra de Bryan Singer não poderia ser mais injusta e até triste, especialmente levando em consideração os dois filmes anteriores da franquia.

Produzido com carinho e reverência ao legado deixado por Richard Donner, Tom Manciewicz e Christopher Reeve, a fita pode ser encarada como um reboot light da série ou uma continuação direta a partir de Superman II, não muito diferente do que O Despertar da Força significou para a saga espacial Star Wars. Mas, ser classificado como uma coisa ou outra, na verdade, pouco importa, pois Superman – O Retorno é, antes de qualquer outra consideração, uma belíssima homenagem cinematográfica ao que o precedeu e ao personagem e, olhando hoje para trás, também a um tempo que não volta mais, uma época mais simples em que contar uma história respeitando as raízes da obra primígena era mais importante do que simplesmente colocar na telona uma infinita pancadaria carregada de efeitos especiais e montagem com cortes de milissegundos.

Singer, que saiu da franquia X-Men para abraçar, com a bênção de Richard Donner, a mitologia do Superman, que já havia amargado diversos projetos cancelados na Warner desde Superman IV, tinha como objetivo não atualizar o herói para tempos mais cínicos, mais violentos, mas sim trazer um senso de nostalgia e, nisso, ele merece aplausos. É necessário coragem para não sucumbir a maneirismos, a anseios do público (Singer famosamente conseguiu convencer a Warner a não fazer teste de receptividade do público ao seu filme, algo raro) e a mandamentos de produtores normalmente perdidos. E, do seu jeito que, muito diretamente – e sem tentar esconder o fato – emula os dois blockbusters originais, ele cria, com base no roteiro de Michael Dougherty e Dan Harris, uma aventura retrô que acabou não agradando grande parte do público, apesar da relevante (mas longe de estratosférica, como era o esperado) bilheteria, o que levou a produtora a voltar atrás no seu anúncio de uma continuação em 2009, optando por efetivamente recomeçar a franquia.

No entanto, queiram ou não os mais aguerridos detratores de Superman – O Retorno, o resultado cinematográfico final é tecnicamente sensacional. Há problemas, claro, mas é um grande filme, uma bela homenagem e um divertimento descompromissado e agradável.

A premissa para o “retorno” do Superman é que ele, há cinco anos e sem explicações, abandonou a Terra para voltar ao que restou de seu planeta natal, que havia sido localizado por astrônomos. É necessário que aceitemos essa “história pregressa” para que o restante da projeção funcione. Não é, na verdade, pedir muito, já que o que os roteiristas querem com isso é mostrar aos espectadores que esse é, mas ao mesmo tempo não é o mesmo Superman de 1978. E, para marcar a mudança, o uniforme foi redesenhado, ganhando uma cueca para fora da calça e o escudo no peito mais reduzidos, além de um belo tom mudo ao vermelho utilizando, que cria excelente contraste com o azul, que ainda é marcadamente forte e chamativo. De certa forma, a tonalidade do uniforme reflete o tom da projeção que, muito longe de ser sombrio, é melancólico.

O design de produção também trabalhou uma magnífica mistura de modernidade com ares vintage, notadamente no saguão do Planeta Diário (baseado em obra do arquiteto Franklyn Lloyd Wright) e no iate de Luthor (Kevin Spacey), ambos ganhando quase um visual steampunk adorável que empresta uma atemporalidade necessária ao filme. Os figurinos também são trabalhados da mesma forma, reunindo elementos dos anos 70 com aspectos modernos, reiterando que O Retorno é como um filme de transição entre o passado e o futuro.

Em termos de elenco, talvez a mais polêmica escalação tenha sido a do então desconhecido Brandon Routh para viver Christopher Ree…, digo, Superman/Clark Kent. Em termos físicos, ele foi uma grande escolha, já que ele consegue encarnar perfeitamente o trabalho clássico de Reeve. Esguio, alto, sem músculos exageradamente aparentes, ele funciona bem visualmente no filme e aguça o ar de nostalgia da produção. No entanto, Routh nem de longe consegue encarnar Reeve em termos da recriação da dualidade Kent/Superman. Ambos os personagens são essencialmente iguais, lembrando muito a atuação de George Reeves, o segundo Superman live action. Não é que ele esteja mal no papel, pois ele tem o physique du rôle exato e , convenhamos, o roteiro não exige muito mais do que isso (chego lá em breve). Kate Bosworth como Lois Lane, por sua vez, não tem nem uma coisa, nem outra. Sua personagem, que é mal explorada na narrativa, não ganha muito mais do que olhares desejosos e tristes para cá e para lá, esvaziando qualquer tenacidade e altivez que Margot Kidder certamente possuía.

Por outro lado, apesar de aparecer pouco, o veterano Frank Langella funciona bem como Perry White e Kevin Spacey cria sua própria versão de Lex Luthor misturando partes iguais de Gene Hackman e de Keyser Söze. Sua versão do arqui-inimigo do Superman talvez seja a melhor que já foi colocada nas telonas, pelo fato de o ator reduzir o impacto das gags que são fatalmente concentradas nele e amplificar um senso de ameaça e de maldade que já fica evidente desde os segundos iniciais quando ele, já fora da prisão e casado com uma senhora às portas da morte (Noel Neill, em mais uma homenagem emocionante, já que ela viveu a primeira Lois Lane no serial de 1948), a força a assinar um testamento legando tudo para ele. E isso sem contar na particularmente forte sequência do espancamento de Superman, em que Spacey parece encarnar seu então futuro personagem Frank Underwood, de House of Cards.

Como mencionei brevemente, o roteiro tem seus problemas já que, não muito diferente do já citado O Despertar da Força, ele nada mais é do que uma nova versão de exatamente a mesma trama de Superman – O Filme. Luthor tem um plano relacionado com “imóveis” que gera efeitos cataclísmicos que Superman tem que lidar. Novamente a kriptonita tem a mesma função e mais uma vez há uma quase-morte de Lois Lane. Nada de novo, mas esse, porém, não é exatamente o problema. A questão está muito mais na cadência da narrativa, que trabalha talvez com calma demais o crescendo que leva ao clímax. Claro que Singer procurou dar à volta de Superman à Terra a mesma roupagem de sua primeira aparição salvando Lane e o helicóptero no filme original e ele efetivamente consegue com a ótima sequência do avião levando o novo ônibus espacial. No entanto, todas as sequências que levam até esse momento e, desse momento até o clímax no Atlântico, há pouca movimentação no roteiro, com dois epílogos longos demais. Notem que não quero dizer que falta ação propriamente dita, pois, por ser uma fita old school, as sequências mais energéticas são poucas e economizadas para surpreender. O que acontece é que o peso da melancolia que o diretor imprime à história acaba alongando a produção para mais meia hora do que o necessário e Superman/Clark Kent não tem muito mais o que fazer a não ser olhar com cara de cachorro pidão o tempo todo.

Outro ponto que não posso deixar de comentar é a sub-trama envolvendo o filho de Superman com Lois Lane. É uma novidade narrativa muito interessante que, porém, não ganha o desenvolvimento necessário, sendo claramente um artifício narrativo a ser desenvolvido em continuações. Como, porém, o filme precisa ser julgado como ele é e não como ele seria se houvesse continuações, a presença do menino só contribui para a perda de cadência narrativa. No entanto, particularmente gosto da ideia e se houvesse um texto mais enxuto, o filho do herói poderia ser uma excelente adição ao cânone cimematográfico (e, antes que joguem pedras, prefiro aceitar o filho do que o Superman assassino de O Homem de Aço, se eu tivesse que escolher entre um e outro). Além disso, há uma bela circularidade do roteiro, fazendo referência direta com o que Jor-El (que volta em filmagens de arquivo, as mesmas que tornaram possível a montagem do corte de Richard Donner de Superman II) diz a Kal-El ainda bebê no filme original: “O filho se torna o pai, e o pai se torna o fiho.

Em termos de efeitos especiais, Singer e sua equipe técnica capitaneada por Mark Stetson conseguiram unir, de maneira muito eficiente, efeitos práticos e de computação gráfica. Muito dos voos de Routh usaram praticamente as mesmas técnicas de cabos que Reeve originalmente usou, mas a adição do CGI permitiu mais movimentos, mais velocidade nas sequência aéreas, além da belíssima tomada em que vemos Superman sobrevoando a Terra e escutando tudo e todos. O que realmente incomoda é quando o CGI é usado para substituir Rougth completamente em close-ups e planos médios de voo, já que fica evidente que o que estamos assistindo é um “desenho animado” do Superman.

Amplificando sobremaneira a nostalgia que é essencial à Superman – O Retorno, há o uso da trilha sonora original de John Williams. Ela nunca deixou de ser usada em Superman III e IV , mas desde o original a majestade das composições de Williams não eram tão bem usadas em um filme do herói. Está tudo lá, desde o tema principal, como o tema de amor de Lois e Superman, com belíssimos novos arranjos por John Ottman que trabalham a música original imprimindo sua marca, mas sem descaracterizá-la.

Superman – O Retorno, pode não ter sido o retorno do herói que todos esperavam, mas a recepção fria pelo público é uma surpresa e talvez sinal dos tempos, pois o trabalho de Singer demonstra paixão e técnica em partes iguais. Talvez tenha sido muito pouco, muito tarde ou, mais provável, o filme certo, na época errada. De toda forma, ele funciona como um grande encerramento ao Superman setentista que mostrou ao mundo que o homem pode sim voar.

Superman – O Retorno (Superman Returns, EUA – 2006)
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Michael Dougherty, Dan Harris
Elenco: Brandon Routh, Kate Bosworth, Kevin Spacey, James Marsden, Parker Posey, Frank Langella, Sam Huntington, Eva Marie Saint, Marlon Brando, Kal Penn, Tristan Lake Leabu, David Fabrizio, Ian Roberts, Noel Neill
Duração: 154 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.