Crítica | Superman (Serial #1 – 1948)

estrelas 2

Obs: Leiam sobre a evolução transmidiática do Superman, nos seguintes links:

Superman – A Origem de um Mito (1933 a 1938)

Superman – Action Comics #1 a #7 (1938)

Superman – Tiras de Jornal (1939)

Superman – Programa Radiofônico (1940)

Superman – Série Animada dos Estúdios Fleischer e Famous (1941 a 1943)

Como mencionei quando escrevi a crítica do primeiro serial de Flash Gordon, assistir essas “séries de TV” feitas para o cinema durante as décadas de 30 e 40 exige que o espectador moderno ajuste suas expectativas e tente, dentro do possível, colocars-se na posição de um espectador da época, que literalmente precisava deslocar-se ao cinema semana atrás de semana para acompanhar seu serial favorito. Só de imaginar esse conceito hoje, em que todos potencialmente têm acesso a tudo com o apertar de um botão, já existe um ajuste mental e ver os serials exige um mergulho maior ainda nas eras formativas do cinema e da TV.

Mas essa volta no tempo é necessária para dar perspectiva. E, no caso de personagens icônicos como o Superman, ela é essencial para a compreensão de sua evolução ao longo das décadas. Este serial, composto de 15 capítulos contando uma única história, foi a primeira vez que o personagem ganhou uma versão live action (ou seja, com atores reais). O mais importante super-herói dos quadrinhos, portanto, levou 10 anos, desde sua primeira publicação, para chegar às telonas com um ator vivendo-o não só como uma voz (a primeira voz do herói foi a de Bud Collyer, inicialmente no programa radiofônico e, depois, também nas excelentes animações dos estúdios Fleischer e Famous), mas também em frente às câmeras, com o primeiro rosto  não desenhado. E essa honra ficou com o ator Kirk Alyn, oriundo do teatro e que, curiosamente, não recebeu créditos nos episódios em si (apesar de os demais atores terem sido creditados), apenas no material promocional.

Alyn vive Clark Kent e Superman de maneira fortemente inspirada na dualidade desses personagens nos quadrinhos da época, ou seja, tentando distanciar ao máximo (além dos meros óculos) as duas personas, ainda que ele, para isso, só tenha a seu dispor dois figurinos durante todos os episódios: o uniforme clássico do Superman (que era cinza e marrom, não vermelho e azul, já que a fotografia em preto e branco funcionava melhor desse jeito) e o paletó tipo “jaquetão” normalmente desenhado por Joe Shuster como o padrão de Kent. Sua atuação mais desajeitada, mais tímida para Kent funciona bem para o personagem, em franca oposição à sua tentativa de viver um Superman altivo e sempre sorridente (especialmente quando está sendo metralhado por bandidos) que raramente deixa de ser caricato e superficial.

Os demais atores tentam ao máximo emular suas contrapartidas animadas dos estúdios Fleischer e Famous, especialmente Noel Neill no papel de Lois Lane, que parece a versão viva de seus personagem no desenho, inclusive com o uso de figurino (sim, no singular) muito parecido e situações quase idênticas, sempre sendo a repórter que engana Kent para conseguir a notícia e que acaba sendo sequestrada (invariavelmente) somente para Superman salvá-la. A antagonista principal é Spider Lady, uma vilã estilo femme fatale criada especialmente para a série que é vivida por Carol Forman que não faz muito mais do que ser ameaçadora e dar ordens aos seus capangas em seu covil subterrâneo com o objetivo final de roubar o raio redutor (reducer ray), cujo nome não se relaciona com miniaturização, mas sim com destruição.

Mesmo contando apenas uma história, a estrutura dos 15 episódios é de caso da semana, algo nada incomum para os serials e mesmo até hoje para séries de televisão sem imaginação. A exceção fica com o primeiro episódio, que se dedica à origem do Superman, sendo dois terços dele passado em Krypton, recontando a tentativa de Jor-El (Nelson Leigh)  de convencer seus pares a abandonar o planeta, somente para ver negada sua pretensão, o que o obriga a enviar seu filho ainda bebê para a Terra. Os demais são baseados em pedaços dos planos da Spider Lady que são realizados sempre de maneira simplória e seguindo a cartilha da “apresentação da situação + Lois engana Clark + Lois em perigo + Superman salva Lois”. Compreensível mas maçante.

O baixo orçamento do serial é visível e as soluções encontradas para contornar os problemas até podem parecer engenhosas para a época, mas, se compararmos com os serials de Flash Gordon da década anterior e, principalmente, com o serial As Aventuras do Capitão Marvel, de 1940, elas são risíveis. Para começar, é óbvio que a principal característica do Superman é poder voar e, apesar de o Capitão Marvel ter voado de maneira bastante satisfatória (para a época) oito anos antes, a Columbia Pictures (a produtora) optou por efetiva as sequências de voo com animações. E, pior, as mesmas animações em todos os episódios, sem qualquer cuidado em adaptá-las para as diversas situações que são criadas. Aliás, o uso constante das mesmas imagens (o chamado stock footage) incomoda muito, com o Superman sempre decolando e pousando da mesma forma e com imagens externas sempre iguais.

Aliás, falando em externas, apesar de Metrópolis ser a cidade onde a série se passa, é impressionantemente conveniente como toda a ação, episódio atrás de episódio, se passa em regiões rurais. Claro, o orçamento falou mais alto (ou mais baixo) novamente, mas é impossível não estranhar como os personagens estão sempre dirigindo para fora da cidade e voltando como se Metrópolis tivesse três prédios altos (um deles o Daily Planet, claro) e fosse cercada de pradarias, florestas, minas e pedreiras…

Toda a ação, aliás, é extremamente simplista, com Superman lutando apenas com capangas da Spider Lady, com um ou outro momento mais “sofisticado” como o salvamento de uma menina em um incêndio, a destruição de uma parede rochosa e balas ricocheteando em seu peito, mas nada espetacular ou que faça uso de todo o poder do personagem. Mas, há o uso da kriptonita para enfraquecer o herói, de maneira a igualar as chances, ainda que o uso da pedra do planeta natal do Superman misteriosamente seja feita de forma esparsa pela vilã e seus capangas.

Apesar dos problemas evidentes deste serial quando comparados com outros anteriores ainda, Superman foi um sucesso nos cinemas da época e, em 1950, ele ganhou uma continuação intitulada Atom Man vs. Superman, novamente com o mesmo elenco, mas introduzindo o primeiro Lex Luthor de carne e osso na história do personagem.

Superman (Idem, EUA – 1948)
Direção: Spencer Gordon Bennet, Thomas Carr
Roteiro: Lewis Clay, Royal K. Cole, Arthur Hoerl, George H. Plympton, Joseph F. Poland (baseado em personagens criados por Jerry Siegel e Joe Shuster)
Elenco: Kirk Alyn, Noel Neill, Carol Forman, Tommy Bond, Forrest Taylor, Herbert Rawlinson, Nelson Leigh, Luana Walters, Edward Cassidy, Virginia Caroll
Duração: 244 min. (15 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.