Crítica | Superman: Série Animada dos Estúdios Fleischer e Famous (1941 – 1943)

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estrelas 5,0

Obs: Leiam sobre a evolução transmidiática do Superman, nos seguintes links:

Superman – A Origem de um Mito (1933 a 1938)

Superman – Action Comics #1 a #7 (1938)

Superman – Tiras de Jornal (1939)

Superman – Programa Radiofônico (1940)

Os 17 cartuns que coletivamente são os objetos da presente crítica marcam a primeira vez que o Superman fez sua transição para o audiovisual, depois de nascer nos quadrinhos tradicionais em 1938, passar para as tirinhas de jornal em 1939 e ao rádio em 1940. E o início da carreira do herói nesse seu novo caminho não poderia ser melhor, pois essas animações – normalmente conhecidas apenas como “Superman dos Estúdios Fleischer” são genuinamente impressionantes. Mas, antes de falar delas, vamos rapidamente entender como elas surgiram e porque a denominação “dos Estúdios Fleischer” não é completamente correta.

Os Estúdios Fleischer e como o cartum do Superman surgiu

Fundado como Inkwell Studios em 1921 pelos irmãos e pioneiros da animação Max e Dave Fleischer e mudando de nome para Fleischer Studios em 1929, a empresa foi a primeira grande concorrente de Walt Disney. O grande diferencial era que Max Fleischer havia, ele próprio, inventado a rotoscopia alguns anos antes, permitindo o que hoje poderia ser chamado como a versão primitiva da captura de performance. Assim, os desenhos criados por Max, que trabalhava  com seu irmão no Bray Studio, era mais fluidos e “vivos” do que os demais. Ao longo dos anos 20, os irmãos foram responsáveis por memoráveis desenhos, primeiro no Cinema Mudo e, depois, com o advento do som, com obras como Betty Boop e Popeye, este último o mais popular desenho já produzido por eles.

No final dos anos 30, com o lançamento de Branca de Neve e os Sete Anões pela Disney, animação que mostrou que a técnica tinha espaço no formato de longa-metragem, os Estúdios Fleischer receberam injeção de dinheiro da Paramount para produzir seus próprios longas, o que os levou a mudarem-se de Nova York para Miami em razão de incentivos fiscais oferecidos. O primeiro longa foi As Aventuras de Gulliver, lançado no final de 1939 e que foi um sucesso de bilheteria.

Depois de Gulliver, os Fleischer continuaram produzindo diversos curtas – inclusive Popeye, seu carro-chefe – até que a Paramount encomendou uma adaptação de Superman, então com sua fama nas alturas. Curiosamente, os irmãos não queriam produzir os desenhos por considerarem que já tinham muito trabalho e que mais poderia prejudicar a qualidade geral. No entanto, como a Paramount tornou-se parceiro importantíssimo para o estúdio, eles não podiam simplesmente negar. Como um meio-termo, resolveram cobrar um absurdo, algo como 100 mil dólares por curta, na certeza de que a Paramount negaria. No entanto, não foi o que aconteceu, ainda que, no final das contas, o valor por episódio tenha sido 50 mil dólares. Nove curtas do Superman para o cinema foram produzidos nessa estrutura.

Mesmo com o primeiro episódio – que ganhou o prosaico título Superman – concorrendo ao Oscar de Melhor Curta Animado e o estúdio produzindo outras obras que ganharam relevo, os Estúdios Fleischer acabaram enterrando-se em dívidas e a Paramount acabou adquirindo o que sobrou, excluindo os Fleischer da equação e renomeando-o para Estúdios Famous. Agora sob total controle da Paramount, mais oito curtas foram para o cinema foram produzidos, desta feita, porém, sem o envolvimento dos irmãos Fleischer e com histórias que lidam com a 2ª Guerra Mundial.

A crítica

Em uma palavra, os 17 curtas animados produzidos pela Fleischer (os primeiros nove) e depois pela Famous (os demais oito) são espetaculares.

Lembrem-se: eles foram produzidos entre 1941 e 1943, ou seja, há mais de 70 anos e ainda mantém todo o vigor de outrora. Mais ainda, esses desenhos praticamente tornaram-se os ombros sobre os quais as hoje adoradas animações da DC foram construídas, a começar por ter servido de inspiração explícita para a série animada do Batman (de Bruce Timm e Eric Radomski entre 1992 e 1995), que deu partida às várias outras séries que se seguiram, além dos longas animados. Basta reparar como o Superman, Metrópolis e outros elementos icônicos foram quase que literalmente transpostos por Timm para seu seminal desenho do Morcegão. O mesmo vale para a adorada graphic novel Reino do Amanhã, de Mark Waid e Alex Ross, que muito claramente beberam muito dos desenhos dos anos 40. Arriscaria até mesmo a dizer que muito de todo o fenomenal trabalho de Ross nos quadrinhos foi influenciado por esse “estilo Fleischer” de ser.

E essa inspiração realmente faz todo sentido. Assistir esses curtas do Superman é fácil e natural para todos os apreciadores de quadrinhos modernos justamente por eles não terem envelhecido um dia sequer. Com exceção de alguns elementos que deixam evidente que a ação se passa no passado – ausência de celulares, uso de rádio, a proeminência do jornal impresso, os meios de transporte etc. – o desenho poderia muito bem ser uma produção moderna. Aliás, minto. Diria com muita tranquilidade que os desenhos Fleischer/Famous fazem muitos desenhos atuais – inclusive muitos longas animados da DC Entertainment – comer poeira em termos de cuidado técnico.

Usando rotoscopia como base para a movimentação dos personagens, estes curtas apresentam uma fluidez e uma verossimilhança de se tirar o chapéu, evitando armadilhas comuns em obras semelhantes, como movimentos “picados” e repetição óbvia de quadros. Vê-se, nitidamente, um valor de produção superior, não necessariamente em razão do orçamento mais alto que a média que cada um dos oito episódios iniciais teve, mas sim pelo detalhismo do trabalho dos Fleischer, detalhismo esse que foi mantido mesmo quando os irmãos foram defenestrados de sua própria empresa pela Paramount. As vozes da dupla principal no rádio foram mantidas nos quadrinhos para garantir a maior fidelidade possível, com os trabalhos de Budd Collyer e Joan Alexander como Superman e Lois Lane respectivamente emprestando a devida gravidade aos personagens.

As cores também são um espetáculo à parte. Mantendo com uma paleta limitada, os cartuns são trabalhados com tons esmaecidos que torna a presença do Superman algo mais natural, menos chocante do que um homem vestido de collant azul, cueca por cima da calça e capa e botas vermelhas poderia gerar. É algo parecido com o que Zack Snyder tentou fazer com o personagem em Homem de Aço, mas sem o efeito sombrio que o diretor acabou exacerbando.

Em termos de roteiros, todos eles são simplistas e básicos, seguindo uma fórmula padrão, com exceção do primeiro, que conta com um prólogo com a breve origem do personagem: uma ameaça nova chega, Lois Lane e Clark Kent vão investigar, Lois Lane entra em uma enrascada e, finalmente, o Superman resolve o problema. São entre 8 e 15 minutos de pura ação que coloca o Superman enfrentando desde meros ladrões de banco até gorilas e cientistas malucos com raios destruidores. Não é nada que, para os padrões de hoje seja terrivelmente original, mas cada episódio, sem exceção, é um deleite audiovisual. A grande diferença depois da transição dos estúdios Fleischer para o Famous é que Superman passou, então a enfrentar ameaças mais internacionais, especificamente japoneses e membros do Eixo, em razão do andamento da 2ª Guerra Mundial. Trata-se da primeira vez que o personagem efetivamente foi usado para fins propagandísticos.

É interessante notar, também, que estes desenhos são normalmente reconhecidos como o momento histórico em que o Superman ganhou o poder de voo, um upgrade de seu poder de “saltar” que Siegel e Shuster concedera à sua criação. É que os Fleischer consideraram – muito acertadamente – que os saltos seriam estranhos e desengonçados demais para o meio audiovisual e alteraram, com a benção da DC e dos criadores, a forma de locomoção do herói. Ainda que este crítico, tendo trafegado por toda a evolução do personagem, considere que Superman já voava nos programas radiofônicos iniciados em 1940 (conforme comentado nesta crítica aqui), pode-se realmente dizer que a primeira vez em que o poder de voo ficou evidente foi mesmo nos desenhos dos Fleischer.

Mas outra característica do personagem – certamente menos nobre – fica claro já nos desenhos: a alternância do grau de seus poderes. Ao longo da longa carreira do Azulão, ele ganhou uma vasta gama de poderes (inclusive os famigerados poderes elétricos e o recente poder de gerar uma supernova…) e é notório como os mais diferentes roteiristas usaram enormes variações deles. Às vezes Superman é mais fraco ou mais forte, voa mais rápido ou mais devagar, suporta mais ou menos pancada, é afetado mais ou menos por kryptonita e por aí a lista continua. E esta característica – o chamado “roteirismo”, algo que considero perfeitamente salutar, vale dizer, especialmente em um personagem quase octogenário – é muito presente nos 16 curtas em que aviões são levantados por Superman em um episódio e, no seguinte, ele tem dificuldade em derrotar ladrões comuns com metralhadoras. Faz parte do jogo e da apreciação dessas preciosidades.

A primeira encarnação audiovisual do Superman não poderia ser melhor. Os desenhos dos estúdios Fleischer e Famous marcaram um começo excepcional em uma carreira de altos e baixos nesse meio para um dos mais importantes personagens dos quadrinhos. E o melhor: o leitor pode conferir TODOS os 17 curtas oficialmente no canal da Warner no Youtube, já que ele estão em domínio público e foram disponibilizados gratuitamente em sua forma completamente restaurada:

Superman: Série Animada dos Estúdios Fleischer e Famous (Superman, EUA – 1941 a 1943)
Direção: Dave Fleischer (os primeiros nove curtas), Seymour Kneitel (Japoteurs, Secret Agent), Sam Buchwald (Showdown, The Underground World), Dan Gordon (Eleventh Hour, Jungle Drums), Isadore Sparber (Destruction, Inc., The Mummy Strikes)
Roteiro: Seymour Kneitel, Isadore Sparber, Bill Turner, Tedd Pierce, Carl Meyer, Dan Gordon, Jay Morton
Elenco (vozes): Bud Collyer, Joan Alexander, Julian Noa, Jackson Beck, Jack Mercer
Duração: 8 a 15 min. por episódio (17 no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.