Crítica | Superman vs. Muhammad Ali

estrelas 4,5

Muhammad Ali foi uma daquelas raras figuras que ganhou o status de mitológica ainda em vida, a partir do momento em que, surpreendentemente e com apenas 22 anos, derrotou Sonny Liston em uma luta de boxe memorável, tornando-se o campeão dos peso-pesados. Sua fama estratosférica continuou em suas vitórias seguintes, em lutas memoráveis como a Rumble in the Jungle contra George Foreman no Zaire (hoje Congo) e com toda sua posição anti-guerra que demonstrou ao recusar-se a alistar-se durante a Guerra do Vietnã, o que lhe custou o título (decisão depois revertida), mas o transformou em mais do que o melhor boxeador do mundo: ele tornar-se-ia um símbolo da contracultura, da paz e dos direitos humanos.

Sempre controverso e extremamente “tirador de onda” em suas declarações sobre si próprio, Muhammad Ali (que nasceu Cassius Clay, mas, ao converter-se ao islamismo, alterou seu nome) é imortal e para sempre inspirará o Homem a ser mais do que ele é. Apesar de ter sido laureado em vida dezenas de vezes, a Nona Arte emprestou-lhe talvez a maior homenagem que poderia prestar quando a DC Comics iniciou o planejamento do lançamento de uma edição especial que colocaria o mito da vida real contra o mito dos quadrinhos. Houve atraso no lançamento, muito em razão da arte que não agradava nem a DC nem o lutador, já que sua fisionomia não parecia direito. Foi apenas quando Neal Adams foi chamado é que a coisa mudou e o grande lançamento – em formato mais do que o normal tanto em dimensões quanto em páginas – acabou saindo no começo de 1978, coincidentemente logo após Ali perder seu título para Leon Spinks (e que ele recuperaria no mesmo ano).

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E, de fato, a arte de Neal Adams é o grande destaque desta belíssima homenagem em vida ao The Greatest. Ele não só soube capturar à perfeição a fisionomia de Ali, como conseguiu colocá-lo lado-a-lado ao Superman sem que ele perdesse a majestade. Além disso, é impressionante seu detalhadíssimo trabalho tanto na icônica capa – que é estilo wraparound, com diversas celebridades reais e fictícias da época – como no interior, com diversos planos repletos de minúcias, notadamente no início, ainda na Terra, quando Clark Kent, Lois Lane e Jimmy Olsen vão procurar Ali para uma entrevista e acabam também se deparando com um emissário extra-terrestre que quer desafiar o campeão da Terra para um combate galáctico que definirá o futuro do planeta. Adams esmera-se em trabalhar com realismo das ruas e, ao fundir elementos espaciais na narrativa, Ali já está bem costurado, com um personagem deste mundo dos quadrinhos.

A distribuição espacial nas páginas desenhadas por Adams é impressionante, com uma quase simetria de tirar o fôlego e splash pages ou páginas duplas de grande efeito. Vale também destaque ao seu trabalho sem a divisão formal em quadros, lembrando muito o estilo do fenomenal Will Eisner, que ele usa na luta entre os dois heróis para o máximo efeito de fluidez e desenvolvimento de narrativa.

Denny O’Neil, no roteiro, é o grande responsável por essa fusão também, pois, apesar da premissa exagerada, que acaba colocando Ali contra a Superman como luta preliminar para definir qual dos dois é o Campeão da Terra para que então ele lute contra o campeão da raça Scrubb, comandada pelo inescrupuloso Rat’Lar, acaba funcionando em termos de diversão pura e simples. Como fazer isso de maneira minimante crível? Como colocar Superman contra Ali de maneira razoável? Qualquer leitor de quadrinhos deduzirá automaticamente a resposta: retirando os poderes de Superman. E é exatamente isso que acontece, por duas vezes, primeiro em um treinamento interdimensional entre os dois (de forma que as 24 horas de prazo dadas por Rat’Lar sejam dilatas em meses, permitindo que Ali treine Superman na arte do boxe) e, depois, na luta em si.

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Mas mais do que arrumar desculpas convenientes para permitir a luta, O’Neil retrata de maneira extremamente crível e fiel o grande lutador. Suas bravatas, suas frases de efeitos estão todas lá, assim como menções a momentos-chave de sua carreira e também suas estratégias de luta, como o famoso rope-a-dope, por meio do qual ele permitia que seu adversário o castigasse, somente para que ele revidasse em momento perfeitamente escolhido, desnorteando-o ou derrotando-o (não coincidentemente, esta é uma das mais marcantes características de Rocky, na franquia de Stallone, cujo personagem principal foi uma resposta cinematográfica ao sucesso de Ali). Os princípios norteadores da vida de Ali também se fazem presentes, às vezes em discursos que poderiam ser considerados estranhos e deslocados, mas que refletem bem sua personalidade expansiva e arrebatadora. Em poucas palavras, o roteiro de O’Neil é uma devida ode em vida a Muhammad Ali.

Superman vs. Muhammad Ali é leitura obrigatória. Não foi a primeira, mas certamente é a mais importante, reverente e melhor “obra homenagem” dos quadrinhos mainstream a personalidades maiores do que a vida como seus personagens fictícios clássicos. Vida longa a Ali!

Superman vs. Muhammad Ali (EUA, 1978)
Roteiro: Denny O’Neil
Arte: Neal Adams
Arte-final: Dick Giordano
Cores: Cory Adams, Terry Austin
Letras: Gaspar Saladino
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: janeiro de 1978
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: dezembro de 2011
Páginas: 73

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.