Crítica | Surfista Prateado: A Ressurreição de Thanos

Thanos morreu em 1977, sendo transformado em uma estátua de granito pelo espírito de Adam Warlock que sai momentaneamente da Joia da Alma com esse objetivo, encerrando o segundo conflito do Titã Louco contra os Vingadores. Nessa época, mortes de super-heróis e vilões eram mais ou menos respeitadas, demorando mais do que os usuais seis meses atuais para eles ressuscitarem de alguma forma, normalmente de maneira simplória.

Foi só em 1990 que Jim Starlin, preparando-se para sua famosa Trilogia do Infinito, que começaria no ano seguinte, resolveu trazer Thanos de volta ao mundo dos vivos. Para isso, o autor pegou carona nas aventuras cósmicas do Surfista Prateado em sua mais longeva série solo, que teve 146 edições entre julho de 1987 e novembro de 1998, iniciando um arco de cinco edições (#34 a #38) que tinha ostensivamente esse objetivo, preparando o terreno para Desafio Infinito.

Começando com um sonho premonitório do Surfista em um planeta desértico em que o herói vê a ressurreição de Thanos pela sua amada Morte e que empresta um tom solene à narrativa, Starlin não perde tempo algum em confirmar que o sonho é realidade e que o ensandecido Titã está mesmo de volta, algo que também é revelado para Norrin Rad antes do fim da primeira edição. Não demora e, na seguinte, vemos Thanos detalhadamente explicar o porquê de ele ter voltado: o universo está cheio de seres vivos causando o desbalanceamento cósmico e, por isso, seguindo as ordens de sua amante, ele precisa eliminar nada menos do que a metade desse seres. Chega a ser engraçado a sugestão de Starlin de que, para resolver os problemas ambientais que assolam não só a Terra, mas todo o universo, basta um “pequeno genocídio” de uma incontável quantidade de seres vivos, mas ele o faz de forma muito didática, demonstrando até mesmo uma preocupação ecológica genuína, mas cuja mensagem se perde diante da trama exagerada.

Aliás, essa volta de Thanos, trazido à vida com um estalo dos dedos esqueléticos da Morte me pareceu preguiçoso, uma maneira boba de desfazer aquilo que Starlin havia estabelecido tão bem em sua mega-saga que  colocou o vilão contra os Vingadores na década de 70. Não que eu seja contra a ressurreição em si,mas ela simplesmente precisava ter o mesmo peso que foi sua morte original.

Mas, talvez pior do que isso, Starlin, nas edições #36 e #37, embarca em um tom marcadamente cômico que, se não é em si ruim, simplesmente não combina com o começo do arco, que carrega na gravidade da situação. Nesse miolo, ele coloca o Surfista Prateado primeiro contra o ridículo Homem-Impossível em infindáveis páginas em que ele se transforma sem parar, praticamente em todo quadro, em personagens e objetos diferentes com o objetivo de aliviar o fardo do Surfista e torná-lo mais “alegre”. Depois desse suplício, Starlin obriga o leitor a ler quase uma edição inteira em que a nova versão de Drax, o Destruidor – ressuscitado como um bobalhão descerebrado por Kronos quando a entidade cósmica percebe que Thanos está de volta – quer extrair do Surfista algo que ele não sabe: a localização de Thanos.

Depois desses completamente desnecessários e extremamente estendidos alívios cômicos, a história finalmente volta aos trilhos, com o Surfista finalmente achando Thanos e duelando com ele até a morte. O Surfista é um dos heróis mais poderosos da Marvel Comics e isso fica evidente aqui, ainda que sua inocência e retidão moral sejam características que freiem o uso de toda sua força. Thanos sabe disso e manobra o Surfista criando um engodo que, porém, não faz o menor sentido narrativo e desfaz a própria premissa do arco. Afinal, se Thanos queria esconder sua ressurreição, para que revelá-la ao Surfista em primeiro lugar? Se o objetivo era reviver o vilão, então Starlin poderia ter nos poupado dessa história em cinco edições e abordado a matéria como um prólogo de Thanos – Em Busca do Poder, o segundo prelúdio de Desafio Infinito.

A arte de Ron Lim é limpa e bonita, trabalhando muito bem o Surfista, Thanos e a nova versão de Drax. Ele é eficiente na ação, ainda que não haja arroubos criativos. Muito ao contrário, há um tom burocrático na evolução dos quadros, algo que acaba não chamando muito a atenção do leitor além das figuras imponentes dos dois seres antagônicos. Diria, porém, que o maior problema são as cores de Tom Vincent, muito vivas e que destoam de uma história que aborda a morte de metade dos seres vivos do universo. O Surfista particularmente sofre com a luminosidade de sua pele prateada que, aqui, é branca e azul com diversos “brilhos”, o que o deixa muito caricato.

O arco A Ressurreição de Thanos é uma oportunidade perdida, um exemplo da banalização da morte nos quadrinhos, além de ser um mau uso do Surfista Prateado. Uma pena que Jim Starlin já comece a mostrar, aqui, um certo desgaste ao lidar com o inesquecível vilão que criou.

Surfista Prateado: A Ressurreição de Thanos (EUA – 1990)
Contendo: Surfista Prateado, Vol. 3 (1987) #34 a 38
Roteiro: Jim Starlin
Arte: Ron Lim
Arte-final: Tom Christopher, Ron Lim
Cores: Tom Vincent
Letras: Ken Bruzenak
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: fevereiro a junho de 1990
Editora no Brasil: Editora Abril
Data de publicação no Brasil: maio a agosto de 1993 (Superaventuras Marvel #131 a 134)
Páginas: 23 por edição

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.